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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Fugindo do fim


Antes de sair, Rodriguez me liga no celular. Me pergunta sobre problemas ao entrar em igrejas, e eu o conto o que eu sei:

-Somos pontos concentrados de energia, almas velhas, e por isso somos “limitados” a certos costumes, símbolos ancestrais, lugares ditos como sagrados... Não vamos conseguir entrar em igrejas sem sermos convidados por alguém diretamente ligado à manutenção da fé do lugar, entre outras coisas... E me diz... Cavaleiro no sonho? Que cor?
-Verde
-Ok, você não vai dizer isso na frente de Lancaster, ok? Ele tem sonhado repetidamente que um cavaleiro verde mata a esposa dele... Ele não vai ficar feliz com isso. Certo, cavaleiro AZUL?
-C-certo... Acho que você poderá mesmo me ajudar muito, senhorita Khodasevich!
-O que eu puder fazer...

No land rover de Lancaster (ele dirigindo, claro) não tínhamos mais o problema de falta de velocidade nem o Erick ficava apertado. Jono já estava a caminho de ser cuidado em um belo hospital.

Já no pub onde combinamos, ele se aproxima. Não deve ser difícil nos encontrar, com Erick junto. Sentamos, fazemos nossos pedidos e conversamos.

O cara tava meio paranóico, mas não tiro a razão dele. Pesquisou sobre nós na internet, descobriu sobre Aleksei, e sobre mais algumas coisas que envolviam a todos nós. Eu também teria medo. Ele sabia que o presente que me foi dado era a Rosa das Emoções, ou Maçã de Eva, como ele a chamava. E nos mostrou uma rosa branca, muito mais branca que o normal, que quando eu rodei, senti um cheiro familiar e refrescante. Algo como cheiro de gelo, se isso existir. Ele recebeu essa rosa em sonho, dada por Iti, minha irmã deusa do inverno e da neve, no mesmo dia em que eu e Lancaster recebemos nossos “presentes”.

No meio da conversa e de toda a explicação sobre nexus e guerra entre os mundos, meu celular toca. Era o Henry.

-Graças!!! Como você ta, onde você ta?? To preocupada com você!!
-Tô bem, mas EU que estou preocupado com você, Shan. Vocês estão em risco. Com os poderosos de vocês sumidos, o meu povo retornou a cidade e quer vingança. Você sabe... Seu povo baniu o meu daqui e agora... Bom, o fato é que você precisa sumir. Eu to tentando conversar aqui, mas não garanto. Não quero você aqui. Vá pra um lugar onde esteja segura, fora da cidade. Rápido.

Fico sabendo que Anne está contando ao povo deles tudo sobre nós. Peço a ele pra cuidar de Baruk e Jimmy e pra arrumar uma desculpa pro Al. Aviso os meninos, convencemos Rodriguez a vir conosco pelo bem da família dele, afinal, o povo de Henry era honrado. Não usariam nossas famílias pra chegar até nós, mas não tolerariam obstáculos para nos alcançar.

Passamos na minha casa, pegamos a espada e a rosa, além de roupas e meus documentos. Acomodamos a espada num case de teclado com almofadas e lençóis para absorver o sangue que não parava de correr ali, além de um reserva porque com certeza aquele ia ser pouco pra tanto sangue.

Rodriguez ao ver aquilo tudo se desespera, achando que está no meio de um grupo de malucos e só piora quando eu tento pedir pra ele segurar a espada pra ver o que aconteceria, mas sinto vontade de usá-la. Largo a espada, por sorte, conseguindo resistir ao impulso. Claro, ele sai correndo. Tento me aproximar depois de colocar minhas coisas no carro do Lancaster, mas ele tem uma faca. Está MUITO assustado.

Saindo dali, escutamos um uivo. Acho que isso o assusta mais. Entramos todos no carro e corremos para a casa de Lancaster. Mas chegando lá, sinto um frio na espinha. Não sei o que era, mas sei que não quero me aproximar da casa dele. Na mesma hora que eu digo, Rodriguez também começa a dizer que não quer entrar lá. Lancaster para o carro a alguns metros e diz que precisa ir buscar suas coisas, sai e vai para casa a pé. Decidimos correr dali. Na verdade Erick decide por mim. Se eu não estivesse agarrada ao case, a espada teria ficado para trás quando ele me colocou sobre os ombros e começou a correr. Alguns metros depois, Lancaster vem correndo em direção a nós. Alguma coisa o assustou e ele parece não ter nem entrado em casa. Não importa, vamos todos para o carro em direção ao heliporto. Ainda bem que Lancaster vai bancar, e tem condição pra isso.

Na tentativa de alugar um helicóptero, todos saem do carro, menos eu. Não ia ser simpático uma menina com a coxa e braço tatuados, suja de sangue. TODA suja de sangue. Mas algo pesado cai sobre o teto do carro. Quando Erick tenta me tirar do carro, percebemos que era o Henry. Ele estava sujo de sangue, mas não tinha ferimentos.

-Henry!! Como você ta?? Meu Deus, ta machucado?? – digo entre abraços e beijos que nos damos, assustados ainda com tudo. Engraçado em como eu me sentia segura com ele, mesmo sabendo que o povo dele queria meu fígado assado, e não era no sentido figurado.
-Tô bem, mas se vocês querem viver, têm que ser mais rápidos que isso.
-Mas eles não vão te punir por estar nos ajudando?? – pergunto, preocupada com a segurança dele. Ninguém mais se atreve a dizer nada diretamente a nós, nesse momento.
-Não, ainda não estão atrás de vocês, diretamente. Mas vocês têm q sair daqui logo.
-Do país ou da cidade?
-Da cidade já é o suficiente.

Nos beijamos novamente, antes de eu entrar no carro com os outros, pra fora dali. Henry fica nos observando à distancia.

Até que, no meio do caminho, Lancaster e Rodriguez começam a agir como Lancaster agiu antes de “ganhar” o medalhão do anjo, como se escutassem um barulho alto demais. Rodriguez fica apontando a faca para mim, assustado, enquanto os dois conversam com algo ou alguém invisível.

Disseram que o anjo poderia no transportar para o norte, onde os iguais a nós estavam. Concordamos. Uma luz imensamente forte em nossa direção, parecia que íamos bater, mas quando nos demos conta o caro estava na proa de um grande quebra gelo, em pleno oceano. Frio demais.

A espada já não sangrava mais, e pude mudá-la para o case reserva, já que o sangue estava congelando e estava muito pesado aquele. Era hora de descobrir onde exatamente, a gente tinha ido parar...

O início do fim


Casa do Jono. Estranhamente clara, a escuridão não aprecia mais estar ali, como seria o normal. Ninguém atende. Ligo para os Manson e pergunto se tem noticias de Jono, e eles não tem há um bom tempo. Tem algo errado. Vou arrombar a porta. Chuto várias vezes, mas ela cede só um pouco, nem abre. Consigo a simpatia do senhor que mora ao lado e ele me deixa pular o muro dos fundos. Por lá eu quebro o vidro da porta daquela área e entro.

Depois de procurar pela casa, escuto algo se arrastando no andar de cima. Encontro Jono em estado de choque, dentro do armário, com os olhos completamente azuis. Apavorado, não conseguia nem falar. Ligo para o doutor Lancaster e peço que ele vá para lá. Os Manson não atendem.

Ele e Erick chegam logo, sem a Anne. Lancaster constata que Jono além de desidratado, teve o pigmento dos olhos “drenado”, mas ainda enxergava. Apesar do estado quase catatônico. Manson ainda não atendem.

Erick e eu decidimos tentar usar a espada e a placa juntas, mas Lancaster não permite, o que deixa Erick Bem nervoso. Eles brigam e já no carro, consigo convencer Lancaster a voltar e terminar o tratamento de Jono. Erick, assim como eu, vai correr para aliviar o stress.

Resolvo ir atrás dos Manson. Chegando ao carro, Erick me conta a novidade:

-Não tem mais nenhum nexus na cidade!
-COMO ASSIM?
-Não tem mais! A garota corvo, que nos observa, disse que só ta a gente na cidade! Que todos os líderes sumiram!

Eu já havia ouvido falar dessa garota. Cora. Ela se transformava num corvo. Meio bizarro, mas depois de tudo, eu tinha que ficar feliz por não brilhar no escuro. Não ainda, pelo menos... E então me dou conta:

-PQP!! OS MANSON!
-Você não vai lá sozinha.
-Mas eu preciso achar eles!
-Vamos todos.

Chamamos Lancaster, que resolve ir em casa e buscar a Anne quando fica sabendo o que estava acontecendo e onde íamos.

Ligo para Henry:

-Shan?
-Ei Henry! Tudo bem?
-Sim, e você?
-Bem... Onde você ta?
-No treino, porque?
-Porque a gente precisa do Rasga-Terra. Agora?
-Rasga-Terra? Como assim?
-Eu sei, Henry... Não precisa esconder.
-Sim, COMO você sabe é o problema.
-Longa história. Posso te esperar?
-Onde você precisa dele?

Passo o endereço. Digo pra ele não ir antes de eu avisar a ele, podia ser perigoso. Ele concorda. Peço a ele pra se cuidar. Apesar de envolvê-lo nisso, tenho medo por ele. Muito medo.

Enquanto eu e Erick vamos até a minha casa buscar a espada e o colar, Lancaster vai até a casa dele com Jono buscar Anne.

Tudo certo, nos encontramos no portão do ferro velho. Henry não está lá.

O lugar está uma bagunça. Carros espalhados, tudo fora da pouca ordem que era mantido. Porta da frente arrombada, nada de cachorros. Preocupante.

Durante as buscas pelos gêmeos, Anne me conta, discretamente, que Henry estava ali sim, mas do outro lado e diz que ali não há mais nada vivo.

Encontramos uma trilha de sangue, além de sinais de luta na casa. A trilha levava até uma pilha de carros. Quando Lancaster, Erick e Anne levantaram as ferragens, vimos uma marca de explosão, e a trilha terminava ali.

Digo para irmos embora, ali não é seguro. Todos concordam e vamos para a minha casa. Já na minha casa, Anne diz que ela iria ver se Henry precisava de ajuda. A peço para me manter informada e para dizer a ele para dar noticias assim que possível. Ela concorda e vai.

Ótimo... Uma poça de sangue no meu quarto... A espada, sangra MUITO e já está tudo ensopado e manchado de vermelho.

Durante a discussão sobre o melhor para Jono, o celular de Lancaster toca. Era um jovem chamado Henrique Rodriguez, que ligava procurando a doutora Lancaster e ouço algo sobre “castelo”. Peço para falar com o cara. Quando ele ouve uma voz feminina, já solta de uma vez, sem pensar:

-Doutora, preciso falar com você sobre meus sonhos, é urgente. Sonhei dessa vez com um castelo de pedras vinho, parecido com uma árvore, e com uma mulher que parecia a deusa do gelo e chamava Iti, que me encontrou e me levou até Ízidur, que disse que eu era o cavaleiro perdido dele. Eu não sei o que fazer, o anjo que eu ajudei ta me parecendo mais um demônio, to com medo, preciso falar com você urgente!
-Ok... Calma... Eu não sou a doutora Lancaster, mas posso te ajudar...

Depois convencê-lo de que não tínhamos seqüestrado a doutora e que poderíamos mesmo ajuda-lo, dizendo que era mesmo um anjo, Uriel, que eu era “Maria” e havia ganho um presente de Deus, ele topou nos encontrar e ficou até mais calmo. Passo meu número a ele e vou me arrumar para conhecer alguém com mais problemas que nós três juntos. Só esperar a ambulância que vai levar Jono para o hospital do Lancaster...

domingo, 11 de outubro de 2009

Construindo algumas fantasias, desfazendo outras...


Quase três horas depois, um telefonema. Eles avisando que a garota sumiu, que não está em lugar nenhum, mas não parece ter saído da casa. Sim... A sensação que tenho é que ela realmente não saiu. Pego o endereço, volto a espada pro lugar e vou ate lá.
Uma casa enorme! Ele deve ter MUITO dinheiro... Acho que vou abrir um hospital também.

-Lancaster, se eu achar essa menina, ganho um estetoscópio?
-Tá... – sem entender, arrogante como só ele.
-Então me arruma uma bacia com água.

Na outra memória, quando se passou um mês do leilão, Henry estava muito mais consciente das coisas, mais até que eu. Me ensinou o “truque” de me concentrar olhando alguma superfície reflexiva para facilitar a passagem para o outro lado. E funcionava.

Bacia com água na frente, me sento em posição de lótus e me concentro. Logo estava do outro lado.

A casa dele era fria ao extremo, estando ali. Muito escuro, mas não como Jonothan ou Zós deixavam os lugares... Era sombrio. Chamo a garota, Anne. Em pouco tempo, a resposta.

-Você não devia estar aqui. É perigoso demais pra gente como você.

Ok, cadê a menina do “sim, mestre” ou “posso, mestre?”, que só falava se Lancaster permitisse, e só não era mais submissa porque não aparentava ter nenhum tipo de problema mental? Mas eu não ia perguntar isso ali, naquele lugar.

-Anne, estão procurando por você. Estão preocupados.
-Não sabia que já havia se passado tanto tempo assim... Vá. Eu volto agora mesmo.
-Não achei seu corpo na casa.
-Venho para cá de modo diferente de vocês. Eu rasgo a realidade.
-Como Amélia? Ou a Fúria?
-Você a conhece?
-Sim... Uma longa historia. Sabe se existe algum filhote chamado Henry?
-Não vou saber pelo nome humano.
-Loiro, alto, olhos muito azuis. Uma tatuagem de uma asa presa a algo parecendo de metal, com um parafuso, nas costas, do lado esquerdo?

-Sim... O Rasga-Terra.
-Hein?? Rasga –Terra?? Porque isso? – estava gelada por dentro mais que aquele ambiente me mantinha por fora. Então ele era mesmo um deles. Mas ele ainda jogava! Eu não conseguia raciocinar... Ele corria risco demais! – Quem o ensina?
-Fúria.
-Anne, preferia que fosse você.
-Não sou tão mais velha que ele para isso. Agora vá. Os espíritos estão ficando cada vez mais difíceis de controlar, eles podem te ferir. Conversamos em outro lugar.
-Tudo bem.

Me concentro e volto. A volta é sempre mais fácil. Acordo amparada pelo Lancaster. Eu aparento um desmaio quando vou para o outro lado, mas esqueci de avisar.

-Você está bem??
-Sim, obrigada, doutor... Ela já vem. Cadê meu estetoscópio?

Segundos depois, Anne aparece. Vou com ela a outro cômodo da casa para terminarmos de conversar. Ela me explica que precisa criar um elo forte com um nexus para conseguir se manter na cidade, que só assim a permanência deles, do tipo deles, é conseguida, por isso todo o teatro com Lancaster. Me conta também que Henry só fica na cidade porque o nosso elo o mantém ali. Agora entendo... E se depender de mim, ele continua em Londres.

Voltamos para a minha casa. Lá os caras me contam que colocaram a placa numa centrifuga, e foram transportados a outra dimensão, onde encontraram um anjo. Só que agora a inscrição (que era o nome do tal anjo) havia sumido. Sem saber por que, imaginamos varias teorias. Tempo para usar de novo, limite de uso atingido, e outras coisas do tipo.

Mostro a espada. Erick tenta tocar, mas ele não consegue segura-la e diz que espada está muito quente, além de correr um fio de sangue sobre as inscrições dela, quando aproximamos ela dele. Lancaster pega a espada e a roda no ar. Para assustado, dizendo que ouviu gritos de pavor e medo, mas que por um momento, foi agradável. Eu pego a espada, giro e tenho exatamente a mesma sensação. Erick continua sem conseguir tocar a espada, e ela sangra sempre que a apontamos para ele.

Sem mais idéias, peço que não falem a ninguém, e digo que confiar em pessoas que já estão nessa há mais tempo pode ser perigoso. Que era melhor mantermos as coisas entre nós. Eles concordam.

Vamos até o hospital buscar meu estetoscópio. No caminho passo num sex shop e compro algumas coisas interessantes. Numa loja própria próxima ao hospital, um vestido e sapatos brancos. Levo Anne comigo para que ela possa respirar sem ter que fingir. Lancaster se dá conta e pergunta:

-Médica ou enfermeira?
-Não é da sua conta! E que diferença faz? Não é pra você! – rio e entro no carro. Dessa vez, SEM a Anne. Mas vou falar com Jono. Tenho muito a contar à ele sobre esses dias insanos...

sábado, 3 de outubro de 2009

Marionete


Acordo no meu quarto. Agora tudo, mas tudo mesmo, faz sentido...

Quando fui atacada pelo ladrão e perdi Anikka, Henry estava em casa, mas a polícia pegou o cara. Meu irmão interceptou o carro e entregou o cara ao Henry. Que o matou. Aleksei arrumou outro bandido com uma ficha criminal extensa para colocar a culpa e me livrar da acusação de homicídio, Afinal a policia havia ME visto batendo no cara. Com o tempo eu vi que tinha algo estranho e pressionei Henry, que me confessou. Aleksei sempre se fazia de desentendido quando eu falava com ele, mesmo dizendo que já sabia de tudo pelo próprio Henry.

Nos meses seguintes eu e Henry não conseguimos ficar bem. Ele tem muito medo do que ele pode fazer, depois de ter sido capaz de matar um homem. E por mais que eu dissesse que ele havia feito aquilo por mim, ele não cedia, dizia que era o temperamento dele, a fúria que ele sentia. Em junho de 2007 nós terminamos e ele se mudou do loft.

Tivemos algumas recaídas, afinal era ele o meu sócio na academia, nos encontrávamos sempre. Mas não conseguíamos ficar mais de uma noite juntos. Eu sabia que ainda nos amávamos, mas já não havia espaço para continuarmos.

O sentimento estava brando pela distância de quase um ano. Conseguíamos tocar nossas vidas, até ficávamos com outras pessoas mas nunca foi nada sério nem pra mim, nem pra ele. Até uma ex dele foi na academia, só pra me encher...

Fora tudo isso, as coisas não foram muito diferentes. Eu não sabia se o Henry já tinha descoberto quem ele realmente era. Talvez ele só fosse naquela memória... Não, não era só ali.

Na ocasião da visita à casa da srta. Borlins ele estava presente e tudo aconteceu como eu me lembrava. Encarou o sr. Ausbury, meteu medo em mim, ouviu as mesmas coisas do companheiro da srta Borlins. Ele foi comigo porque estava sem carro e eu o deixaria no treino já que ele ainda era um jogador de rúgbi, até mais famoso que “antes”. Por isso também a academia estava mais cheia. Sócio famoso faz bem pros negócios.

O dia 17 de abril nunca tinha existido. Foi outra do Chambers.

Sim, era aquela a verdade... Era o que eu sentia, apesar das duas memórias estarem muito nítidas e reais em mim. Tanto quanto aquele sonho.

Se aquele sonho era real, então... Eu sou alguma deusa? Por isso eu tenho essa “certa resistência” à manipulação do Chambers?

Tá, e por que querem fazer isso com a minha família, por que fazer todo mundo esquecer o que realmente são, por que tentar me impedir de lembrar???

Agora só quero ver o Henry. Ver o que sinto olhando nos olhos dele. Aquela paixão desenfreada não pode ter sumido assim, do nada... Eu sei que já estamos separados há algum tempo, e talvez por me sentir como me sinto nesse momento em relação à ele que tenha tanta certeza disso...
Ligo pra ele, pergunto se vem à academia. Como ele tem um jogo na terça feira, malhar num sábado antes do treino não dá. Desgasta demais. Tudo bem normal. Desligamos.

Mas eu ainda preciso vê-lo. E eu sei onde ele mora.

Chego sem dificuldades. Reconheço o porteiro, ele me reconhece, me anuncia, e eu subo pelo elevador. Porta do apartamento fechada. Fico tensa. Toco a campainha. È ele quem abre a porta e me convida a entrar, me olhando de um jeito terno e tímido. Me cumprimenta com um beijo tímido mas íntimo, no rosto.

-Ei... Eu tava arrumando minhas coisas, tenho treino agora... Ta tudo bem?

Noto a bolsa que ele leva pro campo sobre o sofá.

-Sim, ta tudo bem... Eu passei aqui pra ver como você está.
-Eu to bem... Mas você pelo visto não. Que foi?
-Não, to sim. Só tava preocupada com você. Não queria incomodar e nem te atrasar. Desculpa. – falo sorrindo. Ele me responde sorrindo também.
-Shan, para... Você não me incomoda. Mas agora quem fica preocupado sou eu, né.
-Não se preocupa, ta tudo bem. De verdade. E eu já vou, não quero atrasar você.

Sigo para a porta e ele vem comigo. Antes de abrí-la, ele me abraça forte, não ultrapassando os limites da amizade, mas deixando claro o que ainda sentia. Entramos calados no elevador e assim ficamos até eu descer. Ficamos nos olhando até aporta se fechar, comigo já no térreo e ele seguindo para a garagem.

Ele estava bem, eu estava bem. Nos amávamos, mas a distância nos fez seguir com nossas vidas. Simples assim.

Então, recapitulando:

Meu sócio na academia sempre foi o Henry.

Henry mata aquele cretino, se sente tão mal que não conseguimos conviver e nos separamos.

Aleksei finge não saber de nada.

Tenho uma bandinha de garagem com o Black Dog na bateria, Marrie no teclado, Carlos no baixo e eu na guitarra. A gente toca ás vezes em uns pubs, por pura diversão.

Eu conheci mesmo Jonothan. Nosso “primeiro encontro” não foi na loja de vestidos de noiva mas sim enquanto eu olhava uma vitrine. Vi seu reflexo por trás de mim e ele não estava lá. Depois foi tudo como eu “me lembrava”.

Foi ele quem me mandou falar com o louco do médico, que cortou mesmo um dos gêmeos. E sim, eu levei o Henry ao hospital numa noite em que ele passou mal, e o doutor reagiu daquela mesma forma.

Eu pedi mesmo a pulseira de ferro puro para os gêmeos, pelos mesmo motivos, eu passeava sem querer do outro lado.

Fui à casa da srta. Borlins para falar sobre mim, sobre quem eu era.

A primeira vez que fui intencionalmente para o outro lado foi para tentar descobrir sobre aquele homem de olhos azuis que invadiu minha casa durante abriga com Amélia, depois do incidente em que ela o matou.

Sim, fiz o MALDITO acordo com a aranhas de respeitar a cidade em todas as suas formas...

Ok... Agora preciso voltar à minha vida enquanto tento descobrir quem eu sou de verdade. E principalmente porque estão tentando me fazer esquecer disso. Preciso de aliados. Jovens.

Os gêmeos! Devem estar tão frescos nessa história quanto eu. Eu tenho que buscar a pulseira que eu pedi e afinal de contas... Dessa vez estou solteira.

Surpresas


As aranhas me ajudam mais uma vez a encontrar quem eu preciso. Amélia está ferida, escondida em um parque se recuperando. Pulo o portão do parque para encontrá-la, mas ela me encontra primeiro.

-Veio zombar de mim, boneca dos espíritos?
-Não, Amélia. Vim dizer que Henry precisa de você.
-Henry? Quem é esse?
-Você não se lembra?? Ele é um dos seus, você cuidava dele!
-Não. Eu não cuido de ninguém, sou solitária. Não existem filhotes perdidos.
-Ok, manipularam a sua memória também. Saco, não acredito nisso!
-Vocês não têm capacidade pra isso. Não existe nenhum filhote perdido.
-Então procure por um. Henry Thompson. Infelizmente não sei mais onde ele mora, mas acho que você tem seus meios para encontrá-lo. E me encontrar quando descobrir a verdade.
-Quando descobrir a verdade, as vísceras de quem devem ser expostas para que tudo volte ao normal?
-Não sei se isso resolveria. Pode acabar fazendo com que tudo fique como está permanentemente. Não sei ainda como resolver. Quando descobrir, me encontre e a gente vê o que fazer.
-Com esse cheiro vai ser fácil, boneca dos espíritos.
-Precisa de ajuda?
-Nunca precisei.

Volto pra casa. Tenho que rever as partituras, as letras... Mas nada ainda faz sentido... Fico ali, olhando... Já são duas e meia da manha, e nada ainda. Quando o cara dos computadores me liga e diz que terminou o serviço eu nem acredito. Corro até lá para ver o que eu descobri.

Ele me explica que não foram sites visitados e sim uma troca de emails com alguém que com certeza, não seria possível encontrar com o endereço de IP do servidor. Era alguém que sabia se esconder. Eu havia pesquisado muita coisa nesse sites de busca comuns, era só o que eu poderia fazer. Até receber o primeiro email dessa pessoa, que não era lá muito gentil.

“Vc ñ vai axar nd do q procura nesses sitezinhos d busca. Idiota.”

“Qm é vc? Como sabe o q eu to procurando?”

“Alguém que sabe + de pc q vc. E t digo, vc ñ axa nd assim”

“Como eu acho entao?”

“Isso é coisa pra falar pessoalmente. Ñ é assim ñ.”

“onde?”

E tinha um endereço lá, com uma data para o encontro, que já tinha acontecido há algum tempo. Resolvo mandar um outro email para aquele endereço.

“Ei, preciso falar com vc. Te acho no mesmo lugar?”

Quase instantaneamente a recebo a resposta.

“Cmo assim? Do nada? Qual é a senha?”

“Ando com um probleminha de memória. Por isso preciso te encontrar. Quero saber o que a gente conversou aquele dia.”

“Se vc ta com problema de memória, como vou saber que é vc?”

“cara, vc me conhece. Eu não to lembrando de NADA, mesmo.”

“e se a única coisa que vc se lembra é que quer me matar?”

“Eu não sei o que eu almocei ontem... Sério.”

“Então vc precisa de uma boa refeiçao. Vai na rua Bedford, nº 2541. Dizem que a comida é ótima. Deve ta fechado, mas quem sabe num abrem pra vc?”

“que comida o q, quero resolver minha vida. Apagaram minha memória, apagaram a memória do meu noivo, eu to ferrada. Não é d comida q preciso.”

“eu tenho uma solução pra isso. Quase uma pílula d dia seguinte, saca? Vai por mim, uma boa refeição é o melhor a se fazer agora... vai nesse endereço q t dei e vc vai sacar.”
“ta, né. Vou lá. Bom, sabe q eu num to no meu pc, então sinta-se a vontade pra apagar o q quiser sobre essa conversa daqui.”

“ok.”

“brigada”

Não obtive resposta. Faço o cheque, mas só pego o note amanhã porque o cara ta sem o HD novo que preciso. Vou pro tal restaurante.

Chego e bato na porta, esperando. Da janela, algúem responde:

-Bom, estamos fechados. Desculpe.
-Eu preciso comer... Desculpa... Não tem como abrir rapidinho, por favor?

Quando consigo ver quem estava ali não acreditei. Jacqueline WhiteWood. A mesma que salvou o Henry há... Bem... um mês.

-Jacqueline WhiteWood? Não me reconhece?

Ela me olha e quando me reconhece, desce e abre a porta. Lá dentro, enquanto ela me convence a realmente comer alguma coisa e prepara uma lasanha, eu vou explicando tudo o que houve. Digo que até cogitei a hipótese de procurá-la, mas achei que ainda não era a hora, que estava ali por acaso, que algúem com quem eu havia conversado dias atras me disse para ir lá dando apenas o endereço, sem falar quem eu encontraria ali.
Ela disse que conversaria com Tajana e veriam se seria apropriado que elas intervissem. Me explicou das conseqüências de se apagar uma parte do tempo, que as coisas importantes e boas que foram feitas naquele período poderiam nunca mais existir. Eu sabia de tudo aquilo, por isso não as procurei no início do dia. Me disse que eu saberia a posição delas, quer fosse acordando no passado ou por um telefonema explicando que não poderiam me ajudar. Eu entendia, de verdade.

Voltei para casa. Precisava continuar revendo as partituras, precisava descobrir o que tava ali, bem na minha frente e que tava sendo o motivo da minha vida virar de pernas pro ar.

Comecei a tocar uma delas, tentando achar sentido. Foi quando escutei a voz de Chambers me perguntando se eu tava bem. Ignoro. Ele insiste. Eu pergunto, nervosa, se ele podia me deixar em paz, quando começo a me sentir tonta, muito tonta. Fecho os olhos para tentar amenizar a sensação. Ligo pro Al, peço pra ele ir lá.

-Quem é Al? Ele pode te ajudar? – pergunta Chambers.

Então abro meus olhos. Estou de volta no leilão. Mesma roupa, mesmas pessoas me olhando sentada numa cadeira, Chambers à minha frente, como se me ajudasse. A tontura passa. Meu celular marca dia 18 de março de 2008. Será que as WhiteWood já reverteram tudo???

Ligo pro Al e digo que estou bem, melhorei, foi só uma tontura forte. Ele não se contém e diz:

-Shan, fala sério... Tá saindo com algum carinha que não presta, né?
-Que cara, Al! O Henry não é tão liberal assim!
-Ué, pensei que vocês já tinham se acertado a esse respeito. Ou vocês voltaram e não me contaram?

Como assim, “VOLTARAM”?? Olho meu dedo. Nem marca da aliança tem.

Saio dali correndo pra casa, na medida que o limite de velocidade permite. MALDITO ACORDO!

Lá, não acho nada do Henry. Só no fundo do meu armário, uma caixa pequena com o nome dele escrito e alguns poucos objetos sem importância dentro.

Só podia chorar. De raiva, desespero, medo, impotência, por medo do que me tirariam no dia seguinte. Adormeci...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Arrumando a casa


Agora eu precisava colocar minha cabeça no lugar. Tinha que agir com calma e discretamente. Chambers queria que eu fosse até ele, senão ele simplesmente recriaria todo um mês na minha memória e eu nunca desconfiaria. Mas eu não podia fazer isso. Não agora.

Fui ao outro lado e as aranhas me ajudaram a encontrar Miguel. Contei o que houve e sutil como só ele, me sugeriu ir até o Chambers e bater nele até ele confessar, sem deixar que ele se concentre, evitando que ele me faça perder mais da minha memória. Não era bem o que eu pensava em fazer. Em último dos últimos casos, pode até servir... Não! Pára, não vou fazer isso...

Ligo pro cara que vai arrumar meu note. Ele tava numa boate, e não ia sair de lá. Disse que pagava dobrado e ele me deu o endereço. Nos encontraríamos no “escritório” dele.

Espero na porta, e ele não é lá como eu pensava. Era tanta bagunça lá dentro que eu não tinha nem onde sentar. Combinamos o preço, que ele trabalharia direto até conseguir e que nem atenderia telefonema se não fosse meu. Ele pareceu gostar do “serviço de espionagem pesada”.
Melhor assim. Era um processo químico, mas ele conseguiria salvar meus dados, só ia precisar de um HD novo, que tava incluído no preço. Preciso voltara pra casa agora.

Quando saio vejo um homem encostado no meu carro, me olhando. Devo tá muito ferrada...

-Khodasevich?
-E você quem é?
-Direta. Hector Haggis. Você me procurou há algum tempo.
-Pode até ser... Sabe, ando com a memória meio fraca. O que você quer?
-Aqui não é um bom lugar para conversarmos. Podemos ir à algum outro?

Escolho um lugar cheio, um pub ali perto. Ele vai a pé e eu de carro. Passo por ele, chego no pub, entro, e o cretino tava lá, de pé ao lado da porta, me esperando! Cara, eu tenho que rever minhas amizades... No mínimo os meus “contatos”...

Nos sentamos. E ele começa a falar muita coisa que fazia sentido.

-Você me procurou há pouco mais de duas semanas. Sabia que corria o risco de perder suas memórias, queria alguém que não estivesse no meio da guerra pra te ajudar. Um pouco mais confiável que os que estão na frente das coisas, hoje.
-O que eu te disse?
-Que sabia que seus pais tinham um segredo. As pequenas discrepâncias na historia deles, o fato de eles parecerem familiar aos antigos da cidade... Eles faziam parte da cidade há anos atrás. Desta cidade, deste grupo.
-Meus pais??? Diana Trevor Verkko e Isaack Rainer Khodasevich?
-Sim. Só conheço um casal com esses nomes. Quem mais seria?
-Mas... Então... Porque eles sempre fingem não saber de nada? Eles SABEM que isso é hereditário, porque não me ajudam?
-Porque eles não sabem... Você não está entendendo, Shantel. Eles não sabem.
-Como assim???
-Alguém não quer que a sua família se lembre quem ela é... Você de alguma forma, tem uma certa resistência à esse jogo de manipulação de memórias. Como você consegue eu não faço idéia. Mas certamente consegue.
-Eu te dei alguma pista sobre alguma coisa?
-Não a mim, e nem deixaria nada fácil demais. Se você escondeu alguma coisa, não vai encontrar nunca. Não tem algo que seja só seu?
-Sim... As coisas da minha filha...
-Você tem uma filha?
-Era pra ter... Perdi o bebê, durante um assalto.
-Não quero saber. Não precisa contar. Deve ser doloroso demais pensar nisso. Mas se acha que tem algo lá, procure. Outra coisa. Não confie em ninguém. Nem em mim. Posso nem mesmo me lembrar de você no nosso próximo encontro. Se quer aliados, busque em crianças como você.
-Eu vou. Obrigada.
-Tudo bem. Mas não sou como os dessa cidade, lembre-se disso. Para me encontrar, vá até a catedral se St. Louis e fale com quem estiver lá. Você não devia se lembrar de como fazer isso.
-Claro. Obrigada assim mesmo.

Deixamos o pub. Fui direto pra casa olhar as coisas da Anikka. De fato, havia algo lá. No álbum dela, aquele clássico que acompanha desde a gravidez até a idade escolar da criança, na idade que ela teria hoje, nove meses. Deixei anotado “está na hora de compor novas canções para você”.
Seis composições novas. Letras superficiais... Ótimo! Tenho que colocar na cabeça que detetive é o meu irmão! Não faz sentido nenhum pra mim, nada!!!

Ligo pra Marrie, tiro ela da balada pra ela me ajudar a decifrar isso aqui. Mas claro, ela está completamente bêbada, não vai me ajudar em nada! Ok, deixo ela onde ela quiser, preciso pensar com clama e ela com certeza não faria isso.

Surpresa. Na porta da boate. Vejo o Henry abraçado, caminhando com uma mulher. Paro na frente deles.

-Boa noite.
Ele me olha como se não me conhecesse. A mulher quer me matar. Ele responde, surpreso:
-Boa noite... Desculpa, a gente se conhece?

Ele esta sem aliança. Parece mesmo não me reconhecer. Peço desculpas e saio de perto. Cara, eu vou MATAR o Chambers. Ligo pro Al e pergunto se ele se lembra do meu noivo. Ele ri e pergunta se eu ainda vou me casar, se briguei com o Henry. Ele se lembra. Falo que não é nada, liguei atoa e desligo. Não antes de escutar ele me perguntando se eu to usando drogas. E ele tava falando sério.

Ao que tudo indica, foi só com o Henry. Vou falar com a Amélia. Tutora dele, ela deve saber um meio de traze-lo de volta à realidade.

Eu espero...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O leilão



Chegamos em casa no tempo certo de eu me arrumar e ir ao leilão da srta. Borlins. Henry não ia por motivos óbvios, caberia somente a mim sorrir e fingir de boa moça. Então eu coloquei um vestido longo, vinho, justo até os quadris, onde se alargava levemente, com uma echarpe preta cobrindo os ombros. Brincos, anéis e gargantilha prateados, com os cabelos presos num coque frouxo.

Chegando lá, um manobrista pegou meu carro e eu entrei calmamente. Ganhei um catálogo das peças que seriam leiloadas.

Quadros, estatuetas, jóias... Um bracelete lindo, de prata... Wow! Que colar é esse??? Uma rosa lapidada num rubi, maravilhoso! Mas pera... Um rubi INTEIRO??? Eles lapidaram essa rosa NUM RUBI SÓ??? Lance inicial... Ok, desisto. É, isso aqui vai ser chato mesmo.

Ah, ela tá ali. Vamos acenar para a srta. Borlins ver que eu aceitei o convite dela, sorrindo... Isso... Sorte ou azar, ela tá rodeada de gente, eu não vou conseguir nunca falar com ela. Opa, leilão começando, hora de entrar na sala.

Que coisa estranha... A energia do lugar parece quase palpável, se move... Na direção daquele cara da primeira fileira. É, ele me viu olhando pra ele e sorriu pra mim... Vai começar o leilão.

Ah, que saco... Como demora... Vou mandar mensagem pro Henry. "Isso aqui tá um saco. Tô na 1 sala, são 6. Cada sala leiloa por sessão 10 peças. Tamos na 9 peça daqui, nessa sala há 40 min. Imaginou q horas chego, né? Te amo. Bjos"

Ufa! ainda bem que coloquei no silencioso. Resposta dele. "Precisa que te tirem daí? Tô indo. Tbm, bjo."

"Ñ preciso!! Pode deixar! Bjo"

"Ok. Bjo"

"Henry!! O q vc vai aprontar? Sério!"

"Sério. Nada. Bjo"

Aiaiai... Ele VAI aprontar... Pelo menos esse martírio acabou. Só faltam mais uns cinco, SE eu ficar até o final... Hora de circular e tentar cumprimentar a srta. Borlins. Quem sabe beliscar alguma coisinha do bufett, ter idéias para o cardápio do casamento...

O tal cara vindo em minha direção com duas taças de champagne... Henry, por favor, não chegue agora...

Até explicar metade desse povo já vai estar morto...

-Oi! Eu não te conheço de algum lugar? - ele diz enquanto me oferece uma das taças.
-Não sei... - pego a taça, só pra não ser rude.
-Bom, ando com a memória ruim. Se eu morasse aqui acharia que você é uma das minhas alunas. Desculpe, não me apresentei. Robert Chambers. - estende a mão para mim, que o cumprimento.
-Shantel Khodasevich. Prazer!
-Khodasevich... Não me é estranho... Você também não é daqui, certo?
-Não, sou russa. Esse sobrenome é do meu pai, Isaack Rainer Khodasevich. Engraçado porque as pessoas costumam se familiarizar com o sobrenome da minha mãe, Verkko.

E a conversa seguiu esse ritmo trivial, tranquilo... Só não comentei o fato de que achei MUITO estranho mais uma pessoa se "lembrar" do sobrenome dos meus pais. Tá cada vez mais e mais estranho... E lá vamos nós, pra outra sala. Dessa vez aquele colar perfeito vai ser leiloado. Esse eu quero ver.

O colar está lá, bem à minha frente... Muito mais bonito que na foto do catálogo, sem palavras. Sim, eu queria aquela peça...

Ei... O que é isso... Que vertigem é essa, eu nem bebi nada... Esse som ao fundo parece meu despertador. Ai, tá escurecendo tudo...

Como assim???? Meu despertador?? Meu QUARTO??? COMO ASSIM???

-Henry!!! Henry!!! Acorda!!
-Shan?? Que foi tá tudo bem?
-Como eu vim para aqui?? O que tá acontecendo?
-Como assim, você tá bem? Você foi parar aí como sempre, ué... Não tô te entendendo...
-O leilão!!! Eu tava no leilão!!
-Ah... Sonhou com ele? Mas já faz tempo.
-Tempo??? Que dia é hoje?
-17 de abril. Tá tudo bem?
-17 de abril?? COMO ASSIM?? O leilão foi dia 17 de março! Um mês! Eu perdi um mês?
-O quê? Do que você tá falando?
-Eu não me lembro de nada, Henry. NADA, desde o leilão! Eu tava lá, fiquei tonta e apareci aqui!
-Tá falando sério?

Sim, eu amo o Henry, mas às vezes ele me deixa nervosa. "não, não tô falando sério, tô fingindo todo esse desespero." Preciso saber o que eu fiz esse tempo, pra saber porque fizeram isso comigo...

EI!!! O cara do leilão! CHAMBERS! A Archa me falou dele, das memórias! Filho da *&##$%$, sem mãe. Eu MATO ele... Assim que descobrir como chegar perto dele sem esquecer até que eu existo.

Henry me disse que eu fiquei bem misteriosa, perguntando muito para o Al sobre nosso pais, e que passei bastante tempo com o Jono. Mas o Jono me disse não sabe de nada, só que eu pesquisava sobre meus pais e estava descobrindo algumas coisas. A chave disso é a minha família. Mas por quê?

MERDA! Apagaram meu histórico do computador! Só alguns dias específicos, provavelmente os dias em que obtive algum resultado por aqui. Minha agenda... Não acredito! Arrancaram as páginas! Ah, mas eu mato um!

Encontrei o Al, mas ele não me disse nada demais e ainda achou que eu tô paranóica por causa do meu casamento. Só me lembrou de algumas informaçoes que não batem sobre nosso pais, mas passam batido como pequenas confusões. A falta de fotos deles mais jovens é estranho também, mas passa. Pros outros. Pelo menos o Al me ajudou a conseguir alguém que vai recuperar o histórico do meu computador... Vou perder meu HD, mas preciso saber o que tá acontecendo.

Meu casamento é em DUAS SEMANAS!!! Pelo menos o Henry aprendeu MUITO a se controlar... O que deixou o sexo muito, muito melhor. Eu já nem fujo mais! Mas ele me disse que tem saído algumas vezes para "cuidar do território" com Amélia, com ela tem aprendido melhor a se conter e a ser quem ele realmente é.
Pelo menos pra ISSO essa porcaria que fizeram comigo serviu...

Meu primeiro porre


Apesar de tudo, era sempre bom estar com o Henry. Parecia que tudo que nos acontecia de ruim só servia para fortalecer ainda mais nossa relação. Ele estudava como sair do time de rúgbi antes que matasse alguém, então havia tirado licença médica.

Na manha seguinte, tentamos mais uma vez e o resultado foi o mesmo. Eu saí correndo. Quando procurei pelo Henry, ele estava sentado no jardim, enrolado em um lençol, abatido. Vesti meu hobby e fui até ele. O abracei e disse que as coisas iriam se acalmar, que eu não ia desistir dele e não permitiria que ele desistisse de nós. Nos beijamos e ele resolveu ficar estudando Yoga enquanto eu trabalhava.

Nesse dia em questão, por volta das sete da noite, eu voltava das minhas aulas na escola de música e ouvi um barulho. Corri para o andar de cima do loft e vi um homem muito estranho, com roupas de couro de vários animais costuradas à mão, barba por fazer e uma faca artesanal atacando o Henry, que se defendia e atacava também. Eu já sabia que meu noivo tinha capacidade de se regenerar, era parte do que ele era, mas não podia deixar isso acontecer. Tentei investir contra o homem, mas aquele maldito medo apareceu e me fez esconder dentro do armário de vassouras, abraçada ao Baruk, que desde que o Henry se tornou o que ele é, andava muito triste e sempre se escondia pelos cantos da casa.

Corri até meu quarto e o homem ainda estava lá. A casa estava toda destruída, meu noivo coberto de sangue, imóvel, deitado na cama. Então o homem se virou pra mim. Fugi para a rua e o cretino pula da minha janela bem na minha frente. Volto correndo e tento sair pelos fundos, pulando o muro. Vou até um telefone público e ligo para o Aleksei, digo que fomos atacados por alguém e que o Henry precisa de ajuda. Ignorando a ordem expressa do meu irmão, voltei ao loft. Tentava de todas as formas estancar o sangue de Henry e não entendia porque ele não estava se curando. A ambulância chegou e fomos para o hospital.

Ele foi direto para cirurgia. Horas e ninguém se manifestava. Até que meu irmão decide descobrir o que estava acontecendo. Quando ele volta, volta com os olhos marejados e me abraça forte, dizendo que sentia muito. Empurro meu irmão e vou ate a sala pra onde levaram o Henry a tempo de ouvir o médico dizer “hora do óbito: 03:42 da manhã”.

Não!!! Não!!! Isso não estava acontecendo!!

Os médicos simplesmente saíram da sala, me deixando ali com ele. Entendiam e já até deviam estar acostumados a uma cena daquelas.

Eu gritava com ele, batia nele, não podia permitir que ele me deixasse também. Era injusto. Foi quando notei que ele estava duro demais. O lençol que cobria parte do corpo dele não se movia, estava rígido e não importava o quanto eu tentasse movê-lo. A porta entreaberta simplesmente travou. Tudo parecia de pedra e estava estranhamente silencioso.

Escutei passos no corredor. Duas mulheres entram no quarto onde eu estava. Se identificaram como as irmãs Jacqueline e Tajana WhiteWood. Disseram que assim como eu, também possuíam habilidades especiais. Enquanto Jacqueline conseguia parar o tempo, Tajana tinha capacidade de voltar no tempo, apagando o período do tempo que precisa ser "refeito".

Pelo que entendi a morte do Henry teve consequências em todo o mundo. Aquela história do bater de asas de uma borboleta... Somente eu me lembraria do que aconteceu, para que pudesse evitar.

Tajana estendeu a mão para o alto e a realidade pareceu queimar, derreter. Sem perceber, voltei ao momento da manhã, onde eu e Henry estávamos sentados no jardim.

Ele não entendeu porque eu chorava e o abraçava daquela forma. Pedi a ele que me tirasse dali, que fossemos para algum lugar longe de tudo, para ficarmos sozinhos. Passei minhas turmas do dia para o pessoal da academia e da escola de música. Mesmo sem entender ele arrumou tudo e nós fomos viajar.

Paramos num hotel em NewCastle. Nos hospedamos e fomos para o bar. Resolvi beber pela primeira vez na minha vida. Ele já estava costumado. Até experimentei um cigarro, mas me engasguei com a fumaça e desisti. Tudo era motivo para riso naquele dia. Bebemos tanto que eu nunca me lembrei o que houve em boa parte daquele noite. Nos divertimos muito, rimos muito. No dia seguinte algumas pessoas nos cumprimentavam e nos chamavam pelo nome, mas não fazíamos idéia de quem eram. Só ríamos com toda a situação.

Claro, mais uma tentativa frustrada. Eu acabava sempre cedendo ao medo e fugindo, para voltar logo em seguida pros braços dele e ficar ali, quieta, tentando convecê-lo de que ele ia se controlar.
No fim do dia voltamos pra casa. Eu e meu noivo, juntos.

Descobertas...


Fomos à casa de Archa Borlins no dia marcado. Logo de cara já vi que seria complicado. Eu não conseguia andar acima da velocidade permitida, não conseguia não parar em sinais mesmo que ainda estivessem amarelos e não podia deixar o Henry dirigir já que ele não podia se exaltar até que tivesse controle sobre essa fúria que o estava dominando. E me lembrei da promessa que fiz à aranha...

No prédio da nossa anfitriã, assim que as portas do elevador se abriram, Henry fareja o ar, como um animal, me olha com um olhar estranho e diz “Alfa!”. Não podia ser boa coisa...

Quando entramos, havia um homem na sala com a srta. Borlins. Ele e Henry se entreolharam e ficaram assim, parados, se encarando, quase numa cena de velho oeste. Simplesmente não se moviam, não piscavam, nada. Quase podia ver as faíscas saindo dos olhos deles. Achei que o pior fosse acontecer. Chamei pelo Henry mas ele não me ouvia. Virei o rosto dele em minha direção, e quando os olhos dele encontraram os meus, aquele medo primitivo me cegou.

Quando dei por mim estava encolhida no canto do elevador, a srta. Borlins do outro lado da sala escondida atrás de um sofá e os dois parados no meio da sala, segurando um no pulso do outro, ainda se encarando. Sem dizer nada, a srta Borlins me chama para perto dela e com o olhar me diz para não me envolver na situação. Me aproximo dela e ficamos as duas, quase sem respirar, olhando a cena no meio da sala.

-Vai ter sua chance, filhote. Não aqui, não agora. - O homem disse enquanto soltava o pulso de Henry. Contrariado, Henry concordou e soltou o homem.

Ele era Sr. Alfred Ausbury, companheiro da srta Borlins. Muito educado, nos pede desculpas e se retira.

Durante toda a conversa com a srta Borlins, Henry parecia distante. Mas o estranho foi quando ela esboçou familiaridade com o nome de meus pais e depois tentou fingir que não os conhecia. Enquanto me explicava mais um pouco sobre esse novo mundo que eu estava descobrindo, citou algumas pessoas. Algumas parecidas comigo e com ela, assim como Jonothan, o Sr. Alfred, Miguel, e um outro cara chamado Chambers (que eu ainda não conhecia, mas ela dizia ser alguém importante, que lidava com memórias), cada um com sua habilidade. Outras como Henry e Amélia, uma menina de nome estranho, que era uma espécie de metamorfa. Disse que henry tinha que aprender a controlar toda e qualquer emoção, qualquer uma delas poderia desencadear um ataque de fúria. Muito bom! Nos convidou a ir a um leilão de peças dela que aconteceria dali a dois dias pela casa Holtz, a mesma que Charlotte trabalhava.

Precisávamos ir embora. Ela tinha os compromissos dela, e eu tinha algumas coisas a descobrir...
Chegamos em casa. Henry quis andar um pouco para espairecer. Eu o esperei com uma camisola pequena de seda. Tinha que descobrir.

Quando ele chegou e me viu, desceu as escadas correndo de volta para a garagem. De lá me perguntou se eu tinha certeza. Claro que eu tinha! Então ele subiu de novo, já tirando a camisa.
O corpo dele parecia mudar. Eu sentia os músculos mais rígidos que o normal, ele já não era mais tão delicado quanto antes e parecia maior. Não me machucava, mas não permitia que eu dominasse a situação. Ao toque ele parecia ter mais pêlos no corpo, mas eu não via esses pêlos. Apesar de algumas diferenças significativas, as coisas estavam muito boas...

Até aquele medo me dominar de novo. Acordei no banheiro, trancada, encolhida. Voltei para o quarto e ele estava sentado, enrolado num lençol, envergonhado.

-Te machuquei, não foi?
-Não... Eu senti medo. Mas um medo irracional, eu não sabia o que estava fazendo. Só me lembro de estar aqui com você, e no instante seguinte estar no banheiro. – o abraço forte e ele corresponde.
-Shan, a gente tem que parar com isso. Não quero te machucar.

Eu sorrio.

-A prática leva à perfeição, meu amor. Ou você aprende a se controlar, ou eu acabo me acostumando, o que vier primeiro. Só não vou abrir mão de você...

Ele sorri e me beija com calma. Nos deitamos e ficamos abraçados até adormecer.

Meu noivo e minha primeira vez voluntária



Sorte ou azar, era mesmo o Dr. Lancaster de plantão naquela noite. Cuidou do Henry sempre nos enchendo de perguntas. Pediu licença a ele para me falar algo em particular.

Veio com o papo de que eu devia tomar cuidado que eu era “Maria” e que um anjo disse que ele devia tomar conta de mim e mais um papinho furado que se ele não fosse tão doido eu podia achar até que era cantada. Disse a ele que não queria saber e voltei para o quarto onde o Henry estava. ESTAVA...

Só encontramos as roupas dele e uns enfermeiros dizendo que ele tinha fugido. Como assim, fugiu??? Liguei para o Al, precisava de ajuda. Ele estava a caminho.

Saímos para procurar pelo Henry. Quando o encontramos não entendemos como ele andou tanto em tão pouco tempo, completamente nu. Mas o estado dele era o que mais assustava. Ele chorava, encolhido em posição fetal, como uma criança. Só permitiu que eu me aproximasse, ficava agressivo com qualquer outra pessoa. Consegui coloca-lo no carro e levar de volta para o hospital.

Ele precisava ser sedado para ser examinado e o idiota do Lancaster não me deixou ficar com ele. Mas de alguma forma ele conseguiu aplicar o sedativo e quando fui ver meu noivo novamente ele já estava dormindo.

Pela manhã Henry estava bem, acordado e não se lembrava de nada. Eu já havia falado com Jonothan, que esteve no hospital. Ele não conseguiu ao certo dizer o que havia com meu noivo, mas disse que conhecia alguém que poderia dizer. Apesar de não ser uma pessoa confiável e amigável, a Srta Archa Borlins saberia com certeza nos dizer o que estava acontecendo. Ele mesmo a pediu que fosse lá. Um pouco depois ela chegou. Muito bonita e altiva. Disse que Henry era um espírito antigo, primitivo, bestial, que estava despertando. E nos convidou para um chá na casa dela no dia seguinte, onde poderia nos dar mais informações a respeito disso tudo.

Dr. Lancaster nos disse que ele estava bem e não tinha ferimentos, mas não ia dar alta a ele. Pra piorar começou a insulta-lo, e disse que meu noivo era perigoso para mim. O cara já estava começando a me encher.

Enquanto o Henry se trocava no banheiro para irmos embora, o doutor veio dizendo que meu noivo era uma criatura primitiva, que não era como eu ou ele. Era algo diferente e perigoso. Que eu devia tomar cuidado, e claro, começamos a discutir. Então Henry fugiu de novo. Mais um ponto pro doutor!

Saí dali desesperada, sem saber pra onde ir. Fui pra casa e pela primeira vez, resolvi ir até o outro lado, tentar achar um meio para ajudar meu noivo.

Me concentrei e quando dei por mim, tinha conseguido. Chamei e ouvi uma resposta. De uma aranha... Pedi informação e o “espírito aranha”, como ela mesmo se denominava, disse que me ajudaria se eu prometesse respeitar a cidade em todas as suas formas. Concordei. Ah, como essa promessa ainda ia me irritar...

Depois de um tempo ela me trás a informação. De acordo com o que ela me descreveu, Henry estava na velha casa da família dele. A mulher que o atacou foi sutilmente chamada de “Fúria Viva” pelo espírito aranha, que também me disse que meu noivo era como ela. Fui até la, mas não pude fazer nada. Voltei para casa e esperei pela volta dele. Eu sabia que ele voltaria quando se sentisse seguro.

No meio da tarde ele voltou. Envergonhado, assustado. Disse que sentiu um ódio tão grande ao me ouvir discutindo com o médico que sabia que se não fugisse poderia machucar alguém. Disse que tinha medo de me machucar. Eu não ligava! Queria estar com ele, passar por isso com ele. Iríamos dar um jeito em tudo. Foi então que ele me contou das “alucinações”. Ele também conseguia andar entre os planos involuntariamente e não entendia nada. Expliquei a ele e tentamos nos acalmar.

Naquela noite Jonothan me disse que a mulher era conhecida por Amélia Sampaio. E disse que eu e Henry precisávamos de uma espécie de âncora que dificultasse nossas viagens. Sal ou ferro.
Encomendei duas pulseiras de ferro puro aos gêmeos do ferro velho. Assim que ficassem prontas, alguma parte do problema estaria resolvida.

Como eu queria estar certa...

Que noite...


Já havia alguns dias que eu não ia sem querer para o outro lado. Estava bom demais pra ser verdade...

Durante um sonho Jonothan me manda acordar e sair dali com Henry, porque algo estava vindo atrás de nós e ele não sabia o que era. Sem discutir acordei e chamei o Henry, disse que precisava ir ao hospital, que estava passando mal. Ele se levantou na hora, pronto a me ajudar. Então eu percebi que estava do outro lado. É ate fácil perceber quando você já sabe que pode acontecer. As cores primárias somem, parece que tudo fica meio nebuloso... Além do fato de que você deixa de ver qualquer outra pessoa que esteja com você.

Ótimo. Pedi ao Henry que me ajudasse a andar pois estava tonta. Claro, ele foi solicito, embora eu não pudesse vê-lo. Nesse instante escuto um enorme estrondo do lado de fora do loft. Não podia deixar ele correr o risco. Disse a ele que ficasse ali, que eu precisava respirar e saí. Vi aquela mesma mulher atacando o homem de olhos claros. Ele já estava quase morto, com o abdômem aberto, se esvaindo em sangue. A mulher lambia suas mãos sujas do sangue do homem como um gato depois de comer algo que ele gosta. Me olhou e disse com uma voz quase gutural: “Obstáculo...”. Passou a garra no ar, e como rasgasse a realidade, uma fenda se abriu ali e ela entrou, fazendo com que aquela abertura se fechasse quase instantaneamente.

Corri até o homem, tentando ajuda-lo de alguma forma. Ele ainda estava vivo. Quando toquei nele para tentar estancar o sangue (embora não soubesse nem por onde começar) ele me disse:
-Não adianta, este hospedeiro já não me serve mais. Preciso de outro. Tentei cumprir minha missão e cuidar de você, mas ela foi mais forte. Tome cuidado com ela, ela vai fazer tudo para estragar seu destino...

-Quê??? Como assim, quem é você??? Um anjo?? MEU anjo?
Mas ele não teve tempo de me responder. Um clarão semelhante ao que eu havia visto da primeira vez que ele apareceu se formou e ele desapareceu. Ele havia me mandado de volta ao meu mundo.

A tempo de ouvir Henry gritar.

Corri para dentro de casa, e vejo aquela mulher arrancando um pedaço do braço do meu noivo numa mordida maior que a do Baruk. Sem pensar, agarro a gola da blusa de couro, o cós da calça dela e a jogo contra a parede. Henry está com uma ferida bem grande. Mando ele sair mas ele diz que não vai me deixar sozinha com aquilo. Quando ela se prepara para me atacar, Miguel aparece do nada por uma fenda como a que ela usou pra sumir antes e joga ela lá pra dentro.
-Agora é comigo, guria. Se cuida. E cuida dele. - e some por onde veio.

-Que MERDA é essa, Shan? Quem eram eles? O que que tá acontecendo aqui???
-Entra no carro, no caminho te explico. Vamos pro hospital.

No caminho conto tudo para ele. Fazer o quê, tinham enfiado ele no meio da bagunça, agora eu precisava ao menos dar uma direção a ele.

O único lugar pra onde eu poderia leva-lo sem ter que dar muitas explicações era pro hospital do doutor maluco... E pior: rezar pra que fosse ele que nos atendesse...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mudança para Londres e adaptação







Finalmente!!! Dezoito anos! Finalmente vou morar com meu irmão em Londres, onde vou fazer faculdade e trabalhar.

Deixar meus pais foi difícil, mas era tão bom saber que eu iria pra perto do meu irmão e seria mais independente, mais livre... Tive todo o apoio da família toda. Tanja estava eufórica! ela sabia que apesar da distância que nos separaria, seria o melhor pra mim. E ela teria uma amiga pra fazer companhia sempre que fosse à Londres.
Fui morar no apartamento do meu irmão, claro. Ele já estava estabilizado na polícia londrina e tinha um bom apartamento. Ele tinha conseguido inclusive uma sala para mim, para que eu desse aulas de sambo e de música. Meu pai já tinha acertado as minhas faculdades, Música e Educação Física. Passaria o dia estudando entre os dois cursos que pra minha sorte eram no mesmo campus, e daria minhas aulas à noite.
E foi assim. Tive um pouco de dificuldade com o inglês na prática mesmo, ficava nervosa com tantos olhos na minha direção enquanto eu falava. Foi no curso de música que conheci Charlotte, Marrie e Carlos. Charlotte era inglesa mesmo, e logo mudou para o curso de Artes. Marrie, francesa, se mudou ainda criança para a Inglaterra. Carlos, assim como eu, era imigrante espanhol, queria estudar e melhorar de vida. Elas nos ajudavam com o inglês, eu os ajudava com o instrumento que precisassem. E no curso de Educação Física, conheci Black Dog (chamá-lo de Theodore é arrumar confusão), que me apresentou o Henry. Formamos todos um belo grupo.
Logo eu e Henry estávamos namorando. Tive muita dor de cabeça com as ex dele que não largavam a gente em paz. Mas ele sempre deixou claro que me amava, e com isso me deixava segura. Claro, Aleksei implicou, brigou, bateu nele, apanhou dele, proibiu o namoro, mas nada deu certo. Até que desistiu e viu que o Henry era o cara certo. Passaram a ser ótimos amigos depois de algum tempo.
Nos formamos na faculdade, todos no mesmo ano.

Aleksei se apaixonou por Charlotte. Dessa vez eu nem podia ter ciúmes. Minha melhor amiga, ele escolheu bem e afinal de contas, ela ajudou e muito para o Al aceitar o Henry. Meu irmão se casou com Charlotte depois de três anos de namoro, quando eu fui morar sozinha num loft ao lado da academia e da escola de música que havíamos montado em Londres. Um amigo russo veio de lá trabalhar conosco dando aulas de sambo e a turma da faculdade me ajudava na escola de musica. Black Dog ficava na academia, claro.

Foi assim que me estabilizei aqui. Criei raízes, por assim dizer... Por isso digo que amo esta cidade, e não saio daqui...
 

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