quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Explicações complicadas...


Antes de sair de perto, Daniel me recomenda ficar de olho na garota, e diz que ela é perigosa. Ele vai olhar como está o engenheiro mecânico que ele encontrou e pretende que o homem nos ajude. O homem está “instalado” no contêiner onde Miguel acordou.. Ficamos apenas eu e o Sr. Hagis no contêiner. Ele não parece muito disposto a conversar, mas eu preciso saber...


-Sr. Hagis... Como pretende trazer Ascelus aqui?

-Não, Khodasevich... Eu analisei e acho que você ainda não está pronta para isso. Pode ser muito perigoso. Para você e para nós também. Melhor você se aprimorar mais antes de tomar um passo destes.


Ok, sem mais nada a dizer. O Sr. Hagis diz que vai até o convés e me pede para que olhe a Srta. Collins também. Tudo bem eu olho, mas eu não pretendo sair de perto do Aleksei.


Depois de algum tempo, escuto uma voz fraca vindo de trás de mim. Olho e vejo um homem na casa dos quarenta anos de idade, amparado por uma muleta improvisada e com alguns tubos e soros pelo corpo. Deduzo que esse é o engenheiro.


-Senhorita... Por favor...

-Sim, senhor...?

-Joseph... Estou muito assustado para ficar sozinho... Posso ficar aqui?

-Claro... É o engenheiro mecânico, certo? O que houve?

-Sim, sou eu... Um homem... Acho que é um demônio... Queria minha alma... Ele se diz médico... Você não é um também, não é? – me olha assustado.


Não posso acreditar... Daniel não faz IDEIA de nada sobre energia ainda e já esta por ai querendo fazer pactos com as pessoas normais... E se isso matar ou incapacitar essas pessoas? Maluco, sem noção... Respiro fundo e tento amenizar a situação.


-Não um demônio, mas ele também não é um. Somos pessoas com algumas... “Habilidades fora do comum” que requerem energia para serem usadas, e essa energia tem limite, acaba... Ele devia estar querendo um pouco da sua para repor a dele, mas não soube explicar.


Ele me olha bem desconfiado e não diz nada. Parece que acreditou apenas em parte, não sei dizer. E nem quero saber, já que Aleksei começa a dar sinais de estar acordando. Eu começo a passar a mão no cabelo dele, chamando.


-Al... Acorda... Já ta tudo bem, eu to aqui com você... Acorda, Mano...


Ele abre os olhos lentamente e começa a olhar em volta, meio assustado.


-Onde eu to, o que houve? To num hospital?? Fui baleado?? Cadê a Charlotte?

-Bom... Não sei como explicar. Estamos longe de casa, a Charlotte deve estar bem, e você está bem agora. Não foi baleado... Foi... Seqüestrado... – agora é a hora em que ele tem um enfarte.


Por sorte ele não tem, mas tenta se sentar mais rápido na cama, olhando assustado para mim e pro lugar.


-E você? Também foi? Onde estamos? Quem fez isso, e por quê??

-Calma, Al... Eu não fui seqüestrada... E você não vai acreditar em como eu vim parar aqui, então...

-Se você não contar não tem nem como saber se acredito ou não. – já me olha com aquela cara de bravo que eu conheço bem. Ajudando-o a se levantar, me lembro da Srta. Collins.

-Espera... Tenho que ver outra pessoa, que estava nas mesmas condições que você. – e vou até o contêiner onde ela estava, deixando meu irmão com o engenheiro.


Abro a porta e a vejo de costas, num canto do contêiner. Os cachos do cabelo louro escuro dela ainda estão impecáveis, mesmo depois de ter ficado deitada sobre eles tanto tempo. É uma mulher muito bonita, e pude notar que ela se preocupa em estar bronzeada e em manter a forma enquanto a vestia, momentos antes dela acordar (eu não ia deixar que um dos rapazes fizesse isso, já que não ia gostar se fosse eu no lugar dela). Ela percebe a entrada de luz e vira um pouco a cabeça para trás.


-Srta Collins?

-Quem é você?

-Você não me conhece. Sou Shantel Khodasevich.

-Ah... Outra Khodasevich.

-Conhece meus pais também? – surpresa, já que ela não parece ser da “geração” que conviveu com eles na cidade.

-Não... – responde, sem o mínimo esforço para esconder que mente. E ela continua. – Onde estamos? Como vim parar aqui?

- A caminho do Ártico. Não sei como você veio parar aqui, sei que foi seqüestrada. Já adianto que eu não tive nada a ver com isso, apenas resolvemos acordar você e os outros quando encontramos vocês.

-“Vocês”? Quem mais está aqui?

-Eu, Lancaster, Erick e Rodriguez, que suponho que você não conhece, e que vieram comigo. Além de nós, meu irmão, Miguel e o Sr. Hector Hagis, que estavam em contêineres como você.

-Se não foram seqüestrados também, como estão aqui?

-Um anjo nos trouxe.

-Um anjo... As crianças nem sabem onde estão se metendo... Hector e Miguel aqui? Isso vai ser interessante. – posso ver um sorriso irônico no canto dos lábios dela, já que ela ainda está de costas com o rosto pouco voltado na minha direção.

-Venha comigo, Srta. Collins. Preciso ver meu irmão.


Ela se vira e caminha até mim, calmamente e apesar de toda a situação, ela se mantém muito segura de si. Quando saímos do contêiner encontramos Lancaster, sério e tenso.


-Shantel!! Cadê o engenheiro??? Tem alguma coisa errada com ele!!!!

-Como assim, Daniel?

-O capitão matou TODO MUNDO do navio quando tava possuído por aquela coisa. Só poupou os que são nexus, mas o engenheiro disse que não era nada disso, que nem sabia o que era isso!! Porque ele estaria mentindo se não tivesse que esconder alguma coisa??

-Ele veio falar comigo, e ele ta com o... ALEKSEI!! MERDA!!


Saio correndo. PRECISO ver meu irmão.

domingo, 15 de novembro de 2009

Objetivos desconhecidos, descobertas inesperadas.


Lancaster insistia que fui eu quem havia feito aquilo, com as mãos mesmo, já que a espada me dava uma força sobrenatural, o motivo pelo qual eu cortei as dobradiças da porta daquela forma. Desiste de insistir nessa hipótese quando vê que para eu arrancar alguma parte de alguém eu precisaria usar as duas mãos, conseqüentemente, teria que largar a espada e assim me libertaria da dominação dela. Precisamos encontrar o Miguel. Eu preciso pegar a espada e a jóia. Espero que ela já esteja restaurada.

No caminho, o doutor me pergunta se eu me sinto bem, já que estou muito pálida. Digo que não e o faço me contar o que ele sabe sobre meu estado que eu não sei, já que eu notei como ele me olha desde que acordei. Ele me conta que a mulher dele tinha os mesmos sintomas que eu tinha e morreu dessa doença misteriosa. Com a diferença que ela demorou quatro semanas para chegar ao estagio que eu estava e completa dizendo que se a doença continuasse avançando com a rapidez que estava, eu tinha umas duas horas de vida. Bom... Pelo menos eu teria tempo pra salvar meu irmão. Lancaster para de andar, pensativo. Me analisa com os olhos e me diz pra eu me concentrar em curar meu sangue. Diz que antes ele não conhecia esse “lado” das coisas e acha que assim eu posso me curar mesmo que momentaneamente. Funciona. Me sinto bem melhor e eles dizem que aparentemente estou ótima. Mas a sede volta a surgir. Fraca, mas volta.

A jóia ainda está meio gelatinosa onde estava separada e já não parece uma rosa, mas vai ter que servir assim mesmo. A coloco no bolso. Com a espada enrolada no couro, vou atrás de Miguel com os rapazes.

O encontramos lutando com o capitão do navio, que há algumas horas atrás não se mantinha em pé sem apoio mas agora exibe uma agilidade e força invejáveis. Notamos que os olhos do capitão estão completamente negros. É ele quem eu tenho que deter com a pedra. Mas Daniel atira nele e o mata antes que eu faça qualquer coisa. É quando algo estranho acontece.

Da boca, olhos, nariz e ouvidos do capitão sai uma fumaça negra. Lancaster e Rodriguez saem correndo em direção aos porões onde estão os contêineres. A fumaça entra em Miguel e os olhos dele ficam negros. Erick se coloca entre mim e Miguel e é atacado.

Eu descubro apenas a lâmina da espada e a empunho na direção de Miguel, enquanto evoco o poder da jóia sem sucesso. Ele e Erick começam a brigar. Eu não entendo como o Erick consegue agüentar o Miguel, mas ele está dando conta. Acerta Miguel várias vezes, o deixando tonto. Depois de algum tempo Miguel domina a situação segurando Erick pelo pescoço. Eu evoco o poder da jóia mais uma vez, mas nada acontece. Erick luta para se libertar por alguns momentos, mas não consegue. Então escuto o pescoço dele estalar e o vejo parar de se mover. Miguel larga o corpo inerte de Erick e me olha com aqueles olhos negros. Ainda evocando a jóia e segurando a espada, tento me defender. Não quero usar a espada nele porque pode matá-lo, mas se eu usar a pedra, pode ser que ela mate apenas o que está dominando Miguel.

Ele bate com o braço na lâmina da espada e se queima muito, além de quase deslocar meu ombro já que eu não soltei a espada. Nervoso, bate o outro braço, tentando tirar a espada do caminho para me matar. Se queima de novo, tão gravemente quanto antes. Eu ainda evoco a jóia, já acreditando que ela não está em condições ainda de fazer o que ela deveria.

Nesse momento escuto tiros vindos de trás de mim, que acertam Miguel. Olho rapidamente por cima do meu ombro e vejo Lancaster com uma arma na mão, Rodriguez de olhos arregalados e Hector Hagis de expressão impassível, olhando a cena. Lancaster atira de novo e derruba Miguel. A mesma fumaça negra sai de Miguel e eu corro na direção dos três que estavam atrás de mim, na tentativa de não ser a próxima dominada por ela. Hector fecha os olhos, estende apenas os dedos na direção da fumaça e diz algo como “Retribuição”. Um raio atinge a fumaça, enfraquecendo-a. Eu paro de correr, estendo a jóia na direção da fumaça e com ela enfraquecida, o rubi faz seu trabalho. Ele emite uma luz avermelhada e a fumaça que parece ter vida, se movendo como um bicho capturado que tenta fugir é atraída para a jóia, se tornando avermelhada à medida que se aproxima até ser absorvida pela pedra, que nesse momento volta ser rígida como antes, mas que deixou de ser uma rosa.

Corremos para socorrer Erick e Miguel. Os dois estão vivos. Os acomodamos em um quarto, depois que recobram a consciência, para se recuperarem.

Explicamos ao Sr. Hagis tudo que sabemos até agora sobre estarmos ali, sobre o navio e sobre as pessoas que estão na mesma situação que ele estava. Explico a ele da outra memória em que eu o procurei e digo o motivo. Ele olha sempre com a mesma expressão altiva e inabalável, firme. Parece mesmo conhecer meus pais. Quando digo que uma das pessoas num contêiner é meu irmão, ele olha sério e nada surpreso dizendo em seguida em um tom calmo, quase entediado:

-Mais uma vez, dois Khodasevich.
-Então conhece mesmo meus pais? Eles já estiveram aqui? Bom, não aqui, mas com vocês?
-Não conheço outro casal com esse sobrenome. – ele responde, como se eu tivesse perguntado se ia chover num dia de céu carregado. Exatamente como na minha memória. Mesma personalidade.

Ele me explica em seguida que sou uma nephalin, um tipo de nexus que tem a capacidade de se lembrar de todas as vidas passadas e até de evocar habilidades delas quando necessário.

Ele diz que sabe o que estão desenterrando no Ártico. Um portal pro inferno. Cara, com a calma que ele fala parece até que estão desenterrando uma cápsula do tempo do jardim de infância de 1954. Parece que NADA é capaz de surpreendê-lo. O tipo de pessoa que tenho medo de ver realmente irritada, porque parece não sair do sério tão fácil, SE sair. Sugere que simplesmente deixemos o navio passar por cima de tudo, assim, normal. Com menos emoção ainda do que eu e o Al quando crianças, queríamos irritar um dos nossos vizinhos chatos, dizíamos: “vamos passar de bicicleta por cima daquele saco de folhas secas pra sujar todo o gramado dele de novo!”.

Ainda sem ter certeza de como impedir que desenterrem o portal, decidimos acordar a todos. Enquanto os homens saudáveis descem para adiantar o processo, vou buscar roupas quentes para meu irmão e para a mulher. Aproveito e troco as minhas por outras limpas.

Mesmo sem saber ainda se Aleksei é ou não um nexus, vamos acordá-lo. Será mais fácil mantê-lo vivo se ele estiver consciente.

Enquanto esperamos que ele acorde, Sr. Hagis me pergunta sobre a vida mais poderosa que eu me lembre. Falo um pouco sobre Ascelus. Ele me olha sério e diz:

-Então vamos ver se essa noite conseguimos trazer uma deusa à terra.

sábado, 14 de novembro de 2009

Quando o ódio domina


Eu estava em pânico, mas consegui me curar. O corte fechou de dentro pra fora e mesmo eu me concentrando apenas nele, foi o medo de morrer que me fez realizar o ato com muito mais eficiência. Até meu rosto ficou livre das cicatrizes das queimaduras, minhas sobrancelhas e cabelo ficaram iguais eram antes. Menos mal...


Volto ao quarto onde me instalei e deixo o copo debaixo da cama, encostado na parede, protegido de olhares curiosos. Fico deitada por uns instantes, esperando o mal estar passar, ou ao menos amenizar.


Saio à procura dos rapazes e encontro os três abrindo os contêineres em outra parte do porão do navio. Encontraram dentro deles suprimentos, equipamentos de escavação profunda e de mecânica, muitas peças para montagem e reparo de veículos para neve. E pessoas. Uma em cada um. Eram contêineres aquecidos e as pessoas sedadas e nuas que estavam em cada um deles estavam ligadas aparelhos que monitoravam seus sinais vitais, mantinham a dosagem de sedativo e os respiradores artificiais, além de soro, sondas para alimentação e outras, para dejetos.


Eu cheguei no momento e que encontravam Hector Hagis. Demorou, mas o reconheci. Em outro contêiner estava uma mulher, que reconheceram como uma tal de Dana Collins, a qual eu nunca havia visto, não fazia idéia de quem pudesse ser. Chamamos Miguel. Ele disse que imaginava que houvessem pessoas ali, porque ele mesmo acordou em um contêiner, nas mesmas condições dos outros. Continuamos a abrir com a ajuda dele, em busca de outras pessoas. E encontramos.


Não precisei de nem um segundo para reconhecer. Era meu irmão que estava dormindo ali, na minha frente, cheio de tubos. Não pude acreditar! O ódio, a revolta tomaram conta de mim como na noite em que me tiraram Anikka. Meu impulso foi arrancar tudo, acordá-lo, cuidar dele. Mas todos me convenceram que ele estava melhor que nós, pois tinha alimentação e hidratação na medida que lhe era necessário, além de estar aquecido. Lancaster pode ser chato e arrogante, mas é competente. Não conseguiria se manter na posição que ocupa se não fosse. Resolvo escutá-lo e deixo meu irmão dormindo. Todos me dão licença e eu fico ali, olhando meu irmão, segurando a mão dele e rezando pra eu encontrar logo o responsável por colocá-lo em risco.


Mas não fico ali muito tempo. Tenho que recuperar a jóia para deter quem quer que fosse, ainda mais sabendo que meu irmão estava ali, sem poder se defender. Agora eu tinha que consertar a jóia por ele também. No caminho, Erick me convence a comer. Eu não quero, mas preciso. Como uma pasta branca e sem gosto, mas nutritiva.


Vou até meu quarto e vejo que está funcionando. Noto alguns cristais se formando na rachadura, unindo as duas metades, mas ainda sim me parece muito frágil. Toco o sangue com meus dedos e me concentro em “curar” a pedra, assim como eu faço para me curar, e parece funcionar, mas nada significante. E eu começo a experimentar um pouco do que deve ser a tal sede...


Começo a passar mal, o enjôo de antes está muito forte. Corro para o banheiro e a pasta branca que eu havia comido há alguns minutos volta.


Lancaster e Erick me encontram saindo do banheiro e o doutor pergunta por que eu precisava da pedra. Explico tudo que sei e ele diz que se soubesse desde o inicio, não tentaria escondê-la de mim. Conclui que se pouco sangue está unindo as duas metades da pedra, mais sangue vai fazer ela se unir mais rápido. E me sugere usar a espada para conseguir mais sangue. Ela sangra quando apontamos para Erick, então colocamos o copo dentro de um balde e segurando a espada sem tocar nela diretamente, a aponto para ele mas nada acontece. Lancaster me pede para deixar ele tentar, mas pede para ficar sozinho. Ele consegue, de alguma forma, fazê-la sangrar e muito. Quase enche o balde. Ele disse que só tocou nela diretamente e ela sangrou. Quando tento, sinto ela me dominando mas eu resisto. Lancaster retoma e enche mais o balde, agora cobrindo o copo. Eu tento mais uma vez, mas de repente tudo começa a ficar vermelho.


Quando dou por mim estou parada, de joelhos em um corredor do navio, com a espada jogada no chão, cobertas de sangue. Eu e a espada. Não sei o que aconteceu nem quanto tempo se passou, mas já não sinto mais sede. Assustada, pego a espada com a manga da parka e volto ao meu quarto. No caminho não vejo ninguém. Me preocupa, mas preciso consertar a jóia antes de qualquer coisa. Noto a porta caída e as dobradiças cortadas com uma precisão inacreditável. Enrolo novamente a espada no couro e vou ao banheiro lavar rosto, mãos e cabelo. Logo Erick aparece, assustado, na porta do quarto. Vê que eu já voltei a mim. Então eu tenho uma idéia.


Seguro o balde, me concentro e jogo todas as minhas emoções lá dentro. Tenho flashes, com se fossem memórias de outras vidas. Sou uma mulher que foge de alguma coisa e eu sei que estou na África. De repente paro, me ajoelho na terra e a toco, sentindo a terra, a “mãe África” e o chão começa a tremer. Não só aquele lugar, mas toda a terra treme. Sou também um templário lutando com um sarraceno, quando tomo um golpe certeiro de cimitarra num dos olhos, me fazendo perder a visão e cair de joelhos com a dor. Me concentro e o sangue que saía do ferimento borbulha, como se fervesse e me cura, recuperando a visão daquele olho. Me levanto e volto a lutar, e é quando a visão acaba. Abro meus olhos e Erick olha pro balde, espantado. Ele diz que o balde brilhou em vermelho e me pergunta o que eu fiz. Explico, ele tenta e amassa o balde depois que as mãos dele brilham. Assustada, pergunto o que ele fez e ele calmamente me explica que é movido pela ira, e foi nisso que ele se concentrou enquanto segurava o balde... E parece que isso acelera um pouco mais o processo. Bom, porque chegaremos ao Ártico em menos de três horas.


Lancaster aparece no meu quarto, assustado. Erick diz que aparentemente consegui me conter antes de fazer alguma coisa, que o sangue em mim devia ser da espada mas o doutor discorda. Nos diz pra ir ver o porão do navio, onde a tripulação estava presa.


Chegamos lá e parecia cena de filme de terror B. Corpos retalhados por toda parte, a grade retorcida, aberta. Mas não eram cortes precisos, as partes pareciam ter sido arrancadas dos corpos, e não cortadas. E não havia marcas de sangue que indicassem que o que quer que tenha feito aquilo tenha saído dali. Acho que sei quem ou o que foi...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Novo velho ciclo começa se fechar mais uma vez


-O colar. Você vai colocá-lo no bolso do rapaz que estiver conversando comigo, lá fora.

-Não posso, tenho que entregar ele a uma pessoa.

-O contato que eu criei?

-Como assim?

-Diana Trevor não existe, Khodasevich. Nem Steve. Eu criei tudo na sua cabeça porque você é a única que poderia pegar essa pedra. Ninguém mais é capaz de tocá-la em segurança. Eu não posso tocá-la. Só você. Me desculpe, mas precisei fazer isso.


Chamo Steve pelo ponto. Ninguém responde. Ou mataram o Steve, ou ele ta falando a verdade. Olhando o reflexo no vidro e vendo a mim e não a Diana Trevor, acredito nele.


-Porque eu? Porque isso tudo?

-Como disse, só as descendentes da sua família tocam a pedra em segurança. Criei Diana Trevor baseada nas memórias de sua mãe, para que você fosse capaz de roubar a jóia.

-E pra quê quer a pedra?


Ele sorri, calmo.


-Nós precisamos dela. Num navio, daqui alguns meses...


Chambers me diz que eu vou entregar esse jóia ao rapaz, que vai entregá-la a um anjo, que por sua vez daria ao Daniel e enfim, o doutor a entregaria a mim de volta. Explica que somente a rosa pode acabar com um grande mal que vai estar num quebra gelo dali a alguns meses, que eu vou estar ali também. O navio vai estar a caminho do Ártico e eu não posso permitir que uma das pessoas a bordo chegue lá. Quando eu explico que isso já aconteceu, ele não entende. Eu digo que pra mim aquele dia já é passado, mas ele não presta muita atenção e volta a me dizer que eu saberei como usar a pedra, que ela saberia o que fazer quando encontrasse a pessoa sem alma que poderia causar um grande mal. Tento explicar que eu destruí a pedra, ele diz que talvez seja assim que ela vai agir. Acho que ele não ta me levando a sério... Me diz pra rezar e pedir pra encontrar a pedra, quando digo que existe a possibilidade de além dela estar quebrada, estar perdida também. Desisto. Ele me conta que eu não me lembraria nunca de nada disso, que me sentiria mal e iria para casa, depois que entregasse a pedra ao rapaz.


Ele me diz onde estão as minhas roupas de festa - exatamente as mesmas que eu usava naquele dia – sai e eu me troco. Saio da sala também, com a jóia na bolsa. Mais adiante, o vejo conversando com um rapaz que hoje eu reconheço, Henrique Rodriguez. Coloco o colar no bolso dele e ele percebe. O pavor logo passa quando Chambers diz algumas coisas e o rapaz parece esquecer o que houve.


Em segundos, começo a ficar tonta e tudo escurece. Abro os olhos e vejo paredes metálicas. A princípio me parece o hospital, mas logo reconheço a enfermaria do navio.


Não faço idéia de quanto tempo eu fiquei desacordada. Arranco a agulha do soro. Ainda me sinto muito mal, enjoada, corpo fraco, mas tenho que dar um jeito de recuperar a pedra.


Desço até os porões do navio. Já não fico tão feliz em ver que as pessoas estão vivas, já que uma delas pode ser quem vai nos colocar em risco. Não tão bem quanto antes, mas vivas, ao menos. Encontro apenas o cordão de ouro, mas não a pedra. A espada está bem longe de onde devia estar, e o case de couro sem a madeira de sustentação, só o couro mesmo, mole. Uso isso pra enrolar a espada, sem tocar nela. Eu não a sinto quente, mas ela está. Não que eu a tenha tocado diretamente, mas posso sentir através do couro uma temperatura normal, mesmo notando que o couro esta ate ficando marcado por ela. Vou procurar os rapazes e ver se alguém esta com as pedras, já que até onde eu me lembre, ela foi divida em duas.


Encontro Lancaster, que me diz que destruiu a pedra na caldeira do navio. Vou até a sala indicada e nem sinal da pedra dentro da caldeira. Uso um atiçador para achar algo debaixo das cinzas e nada. A pedra era resistente demais, a caldeira não seria suficiente para destruí-la. Vou atrás deles de novo. Encontro Erick e Rodriguez conversando e parecem surpresos ao me ver. Não sabem da pedra. Os dois estão feridos, Erick no pé e perna, Rodriguez nas mãos, quando tentaram tocar a espada. Vou falar com Lancaster de novo. Dessa vez ele está com Miguel. Pergunto sobre a pedra, Lancaster reafirma que foi destruída. Eu digo que não, quando Miguel o pergunta o motivo de esconder a pedra de mim. Cretino. Peço que Daniel me devolva a pedra ele se nega. Insisto e ele nega mais uma vez e pergunta por que eu a quero de volta. Quando penso em obrigá-lo a me devolver, Miguel se mete:


-Pára com isso, dá a pedra pra guria. – muito mais em tom de sugestão que de ameaça, mas vindo de quem veio não parece sensato contrariar e recebo as duas metades de volta.


Pego todas as minhas coisas no carro de Lancaster e me instalo em um dos quartos, o primeiro que eu encontro. Erick, Rodriguez e Lancaster ficam na porta já que me tranco lá dentro, perguntando o que eu vou fazer. Lancaster anda me olhando bem estranho, mas não me importo.


Com a empunhadura da espada ainda enrolada no couro, a firmo com a lâmina na vertical usando minhas pernas e o chão de apoio. Se a espada está quente assim e é um item mágico, pode ser que seu calor “solde” a pedra. Mas não... Parecem imas de pólos iguais, mas muito mais fortes. Não consigo aproximar e o atrito invisível é tão forte que chega a soltar faísca no ar. Mas eu insisto e forço. Uma pequena explosão acontece. Nada se destrói a não ser meu rosto. Fico toda queimada. Muito bom. Nem assim a pedra volta a ser uma só. Preciso pesar em outra coisa...


Erick ainda está na porta do quarto quando eu saio. Com calma, me pergunta o que está havendo. Conto a ele que alguém ali dentro vai colocar a todos nós em risco, que só a pedra teria a capacidade de impedir isso e como eu sei disso. Ele me pergunta o que houve comigo e me explica que os nexus conseguem concentrar a energia para se curar, exatamente assim, se concentrando e mandando a energia pro ferimento para que ela o cure. Ele me mostra a perna que antes estava completamente queimada, em perfeito estado. Eu tento uma vez, duas, mas só na terceira consigo algum resultado, ainda não suficiente. Erick explica que é mais fácil aprender quando nossa vida depende disso, que é normal não conseguir nas primeiras vezes e que cada vez que fazemos isso, consumimos energia que não se renova, então, o uso freqüente causa a “sede” de energia. E me sugere ir falar com Miguel sobre a pedra, sem dar a ele meus motivos.


Vou falar com Miguel. Ele me explica melhor sobre a sede e como obter mais energia, e isso não me deixa feliz. Somente em locais específicos é possível obter essa energia, e mesmo assim, esses locais têm um limite e precisam de algum tempo para de recarregarem. Fora isso, só fazendo pactos com as pessoas, pedindo a energia delas em troca do que elas quiserem. Podemos recusar o que elas pedem, mas não podemos obrigá-las a nos ajudar. Quanto à pedra, ele sugere que a deixe imersa em sangue. Sem idéia melhor, corto meu pulso e deixo o sangue correr dentro de um pequeno copo onde estão as duas metades da rosa. Tonta e com o sangue no copo já cobrindo as pedras, hora de aprender mesmo a habilidade. Fazendo pressão no corte, me concentro. Espero não falhar dessa vez.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Partes perdidas


-Khodasevich?? – diz Dr. Hewiski, no mesmo tom de voz calmo.

-Mais que nunca, doutor... – respondo o que ele quer ouvir, mas sem que ele faça idéia do que realmente a frase quer dizer...

-Que bom! – ele sorri, amigável. – Fico feliz por isso. Resolveu o problema da jóia?

-Ainda não... Mas estou prestes a isso. Preciso dormir de novo.

- Tenho que admitir que não é um tratamento convencional. Só o mantenho porque acredito que você possa encontrar sua cura. Não posso ficar ministrando sedativos em você porque pode te fazer mal. Vamos fazer o seguinte: Dessa vez, esperamos até você dormir sozinha, ok? Passe um dia relaxando, fazendo o que gosta, tente desviar a atenção um pouco desses sonhos. Então, o que quer fazer?

-Quero ver meu filho. Mas só ele. Não quero que Isaack venha. Mas por favor, não conte a ele, não quero que pense bobagens ou se magoe... – na verdade, ia ser muito estranho ter que beijar meu pai, mas prefiro não comentar esse “detalhe” com o doutor.

-Claro. Vou ligar para sua casa e digo que é parte do tratamento para que seu marido não se chateie com nada. Vou pedir que tragam o pequeno Aleksei para que você possa passar o dia com ele.

-Só mais uma coisa, doutor... Onde estamos?

-Londres.

-Mas... Eu e minha família não vivíamos na Rússia?

- Viviam. Você veio fazer um mestrado em botânica aqui, enquanto seu marido trabalha em pesquisas conjuntas dos exércitos russo e britânico.


Apenas concordo com a cabeça. Acho que acabo de condenar minha mãe a mais alguns meses aqui... Estranho nunca terem mencionado que moraram em Londres...


Saio dali, vou aos jardins. Dou voltas nele, observando as pessoas, as plantas... É uma clínica para pacientes de recursos, sem dúvida, mas ainda assim é deprimente... E não acredito no que vejo. Ou melhor, em quem vejo. Era Jonothan, encolhido, com os olhos azuis, exatamente do jeito que ele estava em 2008 quando o encontramos escondido na casa dele, num estado catatônico. Me aproximo e tento conversar, mas nada acontece, tudo igual, as mesmas reações que ele tinha antes. Ou vai ter daqui a alguns anos... Ah, é isso, tá igual. Continuo sem respostas.


Depois de um bom tempo, vejo Dr. Hewiski se aproximando. Diz que meu cunhado, Maximillian, logo trará Aleksei para mim. O que meu padrinho faz aqui também? Estranho ou não, quero muito ver meu irmão nessa idade. Tenho saudades de irmã e de mãe. Pergunto a ele sobre aquele paciente de belos olhos azuis. Ele me confirma que é Jonothan e diz ele foi achado já naquele estado numa cena de crime. Testemunhou a morte do melhor amigo e foi levado em seguida para a clinica. Diz que ele murmura algumas palavras como “frio” ou “medo”, mas não tem maiores informações para me dar pois não é medico dele. Me pergunta o porque do interesse.


-É um jovem bonito, que tem toda uma vida pela frente. Queria ajudá-lo de alguma forma. O estado dele me comove.

-Fico realmente feliz que esteja se preocupado em ajudar aos outros, Diana, mas precisa se concentrar somente em você agora. Descanse, logo seu filho estará aqui.


Vou para meu quarto, me arrumar para ver Aleksei. Resolvo relaxar num banho de banheira, pra estar melhor emocionalmente também. Depois de algum tempo, escuto alguém berrar por Diana, dentro do meu ouvido.


Quando dou por mim, estou de cabeça pra baixo, presa pela cintura a uma corda que sai da tubulação de ar vinda do teto. Reconheço a voz de Steve. Olhando ao redor, vejo obras de arte protegidas por grossos vidros e sistemas de infravermelho. E a Rosa das Emoções logo abaixo de mim, dentro de um cubo de vidro, num busto de veludo.


-DIANA!!! ACORDA!!! Aborta a missão!!! Agora!!


Noto que vem do ponto eletrônico. O meu comunicador está no meu pulso. Como eu sei disso?


-Acordei, o que houve??

-O QUE HOUVE!!?? Você desmaiou Diana!! Sai daí logo, antes que os seguranças cheguem. Você fez muito barulho quando caiu. SAI DAÍ!


Eu analiso toda a situação. Eu consigo pegar o colar em segundos e sair dali antes que cheguem a mim.


-Não, Steve! Eu consigo! – e começo a cortar o vidro, rápido, enquanto Steve continua a berrar no meu ouvido.

-Não Diana!! Não vai arriscar a missão! Sai logo daí, PORRA!


Quando ele termina a frase já estou com o colar nas mãos. Puxo a corda pra começar a subir. È quando a porta se abre. Para minha grande surpresa, não é um bando de seguranças e polícia. É Robert Chambers. Sorte ou azar? Levo minha mão à corda pra continuar a subir, mas não consigo nem ao menos tocá-la.


-Khodasevich... – ele diz, com uma calma que me irrita.

-Não. – minha mão continua não me obedecendo.

-Conheço seu rosto e sei melhor que você mesma porque você está aqui.


Olho no reflexo do vidro e não acredito. Não é Diana Trevor que vejo ali. Vejo a mim mesma, Shantel Khodasevich. Ótimo. QUE MERDA TÁ ACONTECENDO AQUI???


-Será que você podia descer pra gente conversar?

-Não. – mais uma vez tento puxar a corda, mas minhas mãos ainda não ajudam.

-No momento os seguranças nem se lembram dessa sala, mas podem se lembrar inclusive do barulho que você fez quando caiu...


Eu desço, não quero ser presa. Já basta UM processo na polícia.


-O que você quer? E porquê está aqui?

 

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