Mostrando postagens com marcador Amélia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amélia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Descobertas...


Fomos à casa de Archa Borlins no dia marcado. Logo de cara já vi que seria complicado. Eu não conseguia andar acima da velocidade permitida, não conseguia não parar em sinais mesmo que ainda estivessem amarelos e não podia deixar o Henry dirigir já que ele não podia se exaltar até que tivesse controle sobre essa fúria que o estava dominando. E me lembrei da promessa que fiz à aranha...

No prédio da nossa anfitriã, assim que as portas do elevador se abriram, Henry fareja o ar, como um animal, me olha com um olhar estranho e diz “Alfa!”. Não podia ser boa coisa...

Quando entramos, havia um homem na sala com a srta. Borlins. Ele e Henry se entreolharam e ficaram assim, parados, se encarando, quase numa cena de velho oeste. Simplesmente não se moviam, não piscavam, nada. Quase podia ver as faíscas saindo dos olhos deles. Achei que o pior fosse acontecer. Chamei pelo Henry mas ele não me ouvia. Virei o rosto dele em minha direção, e quando os olhos dele encontraram os meus, aquele medo primitivo me cegou.

Quando dei por mim estava encolhida no canto do elevador, a srta. Borlins do outro lado da sala escondida atrás de um sofá e os dois parados no meio da sala, segurando um no pulso do outro, ainda se encarando. Sem dizer nada, a srta Borlins me chama para perto dela e com o olhar me diz para não me envolver na situação. Me aproximo dela e ficamos as duas, quase sem respirar, olhando a cena no meio da sala.

-Vai ter sua chance, filhote. Não aqui, não agora. - O homem disse enquanto soltava o pulso de Henry. Contrariado, Henry concordou e soltou o homem.

Ele era Sr. Alfred Ausbury, companheiro da srta Borlins. Muito educado, nos pede desculpas e se retira.

Durante toda a conversa com a srta Borlins, Henry parecia distante. Mas o estranho foi quando ela esboçou familiaridade com o nome de meus pais e depois tentou fingir que não os conhecia. Enquanto me explicava mais um pouco sobre esse novo mundo que eu estava descobrindo, citou algumas pessoas. Algumas parecidas comigo e com ela, assim como Jonothan, o Sr. Alfred, Miguel, e um outro cara chamado Chambers (que eu ainda não conhecia, mas ela dizia ser alguém importante, que lidava com memórias), cada um com sua habilidade. Outras como Henry e Amélia, uma menina de nome estranho, que era uma espécie de metamorfa. Disse que henry tinha que aprender a controlar toda e qualquer emoção, qualquer uma delas poderia desencadear um ataque de fúria. Muito bom! Nos convidou a ir a um leilão de peças dela que aconteceria dali a dois dias pela casa Holtz, a mesma que Charlotte trabalhava.

Precisávamos ir embora. Ela tinha os compromissos dela, e eu tinha algumas coisas a descobrir...
Chegamos em casa. Henry quis andar um pouco para espairecer. Eu o esperei com uma camisola pequena de seda. Tinha que descobrir.

Quando ele chegou e me viu, desceu as escadas correndo de volta para a garagem. De lá me perguntou se eu tinha certeza. Claro que eu tinha! Então ele subiu de novo, já tirando a camisa.
O corpo dele parecia mudar. Eu sentia os músculos mais rígidos que o normal, ele já não era mais tão delicado quanto antes e parecia maior. Não me machucava, mas não permitia que eu dominasse a situação. Ao toque ele parecia ter mais pêlos no corpo, mas eu não via esses pêlos. Apesar de algumas diferenças significativas, as coisas estavam muito boas...

Até aquele medo me dominar de novo. Acordei no banheiro, trancada, encolhida. Voltei para o quarto e ele estava sentado, enrolado num lençol, envergonhado.

-Te machuquei, não foi?
-Não... Eu senti medo. Mas um medo irracional, eu não sabia o que estava fazendo. Só me lembro de estar aqui com você, e no instante seguinte estar no banheiro. – o abraço forte e ele corresponde.
-Shan, a gente tem que parar com isso. Não quero te machucar.

Eu sorrio.

-A prática leva à perfeição, meu amor. Ou você aprende a se controlar, ou eu acabo me acostumando, o que vier primeiro. Só não vou abrir mão de você...

Ele sorri e me beija com calma. Nos deitamos e ficamos abraçados até adormecer.

Que noite...


Já havia alguns dias que eu não ia sem querer para o outro lado. Estava bom demais pra ser verdade...

Durante um sonho Jonothan me manda acordar e sair dali com Henry, porque algo estava vindo atrás de nós e ele não sabia o que era. Sem discutir acordei e chamei o Henry, disse que precisava ir ao hospital, que estava passando mal. Ele se levantou na hora, pronto a me ajudar. Então eu percebi que estava do outro lado. É ate fácil perceber quando você já sabe que pode acontecer. As cores primárias somem, parece que tudo fica meio nebuloso... Além do fato de que você deixa de ver qualquer outra pessoa que esteja com você.

Ótimo. Pedi ao Henry que me ajudasse a andar pois estava tonta. Claro, ele foi solicito, embora eu não pudesse vê-lo. Nesse instante escuto um enorme estrondo do lado de fora do loft. Não podia deixar ele correr o risco. Disse a ele que ficasse ali, que eu precisava respirar e saí. Vi aquela mesma mulher atacando o homem de olhos claros. Ele já estava quase morto, com o abdômem aberto, se esvaindo em sangue. A mulher lambia suas mãos sujas do sangue do homem como um gato depois de comer algo que ele gosta. Me olhou e disse com uma voz quase gutural: “Obstáculo...”. Passou a garra no ar, e como rasgasse a realidade, uma fenda se abriu ali e ela entrou, fazendo com que aquela abertura se fechasse quase instantaneamente.

Corri até o homem, tentando ajuda-lo de alguma forma. Ele ainda estava vivo. Quando toquei nele para tentar estancar o sangue (embora não soubesse nem por onde começar) ele me disse:
-Não adianta, este hospedeiro já não me serve mais. Preciso de outro. Tentei cumprir minha missão e cuidar de você, mas ela foi mais forte. Tome cuidado com ela, ela vai fazer tudo para estragar seu destino...

-Quê??? Como assim, quem é você??? Um anjo?? MEU anjo?
Mas ele não teve tempo de me responder. Um clarão semelhante ao que eu havia visto da primeira vez que ele apareceu se formou e ele desapareceu. Ele havia me mandado de volta ao meu mundo.

A tempo de ouvir Henry gritar.

Corri para dentro de casa, e vejo aquela mulher arrancando um pedaço do braço do meu noivo numa mordida maior que a do Baruk. Sem pensar, agarro a gola da blusa de couro, o cós da calça dela e a jogo contra a parede. Henry está com uma ferida bem grande. Mando ele sair mas ele diz que não vai me deixar sozinha com aquilo. Quando ela se prepara para me atacar, Miguel aparece do nada por uma fenda como a que ela usou pra sumir antes e joga ela lá pra dentro.
-Agora é comigo, guria. Se cuida. E cuida dele. - e some por onde veio.

-Que MERDA é essa, Shan? Quem eram eles? O que que tá acontecendo aqui???
-Entra no carro, no caminho te explico. Vamos pro hospital.

No caminho conto tudo para ele. Fazer o quê, tinham enfiado ele no meio da bagunça, agora eu precisava ao menos dar uma direção a ele.

O único lugar pra onde eu poderia leva-lo sem ter que dar muitas explicações era pro hospital do doutor maluco... E pior: rezar pra que fosse ele que nos atendesse...

E fica cada vez pior...

Eu ainda não acreditava no caso dos Manson. Era impossível! Como assim? O que será que eu fazia, então? Nem Jonothan sabia. Ele dizia que apenas sentiu que eu era um deles, que todos nós sentimos e por isso resolveu me ajudar a lidar com tudo e me ensinar a aprimorar as minhas ainda desconhecidas “habilidades”. Éramos chamado de "nexos". Agora sim entendi o que a louca do hospital quis dizer. Então ela é um também. Saco...

Normalmente Jono vinha me visitar em sonho e respondia a qualquer dúvida que tivesse. Ele manipulava as sombras. Era estranho, mas parecia ser um cara legal. Me explicava sobre a terra, o céu e o inferno, que não são o sentido bíblico desses lugares. Em linhas grossas, um dia o inferno vai deixar de existir, a terra de hoje será o novo inferno, e o céu será a nova terra. Todos querem no mínimo se manter onde estão, mas há os que querem "subir" de posto, daí a gurra entre esses mundos, um tentando dominar o outro. Diz que a sucessão é natural, mas há quem queira precipitar as coisas, ou impedí-las de seguirem seu curso. Nós estaríamos do lado da terra... Mais ou menos isso.

Um belo dia estava eu arrumando minha casa quando uma janela simplesmente estoura, e um homem cai no meio da minha sala. Olhos muito azuis, e uma mulher o atacava. Ela agia como uma fera, tinha movimentos invejáveis, parecia pega impulso no ar, mas tinha garras de ossos, como se fossem as pontas dos dedos dela, algo muito bizarro e assustador. O homem parecia ter uma espécie de escudo invisível, sei lá. Sei que ela batia as garras em algo e o ar se movia em formas onduladas, como quando jogamos uma pedra num lago e formam-se algumas pequenas ondulações. Meu rotweiller, Baruk, começa a atacar o homem também, e não obedecia aos meus comandos. Foi quando a mulher de alguma forma conseguiu romper aquela barreira invisível, e cortou fundo o braço do homem. Ele me olhou e quase envergonhado me disse apenas “Corre...”. Eu nãi a sair dali. Dos olhos dele, saiu um clarão que me cegou. Quando o clarão sumiu, era como se nada tivesse acontecido. Até o Baruk estava deitado no mesmo lugar de antes, tranquilo, me olhando... Muito estranho. A janela estava inteira, a sala limpa, nem um caco de vidro, nem uma gota de sangue, nada! Aquilo parecia que simplesmente não havia acontecido...

Liguei para o Aleksei, precisava conversar com ele. Jonothan havia me dito que isso pode ser hereditário e que meu irmão podia estar passando por isso também. Ele era a melhor opção.

Marcamos num restaurante, só nós dois. Comecei a contar, ele ficou preocupado achando que eu estava alucinando. Foi quando aconteceu de novo.

A mesma mulher, desta vez apanhando e muito de um homem enorme. Ok, ela podia ser uma vadia bizarra, mas era injusto. Quando olhei não havia mais ninguém além de nós três no restaurante. Gritei pelo meu irmão várias vezes, mas não obtive resposta. A mulher apanhava muito, no chão, debaixo daquele gigante. Resolvi me meter. Mandei o cara largar ela, mas ele não se moveu. Repeti e nada. Chutei a costela dele, nada. Chutei de novo e ele sentiu. Se levantou e eu pude ter certeza dos dois metros de altura dele.

-Como você tá aqui? - disse enquanto se preparava pra me dar um soco. Só que ele simplesmente sumiu no ar! Olho à minha volta, eu estava no restaurante cheio de novo, que agora estava inteiro me olhando, meu irmão escondido atrás do cardápio. Meu Deus, que vergonha!!

-E é mais ou menos isso. Não faço muita coisa na peça... - eu disse olhando pro Al, tentando não parecer tão doida quanto estavam pensando. As pessoas se voltaram para seus pratos menos assustadas e eu voltei ao meu lugar na mesa com meu irmão, que me pediu para ir ao médico e não levou nada do que disse a sério.

Como se não bastasse, nesse mesmo dia na academia, quando entro na sala de aula cheia de alunos, alguém me agarra e me imobiliza. Pela voz, reconheci o grandão do restaurante.

-Como você faz isso? Nem os mais velhos conseguem andar assim nos dois mundos!
-Não sei, não sei como faço e nem porque faço! Na verdade, nem sei quando faço! Só noto depois! Me solta!

Mas não adiantou, ele não me soltou.

-Não quero que você tente me bater de novo, porque não quero ter que te bater, então não vou te soltar. Guria, tu não faz idéia de onde ta entrando. Não fica circulando por aqui desse jeito, vai se machucar de verdade. Se eu fosse você dava um jeito de me manter em terra firme. - e me soltou.
-Quem é você?
-Miguel.
-E como eu saio daqui?
-Se concentra, gata...

Funcionou. Meus alunos me olhavam espantados, com medo. Eu ri que nem maluca, olhando pra eles, como se tivesse brincando e saí da sala. Quando voltei eles pareciam ter acreditado na brincadeira e eu pude dar minha aula.

Foi assim que descobri que existe um mundo sob mundo, o mundo espiritual. E eu conseguia ir para lá sem o mínimo esforço, o que era bem enstranho até para quem já está dentro dele...
 

©2009 Mundo de Shantel | by TNB