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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Partes perdidas


-Khodasevich?? – diz Dr. Hewiski, no mesmo tom de voz calmo.

-Mais que nunca, doutor... – respondo o que ele quer ouvir, mas sem que ele faça idéia do que realmente a frase quer dizer...

-Que bom! – ele sorri, amigável. – Fico feliz por isso. Resolveu o problema da jóia?

-Ainda não... Mas estou prestes a isso. Preciso dormir de novo.

- Tenho que admitir que não é um tratamento convencional. Só o mantenho porque acredito que você possa encontrar sua cura. Não posso ficar ministrando sedativos em você porque pode te fazer mal. Vamos fazer o seguinte: Dessa vez, esperamos até você dormir sozinha, ok? Passe um dia relaxando, fazendo o que gosta, tente desviar a atenção um pouco desses sonhos. Então, o que quer fazer?

-Quero ver meu filho. Mas só ele. Não quero que Isaack venha. Mas por favor, não conte a ele, não quero que pense bobagens ou se magoe... – na verdade, ia ser muito estranho ter que beijar meu pai, mas prefiro não comentar esse “detalhe” com o doutor.

-Claro. Vou ligar para sua casa e digo que é parte do tratamento para que seu marido não se chateie com nada. Vou pedir que tragam o pequeno Aleksei para que você possa passar o dia com ele.

-Só mais uma coisa, doutor... Onde estamos?

-Londres.

-Mas... Eu e minha família não vivíamos na Rússia?

- Viviam. Você veio fazer um mestrado em botânica aqui, enquanto seu marido trabalha em pesquisas conjuntas dos exércitos russo e britânico.


Apenas concordo com a cabeça. Acho que acabo de condenar minha mãe a mais alguns meses aqui... Estranho nunca terem mencionado que moraram em Londres...


Saio dali, vou aos jardins. Dou voltas nele, observando as pessoas, as plantas... É uma clínica para pacientes de recursos, sem dúvida, mas ainda assim é deprimente... E não acredito no que vejo. Ou melhor, em quem vejo. Era Jonothan, encolhido, com os olhos azuis, exatamente do jeito que ele estava em 2008 quando o encontramos escondido na casa dele, num estado catatônico. Me aproximo e tento conversar, mas nada acontece, tudo igual, as mesmas reações que ele tinha antes. Ou vai ter daqui a alguns anos... Ah, é isso, tá igual. Continuo sem respostas.


Depois de um bom tempo, vejo Dr. Hewiski se aproximando. Diz que meu cunhado, Maximillian, logo trará Aleksei para mim. O que meu padrinho faz aqui também? Estranho ou não, quero muito ver meu irmão nessa idade. Tenho saudades de irmã e de mãe. Pergunto a ele sobre aquele paciente de belos olhos azuis. Ele me confirma que é Jonothan e diz ele foi achado já naquele estado numa cena de crime. Testemunhou a morte do melhor amigo e foi levado em seguida para a clinica. Diz que ele murmura algumas palavras como “frio” ou “medo”, mas não tem maiores informações para me dar pois não é medico dele. Me pergunta o porque do interesse.


-É um jovem bonito, que tem toda uma vida pela frente. Queria ajudá-lo de alguma forma. O estado dele me comove.

-Fico realmente feliz que esteja se preocupado em ajudar aos outros, Diana, mas precisa se concentrar somente em você agora. Descanse, logo seu filho estará aqui.


Vou para meu quarto, me arrumar para ver Aleksei. Resolvo relaxar num banho de banheira, pra estar melhor emocionalmente também. Depois de algum tempo, escuto alguém berrar por Diana, dentro do meu ouvido.


Quando dou por mim, estou de cabeça pra baixo, presa pela cintura a uma corda que sai da tubulação de ar vinda do teto. Reconheço a voz de Steve. Olhando ao redor, vejo obras de arte protegidas por grossos vidros e sistemas de infravermelho. E a Rosa das Emoções logo abaixo de mim, dentro de um cubo de vidro, num busto de veludo.


-DIANA!!! ACORDA!!! Aborta a missão!!! Agora!!


Noto que vem do ponto eletrônico. O meu comunicador está no meu pulso. Como eu sei disso?


-Acordei, o que houve??

-O QUE HOUVE!!?? Você desmaiou Diana!! Sai daí logo, antes que os seguranças cheguem. Você fez muito barulho quando caiu. SAI DAÍ!


Eu analiso toda a situação. Eu consigo pegar o colar em segundos e sair dali antes que cheguem a mim.


-Não, Steve! Eu consigo! – e começo a cortar o vidro, rápido, enquanto Steve continua a berrar no meu ouvido.

-Não Diana!! Não vai arriscar a missão! Sai logo daí, PORRA!


Quando ele termina a frase já estou com o colar nas mãos. Puxo a corda pra começar a subir. È quando a porta se abre. Para minha grande surpresa, não é um bando de seguranças e polícia. É Robert Chambers. Sorte ou azar? Levo minha mão à corda pra continuar a subir, mas não consigo nem ao menos tocá-la.


-Khodasevich... – ele diz, com uma calma que me irrita.

-Não. – minha mão continua não me obedecendo.

-Conheço seu rosto e sei melhor que você mesma porque você está aqui.


Olho no reflexo do vidro e não acredito. Não é Diana Trevor que vejo ali. Vejo a mim mesma, Shantel Khodasevich. Ótimo. QUE MERDA TÁ ACONTECENDO AQUI???


-Será que você podia descer pra gente conversar?

-Não. – mais uma vez tento puxar a corda, mas minhas mãos ainda não ajudam.

-No momento os seguranças nem se lembram dessa sala, mas podem se lembrar inclusive do barulho que você fez quando caiu...


Eu desço, não quero ser presa. Já basta UM processo na polícia.


-O que você quer? E porquê está aqui?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Alguns fatos da minha infância e adolescência...

Quando criança queria sempre ajudar a tudo e todos. Perdi as contas de quantos bichinhos levei para casa para dar comida e proteger do frio. Minha mãe brigava enquanto meu irmão tentava me ajudar e meu pai tentava convencê-la de que eu era apenas muito sensível, que logo ele levaria o animal para algum abrigo, que esperasse só um pouco para eu me sentir útil, com a “missão cumprida”. Por isso chegamos a ter sete cachorros e quinze gatos em uma determinada época. Depois meu pai realmente os levou para algum abrigo. Só tínhamos mesmo como nosso, um golden retriver marrom chamado Loop e uma gata vira latas que resistiu à implicância de minha mãe e a conquistou no dia que matou uma enorme ratazana da estufa que ela mantinha na nossa casa, a Lilly. Loop morreu pouco depois que me mudei para cá, de velhice mesmo. Lilly sumiu da nossa casa há alguns anos.

O apelido familiar de minha madrinha foi dado por mim, aos três anos de idade. Minha mãe me contava, em suomi, a história da “Branca de Neve e os Sete Anões”. Quando ouvi a descrição da protagonista, disse: “Igual à dinda Mah, mamãe!”. “Lumikki” significa “Branca de Neve” em suomi. Ela é chamada assim até hoje, por todos da família.

Foi Lumikki que me ensinou os primeiros acordes. Eu tinha apenas três anos e ela dezesseis quando percebeu meu interesse e resolveu que eu seguiria os passos dela na música. Nas minhas férias na Finlândia, na casa de uma tia da minha mãe pois minha avó já havia falecido, junto à minha madrinha comecei a estudar teclado, canto e violão. Anos depois Lumikki inicia uma banda e eu praticamente cresci ali, no meio deles. Brincava durante o ensaios e me tornei a mascote da turma. Quando a banda começou a fazer sucesso mundial, eu não acreditei! E foi dali que saiu meu primeiro namorado e noivo (ok, acho que se um dia encontrar outra pessoa, pulo a parte do noivado...), Samuli, o tecladista da banda, treze anos mais velho que eu. Ah, depois penso nisso...

A partida de Aleksei para Londres foi muito dolorosa para mim. Cheguei a ficar doente. Na época em que comecei a praticar sambo foi muito mais para ficar perto dele que por qualquer outro motivo. Só com o tempo aprendi a amar o esporte. Como eu ficava nervosa quando quebrava algum dedo e não podia tocar. E nossa, como eu já me quebrei toda nesse esporte. Ninguém acreditava que eu fosse mesmo capaz de continuar e gostar de sambo. Só o Al. E “perder” meu irmão aos doze anos não foi fácil. Mesmo sabendo que ele voltaria sempre para nos visitar, pra onde eu correria se tivesse algum pesadelo? Quem me buscaria nas festinhas, quem me ajudaria a esconder as coisas erradas que eu fazia dos meus pais (ok, essa parte podia até ficar com o meu padrinho Max, mas ele não morava na nossa casa, era mais difícil). Metade da minha base de vida foi pra Londres com meu irmão. E por mais que eu amasse meus pais, não via a hora de poder correr pra perto do Al.
 

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