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sábado, 3 de outubro de 2009

Simples.


Não sei se era o fato dele não se cansar (ele contou que se o irmão não cansa, ele também não cansa. Cara perfeito?) ou se ele realmente era bom naquilo. A verdade é que eu estava me divertindo muito. Mas EU não tenho uma irmã gêmea que segura minha onda e precisava dormir. Ele percebeu. A gente se divertiu mais um pouco e ele me puxa pra dormir no peito dele. E eu durmo mesmo.

Acordo no quarto de lady Ascelus novamente. Sozinha. Chamo por Zós, que prontamente atende.
-Sim, lady Ascelus.
-Voltei para cá... Ainda não entendo nada disso...
-Seu fascínio pelos humanos costuma lhe deixar assim. E esse fascínio eu não entendo.

Me levanto e me aproximo de Zós, sempre escondido nas sombras. Ele me observa.

-Eles sentem, Zós. Eles amam.
-Amor? Não faço idéia do que seja. Isso diz respeito ao deus amor.

O pego pela mão e o trago para onde as rosas o iluminam melhor. Eu poderia dizer que era Jonothan, o que faria um grande sentido. Ele se surpreende muito com meu toque, mas se assusta muito mais quando eu toco os lábios dele com os meus.

-Lady Ascelus, que sandice é essa? Não tem consciência do que acaba de fazer? Sabe-se lá o que pode ter sido criado no mundo dos homens com esse seu ato insano!

Me afasto dele, envergonhada.

-Desculpe-me, Zós! Mas é disso que eu falo! Eles podem se tocar, se beijar, se amar! Eles tem escolha. Isso que nós temos aqui não é vida!

-Não vivemos aqui, lady Ascelus. Apenas existimos. – ele diz, com o mesmo tom de voz calmo de sempre, como se eu não houvesse feito nada preocupante.
-Exato, Zós. É o fato dos humanos VIVEREM que me encanta...

Segue um silêncio. Me lembro da Rosa das Emoções, do meu contado com Chambers. A jóia do leilão foi criada por mim... Irônico, não?

-E a jóia que criei, Zós? Como estão as coisas a esse respeito?
-Resolvidas. A família do deus das memórias se responsabilizou pelo caso e já enviaram alguns capacitados para dar fim à ela.
-Ótimo. Tem alguma noção do que podemos ter criado agora?
-Não faço idéia, milady.

Me lembro do meu acordo e das conseqüências que ele poderia ter. Precisava resolver aquilo rápido, e talvez Zós soubesse como.

-Zós. Preciso ajudar Shantel. Ela fez um acordo com espíritos aranha e precisa ser liberada dele.
-Aranha? Não creio possa fazer algo diretamente, milady.
-Com quem eu falo então?
-Com o deus aranha. Mas duvido que teu pai permita que saia de vossa corte. Convide-o para um jantar.
-Como faço isso?
-Não sei sobre etiqueta entre as cortes. A minha corte é diferente da tua. Converse com tua irmã Iti. Ela está nos aposentos dela.
-Como chego lá?
-Como se chega em qualquer lugar deste castelo, milady. Desejando. Apenas deseje chegar até ela enquanto caminha.
-Obrigada! – Com um sorriso me despeço e vou ao encontro de minha irmã.

Ao me aproximar do quarto dela sinto frio. A vejo, com longos cabelos quase brancos, mesmo tom de pele de todos daquele lugar e olhos mais azuis que os meus, tocando uma belíssima harpa. Tudo em volta dela está coberto de neve. Ela sorri quando me vê e diz que eu não aparecia por lá há tempos, que meu fascínio pelos humanos me fazia fugir e com isso eu não podia tocar minha flauta com ela. Sorri quando eu digo que estava com frio e diz que eu já devia estar acostumada pois ela é o inverno, assim como eu sou a rosa.

Vou direto ao assunto e pergunto como convidar o deus aranha. Bastante pratica, ela diz que não sabe o que um deus aranha come e com isso um jantar ficaria inviável. Ela não pode ir até lá, já que aranhas não gostam de frio. Nem de fogo, como nossa irmã mais velha. Além do que, a deusa do fogo não concordava nem um pouco com minhas fugas e nunca me ajudaria por um humano. Nossa irmã mais nova ainda era muito imatura para que eu a colocasse no meio de minhas histórias com os humanos.

Legal, tenho irmãs! A melhor parte é que descubro tudo de uma vez só. E não me dou bem com uma delas... Muito bom!

Mas minha irmã me explica que para Shantel - ou melhor, eu - me livrar do acordo basta eu me sentir livre dele. Quando achar e sentir que já paguei o preço justo pelo favor que me fizeram, estou livre de cumprir o acordo, e isso não causaria nenhum mal. Como ela mesma disse:

-Se eu decido que só tenho amigos que gostem de rosas, só vou conviver com pessoas que gostem de rosas, certo? Se uma dessas pessoas deixar de gostar de rosas, eu deixo de ser amiga dela. Simples! É assim que funciona!

Agradeço e mais uma vez, tenho que explicar o porquê do meu fascínio pelos humanos. Mais uma vez não entendem. Quando comento sobre demonstração de carinho, ouço algo como “pra que isso serve? Isso é coisa do deus carinho, não precisamos disso!”.

Cada vez mais entendo o fascínio de Ascelus pelos humanos. Talvez por isso eu seja tão impulsiva. É ela querendo viver a minha vida.

Desejo e volto ao meu quarto. Preciso voltar para Shantel, na verdade. Me deito e adormeço.

Sonho?


Estava diante de um grande castelo, numa noite nebulosa. Aos poucos percebo que ele tem a forma de uma árvore de pedra, vários blocos de cor vinho dispostos em espiral. A folhagem daquela árvore eram as torres do castelo. Muitas torres, da mesma pedra vinho. E rosas. Muitas rosas, de todas as cores, se enrolavam nos portões do castelo, que se abriram para mim. Eu entro.

Num grande salão, vejo quatro pilastras cobertas por rosas. Ao fundo, um único grande trono, com um homem de pele azulada e cabelos brancos, não por idade, mas por serem brancos. Ele possui uma expressão tensa, me olhando. Do lado direito, em pé, três mulheres idênticas, com um véu na cabeça. Ela também tem pele azulada e cabelos vermelhos. Ao lado esquerdo do trono, um cavaleiro medieval de cabelos vermelhos também. Mas sua armadura era feita grandes placas de pétalas de rosas negras, e ele se apoiava numa espada larga. Todos me olhavam.

Me aproximo e reverencio o homem do trono, que se dirige à mim.

-Ascelus... Não acredito que fez novamente! Já lhe proibi de sair! Essas suas fugas me tiram do sério!

Sem entender, eu tento manter a conversa. É um sonho muito real, mas ainda um sonho...

-Perdão, senhor... Não o farei mais. Eu não me lembro de nada, não sei nem porque fugi, como me dizem...
-Acho bom que não faça mesmo! Ah... Muito tempo no mundo dos homens, é isso que acontece! Izidur, leve-a para seus aposentos e garanta que ela não fugirá de novo.

O cavaleiro se posiciona atrás de mim e espera que eu ande. Me viro para ele.

-Desculpe, mas não me lembro onde ficam meus aposentos. Poderia me guiar, por favor?

E ele me guia. Na ante sala do “meu quarto” eu vejo nove caixões de cristal, apenas um vazio.

Nos outros estou eu, adormecendo, em várias etapas diferentes da vida. Meu rosto e corpo, mas todas com o mesmo tom de pele azul e cabelos verdes. Mais velha em uns, mais nova em outros. Aponto o vazio.

-Não vou ter que entrar ali, não é?
-De forma alguma, lady Ascelus. Seus aposentos são estes. – e abre uma grande porta.

Lá dentro vejo um quarto tipicamente medieval, quase todo tomado por rosas, em todas as pilastras, paredes... Lindo... As rosas pareciam emitir luz própria... Tudo ali era feito basicamente das pedras vinho e de rosas... Um cristal enorme como espelho. Descubro que também tenho a pele azulada e longos cabelos esverdeados...

-Izidur... Eu sou Ascelus?
-Sim, milady... – ele parece surpreso com a pergunta. Ao se retirar, completa – apenas descanse...
-Sim, obrigada.

Me deito naquela enorme cama e começo a pensar no que houve. As WhiteWood agiram? Eu cheguei a falar com Jacqueline ou foi só mais uma de Chambers? Henry... Meu Deu, Henry... O que aconteceu??

E uma voz vinda das sombras me responde:
-Sabes que não foi nada disso.

Olho, e com um pouco de dificuldade vejo um homem todo vestido com roupas épicas negras, olhos e cabelos bem negros.

-Quem é você?
-Seu guardião, Lady Ascelus. Zós.
-Meu guardião?
-Sim.
-O que somos nós? Deuses?
-Não sei, milady... O que seria um deus? Alguma concepção criada pelos homens?
-Um ser superior, com capacidade de criar coisas a partir do nada...
-Seu pai, Lord Condor, se encaixaria nessa descrição. E vendo desta forma, sim, poderíamos dizer que somos deuses.
-Então me diga Zós... Se não foi nada daquilo, o que foi?
-Como lady Ascelus, você pode ordenar que sua vida humana se lembre do que aconteceu de verdade.

Me concentrei. Era como se visse dois filmes ao mesmo tempo, um sobrepondo o outro, mas muito nítidos. E descobri toda a verdade. Sem acreditar, me deitei, abatida.
-Por que, Zós?
-Lady Ascelus, não saberia explicar. Chambers é a forma humana do deus da memória, mas não o sabe. Como você é Ascelus e Shantel.
-Como vai ser agora?
-Shantel saberá diferenciar.
-Tudo bem. Você também está lá, comigo, quando sou Shantel?
-Claro, lady Ascelus. Quando lady Ascelus eu sou Zós. Quando humana, assumo alguma forma parecida para poder cuidar de ti.
-Para onde vai agora?
-Tenho que resolver um assunto importante. O simples fato do toque entre Shantel e Chambers gerou uma peça única no mundo dos homens, capaz de manipular emoçoes.
-Peça? Que peça? Só UM TOQUE?
-Sim. Para nós é assim que as coisas acontecem, milady. Esse toque gerou uma jóia de pedra, em forma de rosa. No mundo dos humanos chamam-na de "Rosa das Emoções"
-Então vá, Zós. Perdoe-me por isso.
-Não tem que pedir perdão por nada. Apenas descanse.
E assim eu fiz. Adormeci no sonho, na esperança de acordar na realidade...
 

©2009 Mundo de Shantel | by TNB