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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Voltando à vida real


Embalar as coisas dela, cancelar compras de objetos, móveis e da nova casa. Doar quase tudo que seria da minha filha. Seria... Ainda bem que Tanja estava ali naquele momento para me ajudar nisso. Ela estava em lua de mel na época, e não pode vir me ver quando aconteceu. Veio depois, assim que pôde, e me ajudou muito com tudo.

Como aquilo doía. Mas eu não podia me deixar abater. Henry se sentia um pouco culpado por ter me deixado sozinha, grávida, então eu precisava mostrar pra ele que apesar de tudo eu estava bem. Por nós dois...
Com o passar do tempo a dor se abranda, adormece, mas não acaba. Você aprende a viver com ela, até chegar um ponto que você sente que precisa fazer alguma coisa que marque a superação daquele problema. E três meses depois eu senti isso.

Queria algo que fosse especial e me trouxesse algum sentimento bom, algo que durasse e que ninguém pudesse tirar de mim. E descobri que uma tatuagem seria o ideal, como as velhas e antigas tribos onde as tatuagens representavam um rito de passagem importante. Mas qual o desenho, onde, como, quais cores?

Rosas... Engraçado como eu sempre amei rosas. Me trazem uma sensação de familiaridade. Provavelmente minha mãe as cultivava na estufa quando eu era bem pequena. Vermelhas e brancas! Ok, branco não se destaca em mim... Só vermelhas. Com algumas borboletas, quem sabe... Mas onde? No braço? Quadril? E se elas envolvessem meu corpo como se me acolhessem? Isso!!

Mas só rosas e borboletas? Vai ficar muito cheio de coisa, muito “igual” e difícil de combinar os elementos Além do que, deve doer muito mais... Com alguns traços orgânicos, indefinidos, leves, dando forma às linhas que as rosas e as poucas borboletas vão seguir no meu corpo... Isso!

Ok. Então a tatuagem começa do lado esquerdo, no braço entre o cotovelo e o ombro e ali se divide indo para as costas e peito, passando entre meus seios, sobre o estômago e vai para o lado direito suavemente até chegar no quadril, onde se encontra com a parte que foi para trás e que desceu pelas minhas costas até chegar naquele mesmo ponto do lado direito, desce pela minha coxa até o tornozelo e pé... ISSO!!

Passei a idéia para Charlotte, que fez um trabalho lindo! Exatamente como eu queria. Uma semana depois ela me deu o desenho pronto. No melhor tatuador de Londres, eu comecei. Faríamos o contorno de uma parte por semana, depois iríamos colorir cada parte com esse mesmo intervalo. Os caras acharam que eu tava maluca porque não queria esperar um mês como seria o correto, por causa da dor. Diziam que eu não ia agüentar. Se eles soubessem o motivo da tatuagem...

No meio de setembro de 2007 eu estava com minha tatuagem pronta. Perfeita! Como eu queria! Demorou mas valeu a pena. Só a coceira da cicatrização que realmente incomodava, mas COMO valia a pena! O Henry estava lá a cada sessão, segurando minha mão e olhando o tatuador, lógico. Ciumento daquele jeito, ainda me surpreendo por ele não ter reclamado tanto por um homem tatuar aqueles lugares do meu corpo. E claro, era ele quem cuidava da parte das minhas costas, com a pomada e os curativos. Eu parecia uma fruta embalada no plástico! E no verão!
Mandei uma foto à Lumikki e à Tanja, que adoraram! Lumikki, claro, compôs outra canção onde se referia à mim como "Minha pequena Fênix", já que eu havia superado.

Só queria saber o que meus pais vão dizer... Nossa, eles vão falar muito... Quando eles descobrirem, o que vai demorar muito se depender me mim.

Mas eram as MINHAS rosas, no MEU corpo. Me abraçando e me trazendo conforto, como há muito tempo eu já não sentia...

Meu bebê, mamãe nunca deixará de te amar...


Dia 23 de fevereiro de 2007, uma sexta feira. Tinhamos chegado da Rússia no dia anterior, onde fomos padrinhos de casamento da minha prima Tanja. Eu havia ficado na academia até tarde revendo uma papelada atrasada pela viagem. Henry estava em uma outra viagem pelo time. Era a terceira desde que começamos a morar juntos. Quando dei por mim, já passava da meia noite e eu tinha que dormir.

Estava frio, eu estava com algumas blusas grossas que escondiam ainda mais a barriga de cinco meses, que já era pouco saliente. Nesse dia a Anikka estava mais agitada que o normal.

"Calma mocinha!! Assim você vai me machucar! A mamãe já está indo pra casa e o papai chega amanhã de tarde!!", eu dizia enquanto trancava a academia. Mas ela se agitava a cada sílaba que eu pronunciava, como se soubesse o que estava por vir.

Quando me virei para ir pra casa, me deparo com um sujeito trêmulo, apontando uma arma para mim. "Anda!! Abre logo essa porra e me dá a grana!!". Eu olhava e pela primeira vez na minha vida com muito medo, sem saber como agir. Só queria sair dali bem, pela criança que eu carregava. "Calma... Vamos conversar, tá tudo bem..." eu dizia enquanto levava a mão ao bolso para pegar a chave da academia. Mas acho que ele não pensou nisso.

Só senti a coronha do revólver bater na minha testa e tudo ficou turvo. Caí no chão. Então, sinto um chute na minha barriga e uma dor horrível. Eu sabia o que aquele homem tinha acabado de fazer. Por toda a dor que ele havia me causado, por todo o ódio que eu jamais imaginei sentir de alguém, meu instinto gritou. Enfiei meus pés entre os dele, fazendo com que ele também caísse. No mesmo instante chutei a mão dele para que ele largasse a arma. Ainda no chão nós brigamos, e eu bati nele. Aprendi a resistir à dor e continuar me movendo e lutando, mesmo com ela, nesses anos de prática de sambo. Só a dor emocional por saber o que ele acabara de fazer me dominava. Por cima dele, dava socos no rosto, na cabeça, no peito, onde meu ódio permitisse. Com algum esforço consegui me levantar e continuei chutando. Ele já estava desmaiado a algum tempo, mas eu não iria parar. Foi então que eu ouvi o barulho das sirenes, senti outras mãos em mim me tirando de perto daquele monstro. Escuto os policiais falando algo sobre ambulância, que eu também precisava e mais uma vez, tudo fica turvo. Mas desta vez eu cedi e desmaiei.

Acordei no hospital com a Charlotte de olhos marejados do meu lado e meu irmão do outro, sério como eu nunca havia visto. Começo a chorar, sentindo os pontos da cirurgia que acabava de retirar o corpo de minha filha de dentro de mim. Eles diziam algo sobre o Henry, que ele estava a caminho, que meus pais estavam vindo da Rússia junto com um dos meus tios que é médico, que os pais do Henry estavam chegando... Mas eu não ouvia... Só ouvia o choro e o riso de um bebê que eu nunca conheceria...

Melhor época da minha vida!


Me lembro bem, era dia 25 de outubro e eu tava muito enjoada. Henry (agora um jogador de rúgbi bem sucedido) chegou do treino de banho tomado com aquela colônia que eu amava, mas quando ele me abraçou só deu tempo de correr pro banheiro. Charlotte e Marrie estavam lá em casa, viram a cena e começaram a rir. "Aiaiai, vamos ser tias logo!" brincavam, enquanto eu insistia que havia comido algo estragado. Mas eu sentia que não era isso...

O Henry havia acabado de me pedir em casamento, estava se mudando para a minha casa. Não podia ser. Minha família ia achar que foi tudo de caso pensado, meu irmão ia me matar! Se meu pai não matasse ele antes, por não ter tomado conta de mim... Bem capaz, eu já tinha os meus 22 anos e era completamente independente de qualquer pessoa, mas mesmo assim ainda eram minha família. E o próprio Henry me pediu pra fazer o exame de farmácia.

Na manhã do dia seguinte, enquanto ele organizava as coisas dele no loft, eu fiz o exame. " E aí, Shan??", ele perguntava de cinco em cinco minutos. E eu olhava as duas listrinhas naquela coisa do teste, e confirmava na embalagem: "duas listras: POSITIVO" Não, não... Tinha algo errado... Ou não...

Quando disse a ele a expressão dele mudou. Ele ficou pálido, me olhando. Quando eu pensava "ok, agora sim, me ferrei!" ele me abraçou. Só não apertou mais porquê teve medo de machucar o bebê. Me olhava com os olhos marejados e um sorriso bobo, dizendo "A gente vai ter um filho?? É sério?? Um bebê, meu e seu??" E então eu comecei a sorrir também e deixei de pensar no resto do mundo. Ali, naquele momento, nos braços dele, só existíamos nós três... Ele, eu e este bebê crescendo dentro de mim...

Meu irmão foi o primeiro a saber. A reação dele foi parecida com a do Henry. Palidez, olhar fixo em mim... A princípio ficou bravo, perguntando como aquilo tinha acontecido. Mas no segundo seguinte me abraçou e disse que estava muito feliz e que eu poderia contar com ele pra tudo. Que aquela criança já era mais que bem vinda... E todos os nosso amigos ficaram muito felizes logo de cara, nos dando os parabéns e discutindo nomes, padrinhos, quem daria o primeiro brinquedo, qual faculdade a criança faria...
Meus pais queriam me matar pelo telefone. "Uma vida inteira pela frente e já arruma uma responsabilidade dessas? Vcoê não sabe nem cuidar de si mesma, quanto mais de uma criança!" e coisas do tipo... Mas depois do susto, começaram a gostar da idéia de serem avós. Logo a família toda começou a mandar presentes e eu estava grávida de apenas SEIS semanas!
Lumikki acabou compondo uma canção pequena mas linda, cantada em suomi. Ela dizia que a paz poderia ser encontrada num balançar de berço, acreditando que a maternidade me faria desacelerar meu ritmo.
Começamos todos os exames, mantínhamos tudo em dia. Queríamos o melhor para o bebê. E foi num exame que descobrimos que seria uma menina! Anikka Khodasevich Thompson! Esse seria o nome dela. Os pais e a irmã do Henry já não viam a hora de poder pegá-la no colo. A sala de exame ficava sempre cheia...

Tudo estava sendo preparado com todo o amor e ansiedade para a chegada da pequena Anikka... Definitivamente, foi a melhor época da minha vida...
 

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