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sábado, 10 de outubro de 2009

Em Drista


Acordo com Zós me chamando, voz tensa.

-Lady Ascelus, acorde!! Preciso que venha comigo, rápido!

Abro os olhos e ele está de pé na minha frente, usando uma armadura de pétalas negras bem parecida com a de Ízidur. Ainda confusa, pergunto:

-O que está acontecendo?? Porque preciso ir?
-O castelo está sob ataque, milady. Preciso garantir sua segurança.
-Mas e você?
-Eu irei lutar pelo reino de Drista, o reino de seu pai.
-Zós... Você vai ficar bem?
-Vou fazer o possível, milady.
-Mas se você partir, quem irá zelar por mim?
-Muitos outros, até melhores que eu, morreriam pela honra de protegê-la.
-Mas eu não quero ninguém além de você para isso, Zós. Ordeno que volte.

Ele me olha sem entender. Estende a mão para mim e diz:

-Vou fazer o possível, milady. Agora vamos.

Dou a mão a ele e ele me puxa para as sombras. Tudo muito escuro, uma escuridão quase palpável. Em segundos estamos no meio das florestas de Drista.

-Zós, quem está nos atacando?
-Seu pai tem muitos inimigos, milady.
-Pra onde vou?
-Para a vila de Drista. Lá existe uma porta para o mundo dos humanos, lugar que você conhece melhor que muitos de nós. Creio que estará segura lá. Peça para algum habitante da vila te guiar até a porta. Corra! Eu preciso ir. As sombras estão agitadas.

Eu corro na direção que ele mostra o mais rápido que posso. Logo chego à vila, com seus habitantes que se pareciam comigo, da “minha espécie”. Alguns me reconheciam e reverenciavam, outros quase não me viam, cuidavam de suas vidas.

Escuto um barulho de ferro batendo em ferro, que vinha de uma casa de porta aberta. Entro e vejo um homem, um ferreiro, de costas para a porta, forjando algo.

-Com licença, senhor!

Ele para, me olha com expressão dura mas indiferente.

-Isso não é lugar para uma princesa.
-Eu preciso estar aqui. Na verdade, preciso sair daqui. Ir para o mundo dos humanos, mas não sei onde fica a porta.
-A princesa que esquece seu próprio reino em função dos humanos não sabe onde fica essa porta?
-Não, não sei... Quem é você?
-Desolação. Forjo espadas com o ferro de seu pai. Vai mesmo passar pela porta? É perigoso demais para alguém como você. – e volta a forjar o instrumento.
-Eu preciso. Sabe onde fica?
-Terceira casa á esquerda, vai estar com portas abertas também. Fale com Ilyanor, ela lhe mostrará a passagem.
-Obrigada!
-Já que vai, lady Ascelus, é melhor que leve isto. A Bebedora de Almas.

Ele me entrega a arma que forjava. Não consigo identificar qual é o metal, mas me parece prata. Brilha muito. Ela parece ser forjada em uma única peça. Seu pomo é uma grande rosa, completamente desabrochada, seu cabo revestido por muitas tiras finas de couro curtido e emaranhado que se parecem com caules de roseira entrelaçados. O guarda-mão é feito com quatro rosas que começam a desabrochar, quase botões e de entre elas se projeta a lamina. O ‘chappe’ tem a base em cruz, projetando duas laminas cruzadas, mas a lamina extra é mais curta e se afina até desaparecer na lamina principal, cerca de 20cm depois do cabo. Desse ponto surge um vinco largo onde o metal é escurecido e possui inscrições em um idioma desconhecido e de aparência enoquiana. Seus dois fios são iguais e a ponta da espada se projeta prematuramente dando aparência perfurante. A lamina paralela é solida e tem as características de ‘forte’ em ambas as direções. É simplesmente linda. O nome me assusta.

Agradeço e vou até onde ele me indicou.

Ilyanor costurava quando entro em sua casa. Ela me reconhece e reverencia. Pergunta sobre vestidos, se estou ali para fazer mais algum. Quando falo sobre a porta, ela se assusta.

-Mas lady Ascelus, é perigoso demais!
-É necessário, Ilyanor.

Ela compreende e vai até um armário.Quando percebo a dificuldade dela em move-lo, a ajudo. Ele revela uma saída escavada na parede, com uma escada e uma luz dourada no fundo. Ilyanor me acompanha até um certo ponto da escada e volta, dizendo:

-Por favor, tome cuidado, milady!
-Sim! Obrigada!

Desço às pressas e me surpreendo quando percebo de onde vem a luz. Era uma fênix enorme, bem à minha frente. Me volto para a escada e pergunto, na esperança que Ilyanor ainda me escute, se iria ser atacada. Para minha surpresa maior, quem me responde é a própria fênix:

-Eu tenho um nome, Ascelus. E sim, irei te atacar se você estive aqui para atravessar a porta.
-Eu não quero brigar, mas preciso atravessar. E me perdoe por esquecer seu nome. Eu não ando me lembrando de muita coisa ultimamente.
-Sim, muito tempo no mundo dos humanos faz isso. E você fica mais lá que em seu próprio reino, com seu povo.
-O castelo de meu pai está sob ataque, preciso me proteger em algum lugar que conheço. Por isso preciso passar, e para continuar em segurança, não quero ter que enfrentar você.
-A minha função é proteger a porta, você não vai passar por mim sem luta. E me diga, onde está seu guardião? Ele deveria lhe manter segura
-Foi ele quem me disse para ir ao mundo dos humanos.
-O que ele pretende? Uma volta triunfal de uma das princesas, depois que o reino estiver destruído, para restabelecer as coisas?
-Não sei o que ele pretende, mas confio nele. Por isso preciso passar.
-Como pretende passar por mim? Com sua falsa autoridade da família real? Não me submeto à isso, não me impressiona.
-Eu, em algum momento, tentei lhe impor algo parecido com isso? Mas se não houve mesmo alguma forma pacífica de passar pela porta... Serei obrigada a usar isto. – ergo a espada, que antes mantinha presa às minhas costas por uma fita de meu vestido. A fênix olha surpresa, quase assustada.
-Se vai levar isso com você, eu lhe deixo passar. E que a Bebedora de Almas nunca mais volte.

Ela abre suas asas enormes e revela a passagem. A fênix era a porta. Uma luz forte me cega.

Acordo no meu quarto, o de Shantel. Abro os olhos e vejo a Bebedora de Almas cravada em minha cama, entre minhas pernas. Não posso acreditar...

sábado, 3 de outubro de 2009

Sonho?


Estava diante de um grande castelo, numa noite nebulosa. Aos poucos percebo que ele tem a forma de uma árvore de pedra, vários blocos de cor vinho dispostos em espiral. A folhagem daquela árvore eram as torres do castelo. Muitas torres, da mesma pedra vinho. E rosas. Muitas rosas, de todas as cores, se enrolavam nos portões do castelo, que se abriram para mim. Eu entro.

Num grande salão, vejo quatro pilastras cobertas por rosas. Ao fundo, um único grande trono, com um homem de pele azulada e cabelos brancos, não por idade, mas por serem brancos. Ele possui uma expressão tensa, me olhando. Do lado direito, em pé, três mulheres idênticas, com um véu na cabeça. Ela também tem pele azulada e cabelos vermelhos. Ao lado esquerdo do trono, um cavaleiro medieval de cabelos vermelhos também. Mas sua armadura era feita grandes placas de pétalas de rosas negras, e ele se apoiava numa espada larga. Todos me olhavam.

Me aproximo e reverencio o homem do trono, que se dirige à mim.

-Ascelus... Não acredito que fez novamente! Já lhe proibi de sair! Essas suas fugas me tiram do sério!

Sem entender, eu tento manter a conversa. É um sonho muito real, mas ainda um sonho...

-Perdão, senhor... Não o farei mais. Eu não me lembro de nada, não sei nem porque fugi, como me dizem...
-Acho bom que não faça mesmo! Ah... Muito tempo no mundo dos homens, é isso que acontece! Izidur, leve-a para seus aposentos e garanta que ela não fugirá de novo.

O cavaleiro se posiciona atrás de mim e espera que eu ande. Me viro para ele.

-Desculpe, mas não me lembro onde ficam meus aposentos. Poderia me guiar, por favor?

E ele me guia. Na ante sala do “meu quarto” eu vejo nove caixões de cristal, apenas um vazio.

Nos outros estou eu, adormecendo, em várias etapas diferentes da vida. Meu rosto e corpo, mas todas com o mesmo tom de pele azul e cabelos verdes. Mais velha em uns, mais nova em outros. Aponto o vazio.

-Não vou ter que entrar ali, não é?
-De forma alguma, lady Ascelus. Seus aposentos são estes. – e abre uma grande porta.

Lá dentro vejo um quarto tipicamente medieval, quase todo tomado por rosas, em todas as pilastras, paredes... Lindo... As rosas pareciam emitir luz própria... Tudo ali era feito basicamente das pedras vinho e de rosas... Um cristal enorme como espelho. Descubro que também tenho a pele azulada e longos cabelos esverdeados...

-Izidur... Eu sou Ascelus?
-Sim, milady... – ele parece surpreso com a pergunta. Ao se retirar, completa – apenas descanse...
-Sim, obrigada.

Me deito naquela enorme cama e começo a pensar no que houve. As WhiteWood agiram? Eu cheguei a falar com Jacqueline ou foi só mais uma de Chambers? Henry... Meu Deu, Henry... O que aconteceu??

E uma voz vinda das sombras me responde:
-Sabes que não foi nada disso.

Olho, e com um pouco de dificuldade vejo um homem todo vestido com roupas épicas negras, olhos e cabelos bem negros.

-Quem é você?
-Seu guardião, Lady Ascelus. Zós.
-Meu guardião?
-Sim.
-O que somos nós? Deuses?
-Não sei, milady... O que seria um deus? Alguma concepção criada pelos homens?
-Um ser superior, com capacidade de criar coisas a partir do nada...
-Seu pai, Lord Condor, se encaixaria nessa descrição. E vendo desta forma, sim, poderíamos dizer que somos deuses.
-Então me diga Zós... Se não foi nada daquilo, o que foi?
-Como lady Ascelus, você pode ordenar que sua vida humana se lembre do que aconteceu de verdade.

Me concentrei. Era como se visse dois filmes ao mesmo tempo, um sobrepondo o outro, mas muito nítidos. E descobri toda a verdade. Sem acreditar, me deitei, abatida.
-Por que, Zós?
-Lady Ascelus, não saberia explicar. Chambers é a forma humana do deus da memória, mas não o sabe. Como você é Ascelus e Shantel.
-Como vai ser agora?
-Shantel saberá diferenciar.
-Tudo bem. Você também está lá, comigo, quando sou Shantel?
-Claro, lady Ascelus. Quando lady Ascelus eu sou Zós. Quando humana, assumo alguma forma parecida para poder cuidar de ti.
-Para onde vai agora?
-Tenho que resolver um assunto importante. O simples fato do toque entre Shantel e Chambers gerou uma peça única no mundo dos homens, capaz de manipular emoçoes.
-Peça? Que peça? Só UM TOQUE?
-Sim. Para nós é assim que as coisas acontecem, milady. Esse toque gerou uma jóia de pedra, em forma de rosa. No mundo dos humanos chamam-na de "Rosa das Emoções"
-Então vá, Zós. Perdoe-me por isso.
-Não tem que pedir perdão por nada. Apenas descanse.
E assim eu fiz. Adormeci no sonho, na esperança de acordar na realidade...
 

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