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domingo, 15 de novembro de 2009

Objetivos desconhecidos, descobertas inesperadas.


Lancaster insistia que fui eu quem havia feito aquilo, com as mãos mesmo, já que a espada me dava uma força sobrenatural, o motivo pelo qual eu cortei as dobradiças da porta daquela forma. Desiste de insistir nessa hipótese quando vê que para eu arrancar alguma parte de alguém eu precisaria usar as duas mãos, conseqüentemente, teria que largar a espada e assim me libertaria da dominação dela. Precisamos encontrar o Miguel. Eu preciso pegar a espada e a jóia. Espero que ela já esteja restaurada.

No caminho, o doutor me pergunta se eu me sinto bem, já que estou muito pálida. Digo que não e o faço me contar o que ele sabe sobre meu estado que eu não sei, já que eu notei como ele me olha desde que acordei. Ele me conta que a mulher dele tinha os mesmos sintomas que eu tinha e morreu dessa doença misteriosa. Com a diferença que ela demorou quatro semanas para chegar ao estagio que eu estava e completa dizendo que se a doença continuasse avançando com a rapidez que estava, eu tinha umas duas horas de vida. Bom... Pelo menos eu teria tempo pra salvar meu irmão. Lancaster para de andar, pensativo. Me analisa com os olhos e me diz pra eu me concentrar em curar meu sangue. Diz que antes ele não conhecia esse “lado” das coisas e acha que assim eu posso me curar mesmo que momentaneamente. Funciona. Me sinto bem melhor e eles dizem que aparentemente estou ótima. Mas a sede volta a surgir. Fraca, mas volta.

A jóia ainda está meio gelatinosa onde estava separada e já não parece uma rosa, mas vai ter que servir assim mesmo. A coloco no bolso. Com a espada enrolada no couro, vou atrás de Miguel com os rapazes.

O encontramos lutando com o capitão do navio, que há algumas horas atrás não se mantinha em pé sem apoio mas agora exibe uma agilidade e força invejáveis. Notamos que os olhos do capitão estão completamente negros. É ele quem eu tenho que deter com a pedra. Mas Daniel atira nele e o mata antes que eu faça qualquer coisa. É quando algo estranho acontece.

Da boca, olhos, nariz e ouvidos do capitão sai uma fumaça negra. Lancaster e Rodriguez saem correndo em direção aos porões onde estão os contêineres. A fumaça entra em Miguel e os olhos dele ficam negros. Erick se coloca entre mim e Miguel e é atacado.

Eu descubro apenas a lâmina da espada e a empunho na direção de Miguel, enquanto evoco o poder da jóia sem sucesso. Ele e Erick começam a brigar. Eu não entendo como o Erick consegue agüentar o Miguel, mas ele está dando conta. Acerta Miguel várias vezes, o deixando tonto. Depois de algum tempo Miguel domina a situação segurando Erick pelo pescoço. Eu evoco o poder da jóia mais uma vez, mas nada acontece. Erick luta para se libertar por alguns momentos, mas não consegue. Então escuto o pescoço dele estalar e o vejo parar de se mover. Miguel larga o corpo inerte de Erick e me olha com aqueles olhos negros. Ainda evocando a jóia e segurando a espada, tento me defender. Não quero usar a espada nele porque pode matá-lo, mas se eu usar a pedra, pode ser que ela mate apenas o que está dominando Miguel.

Ele bate com o braço na lâmina da espada e se queima muito, além de quase deslocar meu ombro já que eu não soltei a espada. Nervoso, bate o outro braço, tentando tirar a espada do caminho para me matar. Se queima de novo, tão gravemente quanto antes. Eu ainda evoco a jóia, já acreditando que ela não está em condições ainda de fazer o que ela deveria.

Nesse momento escuto tiros vindos de trás de mim, que acertam Miguel. Olho rapidamente por cima do meu ombro e vejo Lancaster com uma arma na mão, Rodriguez de olhos arregalados e Hector Hagis de expressão impassível, olhando a cena. Lancaster atira de novo e derruba Miguel. A mesma fumaça negra sai de Miguel e eu corro na direção dos três que estavam atrás de mim, na tentativa de não ser a próxima dominada por ela. Hector fecha os olhos, estende apenas os dedos na direção da fumaça e diz algo como “Retribuição”. Um raio atinge a fumaça, enfraquecendo-a. Eu paro de correr, estendo a jóia na direção da fumaça e com ela enfraquecida, o rubi faz seu trabalho. Ele emite uma luz avermelhada e a fumaça que parece ter vida, se movendo como um bicho capturado que tenta fugir é atraída para a jóia, se tornando avermelhada à medida que se aproxima até ser absorvida pela pedra, que nesse momento volta ser rígida como antes, mas que deixou de ser uma rosa.

Corremos para socorrer Erick e Miguel. Os dois estão vivos. Os acomodamos em um quarto, depois que recobram a consciência, para se recuperarem.

Explicamos ao Sr. Hagis tudo que sabemos até agora sobre estarmos ali, sobre o navio e sobre as pessoas que estão na mesma situação que ele estava. Explico a ele da outra memória em que eu o procurei e digo o motivo. Ele olha sempre com a mesma expressão altiva e inabalável, firme. Parece mesmo conhecer meus pais. Quando digo que uma das pessoas num contêiner é meu irmão, ele olha sério e nada surpreso dizendo em seguida em um tom calmo, quase entediado:

-Mais uma vez, dois Khodasevich.
-Então conhece mesmo meus pais? Eles já estiveram aqui? Bom, não aqui, mas com vocês?
-Não conheço outro casal com esse sobrenome. – ele responde, como se eu tivesse perguntado se ia chover num dia de céu carregado. Exatamente como na minha memória. Mesma personalidade.

Ele me explica em seguida que sou uma nephalin, um tipo de nexus que tem a capacidade de se lembrar de todas as vidas passadas e até de evocar habilidades delas quando necessário.

Ele diz que sabe o que estão desenterrando no Ártico. Um portal pro inferno. Cara, com a calma que ele fala parece até que estão desenterrando uma cápsula do tempo do jardim de infância de 1954. Parece que NADA é capaz de surpreendê-lo. O tipo de pessoa que tenho medo de ver realmente irritada, porque parece não sair do sério tão fácil, SE sair. Sugere que simplesmente deixemos o navio passar por cima de tudo, assim, normal. Com menos emoção ainda do que eu e o Al quando crianças, queríamos irritar um dos nossos vizinhos chatos, dizíamos: “vamos passar de bicicleta por cima daquele saco de folhas secas pra sujar todo o gramado dele de novo!”.

Ainda sem ter certeza de como impedir que desenterrem o portal, decidimos acordar a todos. Enquanto os homens saudáveis descem para adiantar o processo, vou buscar roupas quentes para meu irmão e para a mulher. Aproveito e troco as minhas por outras limpas.

Mesmo sem saber ainda se Aleksei é ou não um nexus, vamos acordá-lo. Será mais fácil mantê-lo vivo se ele estiver consciente.

Enquanto esperamos que ele acorde, Sr. Hagis me pergunta sobre a vida mais poderosa que eu me lembre. Falo um pouco sobre Ascelus. Ele me olha sério e diz:

-Então vamos ver se essa noite conseguimos trazer uma deusa à terra.

sábado, 14 de novembro de 2009

Quando o ódio domina


Eu estava em pânico, mas consegui me curar. O corte fechou de dentro pra fora e mesmo eu me concentrando apenas nele, foi o medo de morrer que me fez realizar o ato com muito mais eficiência. Até meu rosto ficou livre das cicatrizes das queimaduras, minhas sobrancelhas e cabelo ficaram iguais eram antes. Menos mal...


Volto ao quarto onde me instalei e deixo o copo debaixo da cama, encostado na parede, protegido de olhares curiosos. Fico deitada por uns instantes, esperando o mal estar passar, ou ao menos amenizar.


Saio à procura dos rapazes e encontro os três abrindo os contêineres em outra parte do porão do navio. Encontraram dentro deles suprimentos, equipamentos de escavação profunda e de mecânica, muitas peças para montagem e reparo de veículos para neve. E pessoas. Uma em cada um. Eram contêineres aquecidos e as pessoas sedadas e nuas que estavam em cada um deles estavam ligadas aparelhos que monitoravam seus sinais vitais, mantinham a dosagem de sedativo e os respiradores artificiais, além de soro, sondas para alimentação e outras, para dejetos.


Eu cheguei no momento e que encontravam Hector Hagis. Demorou, mas o reconheci. Em outro contêiner estava uma mulher, que reconheceram como uma tal de Dana Collins, a qual eu nunca havia visto, não fazia idéia de quem pudesse ser. Chamamos Miguel. Ele disse que imaginava que houvessem pessoas ali, porque ele mesmo acordou em um contêiner, nas mesmas condições dos outros. Continuamos a abrir com a ajuda dele, em busca de outras pessoas. E encontramos.


Não precisei de nem um segundo para reconhecer. Era meu irmão que estava dormindo ali, na minha frente, cheio de tubos. Não pude acreditar! O ódio, a revolta tomaram conta de mim como na noite em que me tiraram Anikka. Meu impulso foi arrancar tudo, acordá-lo, cuidar dele. Mas todos me convenceram que ele estava melhor que nós, pois tinha alimentação e hidratação na medida que lhe era necessário, além de estar aquecido. Lancaster pode ser chato e arrogante, mas é competente. Não conseguiria se manter na posição que ocupa se não fosse. Resolvo escutá-lo e deixo meu irmão dormindo. Todos me dão licença e eu fico ali, olhando meu irmão, segurando a mão dele e rezando pra eu encontrar logo o responsável por colocá-lo em risco.


Mas não fico ali muito tempo. Tenho que recuperar a jóia para deter quem quer que fosse, ainda mais sabendo que meu irmão estava ali, sem poder se defender. Agora eu tinha que consertar a jóia por ele também. No caminho, Erick me convence a comer. Eu não quero, mas preciso. Como uma pasta branca e sem gosto, mas nutritiva.


Vou até meu quarto e vejo que está funcionando. Noto alguns cristais se formando na rachadura, unindo as duas metades, mas ainda sim me parece muito frágil. Toco o sangue com meus dedos e me concentro em “curar” a pedra, assim como eu faço para me curar, e parece funcionar, mas nada significante. E eu começo a experimentar um pouco do que deve ser a tal sede...


Começo a passar mal, o enjôo de antes está muito forte. Corro para o banheiro e a pasta branca que eu havia comido há alguns minutos volta.


Lancaster e Erick me encontram saindo do banheiro e o doutor pergunta por que eu precisava da pedra. Explico tudo que sei e ele diz que se soubesse desde o inicio, não tentaria escondê-la de mim. Conclui que se pouco sangue está unindo as duas metades da pedra, mais sangue vai fazer ela se unir mais rápido. E me sugere usar a espada para conseguir mais sangue. Ela sangra quando apontamos para Erick, então colocamos o copo dentro de um balde e segurando a espada sem tocar nela diretamente, a aponto para ele mas nada acontece. Lancaster me pede para deixar ele tentar, mas pede para ficar sozinho. Ele consegue, de alguma forma, fazê-la sangrar e muito. Quase enche o balde. Ele disse que só tocou nela diretamente e ela sangrou. Quando tento, sinto ela me dominando mas eu resisto. Lancaster retoma e enche mais o balde, agora cobrindo o copo. Eu tento mais uma vez, mas de repente tudo começa a ficar vermelho.


Quando dou por mim estou parada, de joelhos em um corredor do navio, com a espada jogada no chão, cobertas de sangue. Eu e a espada. Não sei o que aconteceu nem quanto tempo se passou, mas já não sinto mais sede. Assustada, pego a espada com a manga da parka e volto ao meu quarto. No caminho não vejo ninguém. Me preocupa, mas preciso consertar a jóia antes de qualquer coisa. Noto a porta caída e as dobradiças cortadas com uma precisão inacreditável. Enrolo novamente a espada no couro e vou ao banheiro lavar rosto, mãos e cabelo. Logo Erick aparece, assustado, na porta do quarto. Vê que eu já voltei a mim. Então eu tenho uma idéia.


Seguro o balde, me concentro e jogo todas as minhas emoções lá dentro. Tenho flashes, com se fossem memórias de outras vidas. Sou uma mulher que foge de alguma coisa e eu sei que estou na África. De repente paro, me ajoelho na terra e a toco, sentindo a terra, a “mãe África” e o chão começa a tremer. Não só aquele lugar, mas toda a terra treme. Sou também um templário lutando com um sarraceno, quando tomo um golpe certeiro de cimitarra num dos olhos, me fazendo perder a visão e cair de joelhos com a dor. Me concentro e o sangue que saía do ferimento borbulha, como se fervesse e me cura, recuperando a visão daquele olho. Me levanto e volto a lutar, e é quando a visão acaba. Abro meus olhos e Erick olha pro balde, espantado. Ele diz que o balde brilhou em vermelho e me pergunta o que eu fiz. Explico, ele tenta e amassa o balde depois que as mãos dele brilham. Assustada, pergunto o que ele fez e ele calmamente me explica que é movido pela ira, e foi nisso que ele se concentrou enquanto segurava o balde... E parece que isso acelera um pouco mais o processo. Bom, porque chegaremos ao Ártico em menos de três horas.


Lancaster aparece no meu quarto, assustado. Erick diz que aparentemente consegui me conter antes de fazer alguma coisa, que o sangue em mim devia ser da espada mas o doutor discorda. Nos diz pra ir ver o porão do navio, onde a tripulação estava presa.


Chegamos lá e parecia cena de filme de terror B. Corpos retalhados por toda parte, a grade retorcida, aberta. Mas não eram cortes precisos, as partes pareciam ter sido arrancadas dos corpos, e não cortadas. E não havia marcas de sangue que indicassem que o que quer que tenha feito aquilo tenha saído dali. Acho que sei quem ou o que foi...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Novo velho ciclo começa se fechar mais uma vez


-O colar. Você vai colocá-lo no bolso do rapaz que estiver conversando comigo, lá fora.

-Não posso, tenho que entregar ele a uma pessoa.

-O contato que eu criei?

-Como assim?

-Diana Trevor não existe, Khodasevich. Nem Steve. Eu criei tudo na sua cabeça porque você é a única que poderia pegar essa pedra. Ninguém mais é capaz de tocá-la em segurança. Eu não posso tocá-la. Só você. Me desculpe, mas precisei fazer isso.


Chamo Steve pelo ponto. Ninguém responde. Ou mataram o Steve, ou ele ta falando a verdade. Olhando o reflexo no vidro e vendo a mim e não a Diana Trevor, acredito nele.


-Porque eu? Porque isso tudo?

-Como disse, só as descendentes da sua família tocam a pedra em segurança. Criei Diana Trevor baseada nas memórias de sua mãe, para que você fosse capaz de roubar a jóia.

-E pra quê quer a pedra?


Ele sorri, calmo.


-Nós precisamos dela. Num navio, daqui alguns meses...


Chambers me diz que eu vou entregar esse jóia ao rapaz, que vai entregá-la a um anjo, que por sua vez daria ao Daniel e enfim, o doutor a entregaria a mim de volta. Explica que somente a rosa pode acabar com um grande mal que vai estar num quebra gelo dali a alguns meses, que eu vou estar ali também. O navio vai estar a caminho do Ártico e eu não posso permitir que uma das pessoas a bordo chegue lá. Quando eu explico que isso já aconteceu, ele não entende. Eu digo que pra mim aquele dia já é passado, mas ele não presta muita atenção e volta a me dizer que eu saberei como usar a pedra, que ela saberia o que fazer quando encontrasse a pessoa sem alma que poderia causar um grande mal. Tento explicar que eu destruí a pedra, ele diz que talvez seja assim que ela vai agir. Acho que ele não ta me levando a sério... Me diz pra rezar e pedir pra encontrar a pedra, quando digo que existe a possibilidade de além dela estar quebrada, estar perdida também. Desisto. Ele me conta que eu não me lembraria nunca de nada disso, que me sentiria mal e iria para casa, depois que entregasse a pedra ao rapaz.


Ele me diz onde estão as minhas roupas de festa - exatamente as mesmas que eu usava naquele dia – sai e eu me troco. Saio da sala também, com a jóia na bolsa. Mais adiante, o vejo conversando com um rapaz que hoje eu reconheço, Henrique Rodriguez. Coloco o colar no bolso dele e ele percebe. O pavor logo passa quando Chambers diz algumas coisas e o rapaz parece esquecer o que houve.


Em segundos, começo a ficar tonta e tudo escurece. Abro os olhos e vejo paredes metálicas. A princípio me parece o hospital, mas logo reconheço a enfermaria do navio.


Não faço idéia de quanto tempo eu fiquei desacordada. Arranco a agulha do soro. Ainda me sinto muito mal, enjoada, corpo fraco, mas tenho que dar um jeito de recuperar a pedra.


Desço até os porões do navio. Já não fico tão feliz em ver que as pessoas estão vivas, já que uma delas pode ser quem vai nos colocar em risco. Não tão bem quanto antes, mas vivas, ao menos. Encontro apenas o cordão de ouro, mas não a pedra. A espada está bem longe de onde devia estar, e o case de couro sem a madeira de sustentação, só o couro mesmo, mole. Uso isso pra enrolar a espada, sem tocar nela. Eu não a sinto quente, mas ela está. Não que eu a tenha tocado diretamente, mas posso sentir através do couro uma temperatura normal, mesmo notando que o couro esta ate ficando marcado por ela. Vou procurar os rapazes e ver se alguém esta com as pedras, já que até onde eu me lembre, ela foi divida em duas.


Encontro Lancaster, que me diz que destruiu a pedra na caldeira do navio. Vou até a sala indicada e nem sinal da pedra dentro da caldeira. Uso um atiçador para achar algo debaixo das cinzas e nada. A pedra era resistente demais, a caldeira não seria suficiente para destruí-la. Vou atrás deles de novo. Encontro Erick e Rodriguez conversando e parecem surpresos ao me ver. Não sabem da pedra. Os dois estão feridos, Erick no pé e perna, Rodriguez nas mãos, quando tentaram tocar a espada. Vou falar com Lancaster de novo. Dessa vez ele está com Miguel. Pergunto sobre a pedra, Lancaster reafirma que foi destruída. Eu digo que não, quando Miguel o pergunta o motivo de esconder a pedra de mim. Cretino. Peço que Daniel me devolva a pedra ele se nega. Insisto e ele nega mais uma vez e pergunta por que eu a quero de volta. Quando penso em obrigá-lo a me devolver, Miguel se mete:


-Pára com isso, dá a pedra pra guria. – muito mais em tom de sugestão que de ameaça, mas vindo de quem veio não parece sensato contrariar e recebo as duas metades de volta.


Pego todas as minhas coisas no carro de Lancaster e me instalo em um dos quartos, o primeiro que eu encontro. Erick, Rodriguez e Lancaster ficam na porta já que me tranco lá dentro, perguntando o que eu vou fazer. Lancaster anda me olhando bem estranho, mas não me importo.


Com a empunhadura da espada ainda enrolada no couro, a firmo com a lâmina na vertical usando minhas pernas e o chão de apoio. Se a espada está quente assim e é um item mágico, pode ser que seu calor “solde” a pedra. Mas não... Parecem imas de pólos iguais, mas muito mais fortes. Não consigo aproximar e o atrito invisível é tão forte que chega a soltar faísca no ar. Mas eu insisto e forço. Uma pequena explosão acontece. Nada se destrói a não ser meu rosto. Fico toda queimada. Muito bom. Nem assim a pedra volta a ser uma só. Preciso pesar em outra coisa...


Erick ainda está na porta do quarto quando eu saio. Com calma, me pergunta o que está havendo. Conto a ele que alguém ali dentro vai colocar a todos nós em risco, que só a pedra teria a capacidade de impedir isso e como eu sei disso. Ele me pergunta o que houve comigo e me explica que os nexus conseguem concentrar a energia para se curar, exatamente assim, se concentrando e mandando a energia pro ferimento para que ela o cure. Ele me mostra a perna que antes estava completamente queimada, em perfeito estado. Eu tento uma vez, duas, mas só na terceira consigo algum resultado, ainda não suficiente. Erick explica que é mais fácil aprender quando nossa vida depende disso, que é normal não conseguir nas primeiras vezes e que cada vez que fazemos isso, consumimos energia que não se renova, então, o uso freqüente causa a “sede” de energia. E me sugere ir falar com Miguel sobre a pedra, sem dar a ele meus motivos.


Vou falar com Miguel. Ele me explica melhor sobre a sede e como obter mais energia, e isso não me deixa feliz. Somente em locais específicos é possível obter essa energia, e mesmo assim, esses locais têm um limite e precisam de algum tempo para de recarregarem. Fora isso, só fazendo pactos com as pessoas, pedindo a energia delas em troca do que elas quiserem. Podemos recusar o que elas pedem, mas não podemos obrigá-las a nos ajudar. Quanto à pedra, ele sugere que a deixe imersa em sangue. Sem idéia melhor, corto meu pulso e deixo o sangue correr dentro de um pequeno copo onde estão as duas metades da rosa. Tonta e com o sangue no copo já cobrindo as pedras, hora de aprender mesmo a habilidade. Fazendo pressão no corte, me concentro. Espero não falhar dessa vez.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Partes perdidas


-Khodasevich?? – diz Dr. Hewiski, no mesmo tom de voz calmo.

-Mais que nunca, doutor... – respondo o que ele quer ouvir, mas sem que ele faça idéia do que realmente a frase quer dizer...

-Que bom! – ele sorri, amigável. – Fico feliz por isso. Resolveu o problema da jóia?

-Ainda não... Mas estou prestes a isso. Preciso dormir de novo.

- Tenho que admitir que não é um tratamento convencional. Só o mantenho porque acredito que você possa encontrar sua cura. Não posso ficar ministrando sedativos em você porque pode te fazer mal. Vamos fazer o seguinte: Dessa vez, esperamos até você dormir sozinha, ok? Passe um dia relaxando, fazendo o que gosta, tente desviar a atenção um pouco desses sonhos. Então, o que quer fazer?

-Quero ver meu filho. Mas só ele. Não quero que Isaack venha. Mas por favor, não conte a ele, não quero que pense bobagens ou se magoe... – na verdade, ia ser muito estranho ter que beijar meu pai, mas prefiro não comentar esse “detalhe” com o doutor.

-Claro. Vou ligar para sua casa e digo que é parte do tratamento para que seu marido não se chateie com nada. Vou pedir que tragam o pequeno Aleksei para que você possa passar o dia com ele.

-Só mais uma coisa, doutor... Onde estamos?

-Londres.

-Mas... Eu e minha família não vivíamos na Rússia?

- Viviam. Você veio fazer um mestrado em botânica aqui, enquanto seu marido trabalha em pesquisas conjuntas dos exércitos russo e britânico.


Apenas concordo com a cabeça. Acho que acabo de condenar minha mãe a mais alguns meses aqui... Estranho nunca terem mencionado que moraram em Londres...


Saio dali, vou aos jardins. Dou voltas nele, observando as pessoas, as plantas... É uma clínica para pacientes de recursos, sem dúvida, mas ainda assim é deprimente... E não acredito no que vejo. Ou melhor, em quem vejo. Era Jonothan, encolhido, com os olhos azuis, exatamente do jeito que ele estava em 2008 quando o encontramos escondido na casa dele, num estado catatônico. Me aproximo e tento conversar, mas nada acontece, tudo igual, as mesmas reações que ele tinha antes. Ou vai ter daqui a alguns anos... Ah, é isso, tá igual. Continuo sem respostas.


Depois de um bom tempo, vejo Dr. Hewiski se aproximando. Diz que meu cunhado, Maximillian, logo trará Aleksei para mim. O que meu padrinho faz aqui também? Estranho ou não, quero muito ver meu irmão nessa idade. Tenho saudades de irmã e de mãe. Pergunto a ele sobre aquele paciente de belos olhos azuis. Ele me confirma que é Jonothan e diz ele foi achado já naquele estado numa cena de crime. Testemunhou a morte do melhor amigo e foi levado em seguida para a clinica. Diz que ele murmura algumas palavras como “frio” ou “medo”, mas não tem maiores informações para me dar pois não é medico dele. Me pergunta o porque do interesse.


-É um jovem bonito, que tem toda uma vida pela frente. Queria ajudá-lo de alguma forma. O estado dele me comove.

-Fico realmente feliz que esteja se preocupado em ajudar aos outros, Diana, mas precisa se concentrar somente em você agora. Descanse, logo seu filho estará aqui.


Vou para meu quarto, me arrumar para ver Aleksei. Resolvo relaxar num banho de banheira, pra estar melhor emocionalmente também. Depois de algum tempo, escuto alguém berrar por Diana, dentro do meu ouvido.


Quando dou por mim, estou de cabeça pra baixo, presa pela cintura a uma corda que sai da tubulação de ar vinda do teto. Reconheço a voz de Steve. Olhando ao redor, vejo obras de arte protegidas por grossos vidros e sistemas de infravermelho. E a Rosa das Emoções logo abaixo de mim, dentro de um cubo de vidro, num busto de veludo.


-DIANA!!! ACORDA!!! Aborta a missão!!! Agora!!


Noto que vem do ponto eletrônico. O meu comunicador está no meu pulso. Como eu sei disso?


-Acordei, o que houve??

-O QUE HOUVE!!?? Você desmaiou Diana!! Sai daí logo, antes que os seguranças cheguem. Você fez muito barulho quando caiu. SAI DAÍ!


Eu analiso toda a situação. Eu consigo pegar o colar em segundos e sair dali antes que cheguem a mim.


-Não, Steve! Eu consigo! – e começo a cortar o vidro, rápido, enquanto Steve continua a berrar no meu ouvido.

-Não Diana!! Não vai arriscar a missão! Sai logo daí, PORRA!


Quando ele termina a frase já estou com o colar nas mãos. Puxo a corda pra começar a subir. È quando a porta se abre. Para minha grande surpresa, não é um bando de seguranças e polícia. É Robert Chambers. Sorte ou azar? Levo minha mão à corda pra continuar a subir, mas não consigo nem ao menos tocá-la.


-Khodasevich... – ele diz, com uma calma que me irrita.

-Não. – minha mão continua não me obedecendo.

-Conheço seu rosto e sei melhor que você mesma porque você está aqui.


Olho no reflexo do vidro e não acredito. Não é Diana Trevor que vejo ali. Vejo a mim mesma, Shantel Khodasevich. Ótimo. QUE MERDA TÁ ACONTECENDO AQUI???


-Será que você podia descer pra gente conversar?

-Não. – mais uma vez tento puxar a corda, mas minhas mãos ainda não ajudam.

-No momento os seguranças nem se lembram dessa sala, mas podem se lembrar inclusive do barulho que você fez quando caiu...


Eu desço, não quero ser presa. Já basta UM processo na polícia.


-O que você quer? E porquê está aqui?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Mais de mim...


Acordei em um lugar escuro, fétido, nauseante. Aos poucos meus olhos se acostumaram e percebi que estou no esgoto. Ao meu lado, uma pistola calibre 22, pequena, feminina. Sem documentos, sem memória. Não sei de onde vim e por que estou aqui. Não sei nem mesmo meu próprio nome. Não conheço meu rosto.


Passo horas gritando por ajuda, não antes de jogar a arma na água nojenta que corria ao meu lado. Mas o que me deixou confusa foi o fato de que sabia manusear aquele revólver... O que eu seria, o que aquela arma significava? Precisava sair dali, mas não podia ser pega com aquilo.


Finalmente, alguém me escuta e me tira dali. Me leva para um hospital. Não tenho opção melhor e afinal, preciso de um bom banho... No caminho acho um espelho. Ruiva, olhos muito azuis, pele branca, corpo bonito. Mas coberta de esgoto eu perco muito do charme que pareço ter. Estamos em Londres, em março de 2008.


O bem feitor que me tirou dali vai embora, sem mais. Exames feitos, banho tomado, medicação preventiva aplicada. Só me resta agora dormir. Os médicos ainda não sabem a causa da amnésia, já que não há sinal de concussão. Provavelmente, foi o trauma de ser jogada naquele lugar.


Adormeço, ainda sem saber quem sou e bastante incomodada com o cheiro que eu ainda exalava.


O dia seguinte é menos intrigante. Um homem bem bonito vem me ver. Diz se chamar Conrad Chevalier e ser meu irmão. Me chamo Stelle Chevalier, tenho 28 anos e serei levada para casa dele assim que os médicos liberarem. Peço roupas e alguns hidratantes, shampoos e condicionadores meus, para que me sinta mais limpa, ele concorda em levá-los mais tarde. Claro, depois que peço provas de que somos irmãos. Infelizmente alguns dos meus documentos estavam dentro da bolsa que perdi, mas ele tinha algumas provas suficientes para me fazer ir com ele tão logo fosse liberada.


Nesse mesmo dia mais tarde, sou visitada por outro belo homem, dessa vez um policial russo. Estou em Londres, mas sim, era russo. Aleksei Khodasevich. Foi ele quem achou meu irmão e está procurando pistas do que houve comigo.


Liberada do hospital, hora de ir para a casa do meu irmão. Ainda é meio estranho, mas era o que eu tinha de referência...


Ele tinha um carro muito bonito, que eu não reconhecia. Parecia importado. Ele abriu a porta pra mim e com cuidado me ajudou a entrar. Depois de nos afastarmos algumas quadras do hospital, ele diz:


-Nossa... To impressionado... Quase que eu acredito nisso também...

-Heim? Como assim?

-Diana, você é boa, mas não me engana... – ele ri – Os médicos, o policial, não têm sombra de dúvida que você é mesmo uma vítima com amnésia pós traumática! Tenho que admitir, você foi brilhante!

-Diana?? Quem é Diana?

-Diana... – ele olha assustado para mim – Você não se lembra mesmo? Não é possível, você TEM que estar brincando!

-Sinto muito, mas não estou... Não me lembro de absolutamente nada... Meu nome não era Stelle?

-Ai meu deus... Agora eu quero ver... Não se lembra do que fazíamos? Do seu contato? NADA???

-Desculpe... Não, não me lembro...

-Tá, eu vou te contar... – ele responde receoso e confuso.


Começo a ficar com medo de mim mesma...


Antes de chegarmos ao flat dele, ele me conta que meu nome (ao menos o que eu usei para me apresentar a ele na primeira vez que nos vimos) é Diana Trevor, ele é Steve Evans. Me explica que somos uma dupla de bandidos e vamos roubar uma peça, uma jóia de rubi em forma de rosa, de um leilão. Isso sendo explicita. Para ele somos “especialistas, os melhores do ramo”. Me conta alguns de nossos “trabalhos” e eu não acredito que eu consiga fazer as coisas incríveis que ele me disse que eu faço. Inclusive me mover debaixo de um trem em movimento, em Los Angeles há algum tempo atrás, para desarmar uma bomba. Ainda estou muito, muito confusa. Quando fui jogada naquele lugar, havia saído para obter informações sobre a jóia e sobre o lugar onde ela estaria. Quem quer que fosse que fez aquilo comigo era muito, mas muito bom no que fazia. Era uma ameaça e eu nem sabia quem era.


Ele diz que precisamos sumir. Me diz pra limpar o lugar. Eu instintivamente sei o que ele quer dizer e o que fazer. Apago qualquer rastro de digitais e de DNA que possa haver naquele lugar, de nós dois. Encontro minha maleta de armas, com o espaço daquela que perdi no esgoto. É muita coisa... O mais curioso é que só de olhar, eu SEI como manusear cada uma delas... As conheço bem, sei qual usar em qualquer ocasião... Eu começo a acreditar em Steve.


Ele abre um fundo falso no porta malas do carro. Entre armas, celulares e disfarces, uma mala cheia de documentos de todos os tipos e nacionalidades. Para nós dois. Em cada um, uma foto caracterizada de acordo com o lugar de origem do documento. Escolhemos cidadãos americanos, em Londres a negócios. Chefe e secretária, que devem ter um caso.


Hora de trabalhar...


Antes de sair do flat nos caracterizamos para ficarmos iguais as fotos dos documentos de Audrey Miller e Edward Brown. A maquiagem é por minha conta e sim, eu tenho o dom.


Roupas de acordo com os personagens. Com um lenço, fechamos a porta e partimos para um hotel.


Como uma secretária eficiente faço nossas reservas num apartamento com duas suítes, escritório e sala conjugada num dos melhores hotéis de Londres. Meu chefe está numa reunião e eu tenho muitos papéis e relatórios a preencher, não quero ser incomodada.


O apartamento é fantástico. Enquanto Steve encontra outro meio de entrar em contato com nosso cliente, relaxo num belo banho na hidromassagem.


Pensando em tudo, me sinto cada vez mais Diana Trevor. Posso não me lembrar de nada, mas sinto isso tudo em meu sangue, correndo dentro de mim. Steve disse que fazemos isso pela adrenalina e sim, eu sinto isso. E parece ser essa chave do nosso sucesso. Acabo adormecendo.


Sonho que estou num quarto muito branco, com cheiro de hospital, usando pijamas. Olho para o lado e vejo um homem me observando, sério. Quando ele vê que acordei, diz:


-Diana?? Está conosco novamente?

-Sim... Eu acho... Onde estou?

-No hospital psiquiátrico Saint George. Sou seu médico, Dr. James Hewiski. Você teve outro surto. Me conte o que viu dessa vez, por favor.


Ele tinha uma voz suave, mas firme. Conto a ele tudo que passei desde que acordei no esgoto e ele ouve tudo atentamente. Quando acabo, ele diz:


-Então você sonhou com o futuro e com uma versão mais velha do seu filho? E claro, mais uma vez a jóia. Tudo girando em torno dela.

-Meu filho?? FUTURO?? Do que você está falando??


O doutor me olha sério. Ajeita os óculos, respira fundo e começa a falar:


-Diana, estou preocupado. Você não tem mostrado nenhum progresso quanto a essa obsessão pelo colar de rubi da sua família. Seu marido e o pequeno Aleksei anseiam por ter você em casa de novo, mas fica difícil com essa falta de avanço... Mais uma vez um devaneio onde você é uma aventureira num mundo futuro, envolvida com um bandido, atrás dessa jóia... Você se sente oprimida pela vida de casada, é isso? Queria viver algo diferente? Ter um filho e uma responsabilidade grande com apenas 22 anos deve mesmo ser difícil. Mas é tão ruim assim? Você é muito amada por eles.

-Pera, me explica? Futuro? Marido? FILHO??? Jóia de família??? Não estou entendendo nada! O que eu estou fazendo num HOSPITAL PSIQUIATRICO??

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Como eu matei vinte pessoas


Enquanto Erick corria para dentro do navio, eu trocava a espada de case. Claro, não tocava diretamente nela, sempre a deixo embrulhada num lençol. Na única vez que a toquei sem proteção, quis matar alguém com ela.

Logo alguém tão grande quanto Erick chega perto de nós, segurando roupas próprias para aquele clima. Eu já havia vestido algumas roupas limpas, minhas mesmo, por cima das que estavam sujas de sangue da espada, mas mesmo acostumada ao frio de Moscou, ali estava demais. Vesti a parca acolchoada, gigante e laranja, feliz.

Logo percebi que aquele homem do lado de fora era Miguel. Deviam estar pelo menos os três ali, Sr. Ausbury, Srta. Borlins e Miguel. Ele nos recebe do jeito peculiar de sempre:

-Não vou nem perguntar como, mas... Por quê?
-Longa historia... – responde Lancaster.

Explicamos bem por cima o que estava acontecendo e apresentamos Rodrigues a ele, mas o que ele nos conta é bem mais interessante.

Ele diz que está sozinho ali, que o resto dos poderosos da cidade estão em algum lugar na Groenlândia desenterrando algo muito velho que enterraram ali há tempos, que ele diz não saber o que é mas pretende impedir. Nas palavras dele:

-Cara, se enterraram isso na GROENLANDIA, há TANTO TEMPO, NÃO É pra ser desenterrado! Deixa essa merda LÁ, do jeito que tá!

Conta também que ele sozinho dominou todo o navio. Os que não concordaram estão presos no porão, e o capitão está lá. Os poucos que não se opuseram estão ajudando na manutenção do navio. Segundo ele, o capitão deu coordenadas de direção que não fazem sentido. Mas isso vindo que alguém que não tem a mínima noção de navegação, não é lá muito garantido. Com a permissão de Miguel, vamos tentar conversar com a tripulação e ver se conseguimos mais apoio.

Descemos até o porão, onde encontramos cerca de vinte pessoas. Além do capitão - muito machucado por sinal – encontramos umas sete pessoas que não falam inglês e estariam quase incomunicáveis. O capitão garante que vai colaborar e que já deu as coordenadas corretas. Conta inclusive que estamos nos dirigindo à uma base militar que pode não ficar feliz com o fato do navio ter sido tomado e não nos deixar aproximar, na melhor das hipóteses. Dizem que Miguel matou sete deles e os jogou no mar. Alguns ainda vivos. Conversamos e combinamos com eles que vamos lhes dar atendimento médico da melhor forma possível e vamos os alimentar melhor se nos ajudarem. Eles concordam. Pedimos que se separem de acordo com as necessidades médicas.

Pegamos as chaves com Miguel, mas antes de abrir precisamos ter certeza que não vão tentar fugir, ou Miguel nos mataria. Erick me olha e faz um gesto próximo ao pescoço dele. Eu entendo que era pra eu usar a Rosa das Emoções pra tentar controlar e garantir a ajuda da tripulação. Concordo. Digo a eles:

-Então, vocês vão nos ajudar?

A resposta não foi muito animadora. Alguns poucos responderam um “sim” bem desanimado. Não dava pra confiar ainda. Pergunto novamente, dessa vez evocando mais o poder do medalhão.

-Vocês vão nos ajudar? Podemos confiar em vocês?

Dessa vez ninguém respondeu. Achei que tinham ficado assustados com a luz vermelha que a jóia emitiu e mesmo debaixo de toda aquela roupa que eu usava, ficou visível. Pouco mais ficou. Olhei para eles a tempo de vê-los caindo, com um estranho vapor vermelho saindo de suas bocas e entrando na jóia. TODOS eles. Não... Não era possível!

Lancaster corre e abre a cela improvisada. Ele e Erick conferem um a um. Todos mortos. Todas as vinte pessoas mortas, de uma só vez, por mim. O mais estranho é que eu não conseguia sentir absolutamente nada a respeito. Remorso, medo, nada. Me era completamente indiferente. E era esse fato que me assustava.

Erick sugere que se a Rosa lhes tomou as almas, talvez, se destruída, lhes devolvesse. Concordo. Mando que subam, não posso arriscar mais ninguém. Eu vou destruir a jóia, mesmo que custe minha vida. Eles sobem. Não antes de Lancaster me olhar e dizer, arrogante como de costume, enquanto tentava ressuscitar um deles:

-Espera. Deixa eu ver se eu salvo ao menos esse, que VOCÊ matou...

Idiota! Ao menos EU me arrisco pra tentar melhorar as coisas, não fico parada olhando. Pena que ele não estava no meio dos vinte... E eu VOU consertar isso, custe o que custar.

Eles saem. Eu tiro o medalhão e coloco na porta da grade de ferro. Bato com força. O rubi nem ao menos se arranha, mas a grade entorta. Ótimo! Mais uma tentativa. Mesma coisa. Hora de mudar de método. Boa coisa com certeza não vai acontecer com o que vou fazer, mas espero que ao menos eu consiga devolver a vida a essas pessoas.

Subo em direção ao carro de Lancaster. Pego o case com a espada. Sem falar nada com ninguém, desço ao porão novamente. Os caras estão muito entretidos com Miguel, não me notam. Se for pro Miguel mata-los, que o primeiro seja o Lancaster e que seja bem lentamente...

Entro na cela, me tranco lá dentro para não correr o risco de ferir quem ainda está vivo. Tiro a espada e a toco diretamente, mas dessa vez não sinto nada. Só ouço os gritos de dor e desespero enquanto desfiro o golpe na jóia. Sim, são agradáveis. Dessa vez nem me assusto com essa sensação. Tenho algo mais importante a terminar agora. Antes de perder a consciência, consigo ver a Rosa das Emoções dividida ao meio pela Bebedora de Almas e um vapor vermelho saindo da jóia quebrada. Espero que tenha funcionado...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Fugindo do fim


Antes de sair, Rodriguez me liga no celular. Me pergunta sobre problemas ao entrar em igrejas, e eu o conto o que eu sei:

-Somos pontos concentrados de energia, almas velhas, e por isso somos “limitados” a certos costumes, símbolos ancestrais, lugares ditos como sagrados... Não vamos conseguir entrar em igrejas sem sermos convidados por alguém diretamente ligado à manutenção da fé do lugar, entre outras coisas... E me diz... Cavaleiro no sonho? Que cor?
-Verde
-Ok, você não vai dizer isso na frente de Lancaster, ok? Ele tem sonhado repetidamente que um cavaleiro verde mata a esposa dele... Ele não vai ficar feliz com isso. Certo, cavaleiro AZUL?
-C-certo... Acho que você poderá mesmo me ajudar muito, senhorita Khodasevich!
-O que eu puder fazer...

No land rover de Lancaster (ele dirigindo, claro) não tínhamos mais o problema de falta de velocidade nem o Erick ficava apertado. Jono já estava a caminho de ser cuidado em um belo hospital.

Já no pub onde combinamos, ele se aproxima. Não deve ser difícil nos encontrar, com Erick junto. Sentamos, fazemos nossos pedidos e conversamos.

O cara tava meio paranóico, mas não tiro a razão dele. Pesquisou sobre nós na internet, descobriu sobre Aleksei, e sobre mais algumas coisas que envolviam a todos nós. Eu também teria medo. Ele sabia que o presente que me foi dado era a Rosa das Emoções, ou Maçã de Eva, como ele a chamava. E nos mostrou uma rosa branca, muito mais branca que o normal, que quando eu rodei, senti um cheiro familiar e refrescante. Algo como cheiro de gelo, se isso existir. Ele recebeu essa rosa em sonho, dada por Iti, minha irmã deusa do inverno e da neve, no mesmo dia em que eu e Lancaster recebemos nossos “presentes”.

No meio da conversa e de toda a explicação sobre nexus e guerra entre os mundos, meu celular toca. Era o Henry.

-Graças!!! Como você ta, onde você ta?? To preocupada com você!!
-Tô bem, mas EU que estou preocupado com você, Shan. Vocês estão em risco. Com os poderosos de vocês sumidos, o meu povo retornou a cidade e quer vingança. Você sabe... Seu povo baniu o meu daqui e agora... Bom, o fato é que você precisa sumir. Eu to tentando conversar aqui, mas não garanto. Não quero você aqui. Vá pra um lugar onde esteja segura, fora da cidade. Rápido.

Fico sabendo que Anne está contando ao povo deles tudo sobre nós. Peço a ele pra cuidar de Baruk e Jimmy e pra arrumar uma desculpa pro Al. Aviso os meninos, convencemos Rodriguez a vir conosco pelo bem da família dele, afinal, o povo de Henry era honrado. Não usariam nossas famílias pra chegar até nós, mas não tolerariam obstáculos para nos alcançar.

Passamos na minha casa, pegamos a espada e a rosa, além de roupas e meus documentos. Acomodamos a espada num case de teclado com almofadas e lençóis para absorver o sangue que não parava de correr ali, além de um reserva porque com certeza aquele ia ser pouco pra tanto sangue.

Rodriguez ao ver aquilo tudo se desespera, achando que está no meio de um grupo de malucos e só piora quando eu tento pedir pra ele segurar a espada pra ver o que aconteceria, mas sinto vontade de usá-la. Largo a espada, por sorte, conseguindo resistir ao impulso. Claro, ele sai correndo. Tento me aproximar depois de colocar minhas coisas no carro do Lancaster, mas ele tem uma faca. Está MUITO assustado.

Saindo dali, escutamos um uivo. Acho que isso o assusta mais. Entramos todos no carro e corremos para a casa de Lancaster. Mas chegando lá, sinto um frio na espinha. Não sei o que era, mas sei que não quero me aproximar da casa dele. Na mesma hora que eu digo, Rodriguez também começa a dizer que não quer entrar lá. Lancaster para o carro a alguns metros e diz que precisa ir buscar suas coisas, sai e vai para casa a pé. Decidimos correr dali. Na verdade Erick decide por mim. Se eu não estivesse agarrada ao case, a espada teria ficado para trás quando ele me colocou sobre os ombros e começou a correr. Alguns metros depois, Lancaster vem correndo em direção a nós. Alguma coisa o assustou e ele parece não ter nem entrado em casa. Não importa, vamos todos para o carro em direção ao heliporto. Ainda bem que Lancaster vai bancar, e tem condição pra isso.

Na tentativa de alugar um helicóptero, todos saem do carro, menos eu. Não ia ser simpático uma menina com a coxa e braço tatuados, suja de sangue. TODA suja de sangue. Mas algo pesado cai sobre o teto do carro. Quando Erick tenta me tirar do carro, percebemos que era o Henry. Ele estava sujo de sangue, mas não tinha ferimentos.

-Henry!! Como você ta?? Meu Deus, ta machucado?? – digo entre abraços e beijos que nos damos, assustados ainda com tudo. Engraçado em como eu me sentia segura com ele, mesmo sabendo que o povo dele queria meu fígado assado, e não era no sentido figurado.
-Tô bem, mas se vocês querem viver, têm que ser mais rápidos que isso.
-Mas eles não vão te punir por estar nos ajudando?? – pergunto, preocupada com a segurança dele. Ninguém mais se atreve a dizer nada diretamente a nós, nesse momento.
-Não, ainda não estão atrás de vocês, diretamente. Mas vocês têm q sair daqui logo.
-Do país ou da cidade?
-Da cidade já é o suficiente.

Nos beijamos novamente, antes de eu entrar no carro com os outros, pra fora dali. Henry fica nos observando à distancia.

Até que, no meio do caminho, Lancaster e Rodriguez começam a agir como Lancaster agiu antes de “ganhar” o medalhão do anjo, como se escutassem um barulho alto demais. Rodriguez fica apontando a faca para mim, assustado, enquanto os dois conversam com algo ou alguém invisível.

Disseram que o anjo poderia no transportar para o norte, onde os iguais a nós estavam. Concordamos. Uma luz imensamente forte em nossa direção, parecia que íamos bater, mas quando nos demos conta o caro estava na proa de um grande quebra gelo, em pleno oceano. Frio demais.

A espada já não sangrava mais, e pude mudá-la para o case reserva, já que o sangue estava congelando e estava muito pesado aquele. Era hora de descobrir onde exatamente, a gente tinha ido parar...

O início do fim


Casa do Jono. Estranhamente clara, a escuridão não aprecia mais estar ali, como seria o normal. Ninguém atende. Ligo para os Manson e pergunto se tem noticias de Jono, e eles não tem há um bom tempo. Tem algo errado. Vou arrombar a porta. Chuto várias vezes, mas ela cede só um pouco, nem abre. Consigo a simpatia do senhor que mora ao lado e ele me deixa pular o muro dos fundos. Por lá eu quebro o vidro da porta daquela área e entro.

Depois de procurar pela casa, escuto algo se arrastando no andar de cima. Encontro Jono em estado de choque, dentro do armário, com os olhos completamente azuis. Apavorado, não conseguia nem falar. Ligo para o doutor Lancaster e peço que ele vá para lá. Os Manson não atendem.

Ele e Erick chegam logo, sem a Anne. Lancaster constata que Jono além de desidratado, teve o pigmento dos olhos “drenado”, mas ainda enxergava. Apesar do estado quase catatônico. Manson ainda não atendem.

Erick e eu decidimos tentar usar a espada e a placa juntas, mas Lancaster não permite, o que deixa Erick Bem nervoso. Eles brigam e já no carro, consigo convencer Lancaster a voltar e terminar o tratamento de Jono. Erick, assim como eu, vai correr para aliviar o stress.

Resolvo ir atrás dos Manson. Chegando ao carro, Erick me conta a novidade:

-Não tem mais nenhum nexus na cidade!
-COMO ASSIM?
-Não tem mais! A garota corvo, que nos observa, disse que só ta a gente na cidade! Que todos os líderes sumiram!

Eu já havia ouvido falar dessa garota. Cora. Ela se transformava num corvo. Meio bizarro, mas depois de tudo, eu tinha que ficar feliz por não brilhar no escuro. Não ainda, pelo menos... E então me dou conta:

-PQP!! OS MANSON!
-Você não vai lá sozinha.
-Mas eu preciso achar eles!
-Vamos todos.

Chamamos Lancaster, que resolve ir em casa e buscar a Anne quando fica sabendo o que estava acontecendo e onde íamos.

Ligo para Henry:

-Shan?
-Ei Henry! Tudo bem?
-Sim, e você?
-Bem... Onde você ta?
-No treino, porque?
-Porque a gente precisa do Rasga-Terra. Agora?
-Rasga-Terra? Como assim?
-Eu sei, Henry... Não precisa esconder.
-Sim, COMO você sabe é o problema.
-Longa história. Posso te esperar?
-Onde você precisa dele?

Passo o endereço. Digo pra ele não ir antes de eu avisar a ele, podia ser perigoso. Ele concorda. Peço a ele pra se cuidar. Apesar de envolvê-lo nisso, tenho medo por ele. Muito medo.

Enquanto eu e Erick vamos até a minha casa buscar a espada e o colar, Lancaster vai até a casa dele com Jono buscar Anne.

Tudo certo, nos encontramos no portão do ferro velho. Henry não está lá.

O lugar está uma bagunça. Carros espalhados, tudo fora da pouca ordem que era mantido. Porta da frente arrombada, nada de cachorros. Preocupante.

Durante as buscas pelos gêmeos, Anne me conta, discretamente, que Henry estava ali sim, mas do outro lado e diz que ali não há mais nada vivo.

Encontramos uma trilha de sangue, além de sinais de luta na casa. A trilha levava até uma pilha de carros. Quando Lancaster, Erick e Anne levantaram as ferragens, vimos uma marca de explosão, e a trilha terminava ali.

Digo para irmos embora, ali não é seguro. Todos concordam e vamos para a minha casa. Já na minha casa, Anne diz que ela iria ver se Henry precisava de ajuda. A peço para me manter informada e para dizer a ele para dar noticias assim que possível. Ela concorda e vai.

Ótimo... Uma poça de sangue no meu quarto... A espada, sangra MUITO e já está tudo ensopado e manchado de vermelho.

Durante a discussão sobre o melhor para Jono, o celular de Lancaster toca. Era um jovem chamado Henrique Rodriguez, que ligava procurando a doutora Lancaster e ouço algo sobre “castelo”. Peço para falar com o cara. Quando ele ouve uma voz feminina, já solta de uma vez, sem pensar:

-Doutora, preciso falar com você sobre meus sonhos, é urgente. Sonhei dessa vez com um castelo de pedras vinho, parecido com uma árvore, e com uma mulher que parecia a deusa do gelo e chamava Iti, que me encontrou e me levou até Ízidur, que disse que eu era o cavaleiro perdido dele. Eu não sei o que fazer, o anjo que eu ajudei ta me parecendo mais um demônio, to com medo, preciso falar com você urgente!
-Ok... Calma... Eu não sou a doutora Lancaster, mas posso te ajudar...

Depois convencê-lo de que não tínhamos seqüestrado a doutora e que poderíamos mesmo ajuda-lo, dizendo que era mesmo um anjo, Uriel, que eu era “Maria” e havia ganho um presente de Deus, ele topou nos encontrar e ficou até mais calmo. Passo meu número a ele e vou me arrumar para conhecer alguém com mais problemas que nós três juntos. Só esperar a ambulância que vai levar Jono para o hospital do Lancaster...

domingo, 11 de outubro de 2009

Pequena mudança de planos


Mais uma vez, sangue colhido. Aviso a Stuart e ele diz que vai tentar resolver.

Voltamos a falar sobre a peça que Lancaster recebeu, e que me mostraram na sala dele quando Aleksei saiu. A peça brilhava se fizéssemos ela rodar, mas somente quando Aleksei não estava perto, o que o deixou ainda mais incrédulo com tudo. Era uma placa de metal com apenas uma inscrição semelhante à da Bebedora de Alma. Não fazíamos idéia do que era aquilo.

O resultado ainda não saiu. Aleksei foi pra sala dele, está muito tenso para conversar. Erick e Lancaster vão almoçar, mas eu não quero comer. Vou correr.

Algumas voltas no quarteirão, percebo que eles terminaram de comer. Me aproximo e me sento à mesa com eles, pedindo uma água. Falamos sobre o que fazer se Stuart (que eles não sabiam quem era, pois tomei cuidado de não dizer o nome dele em nenhum dos telefonemas) não conseguisse trocar os resultados. Até que Dr. Lancaster surta (até então ele parecia alguém normal). Ele colocou as mãos nos ouvidos, como se ouvisse um som muito alto. Depois de um tempo, para e fica olhando um ponto fixo, falando com o nada. Nos olha e pergunta se estamos vendo. Estende a mão e pega algo no ar, invisível, e coloca no bolso. Mais uma vez, parece escutar algo muito alto. Para, nos olha e diz:

-Vocês viram o anjo??
-Tá maluco??? Que anjo??
-Que me deu isto aqui. Disse pra você usar, Shantel. Diz que isso ajuda a mudar a opinião dos homens.

E me entrega, simplesmente, a Rosa das Emoções, o colar de rubi lapidado em forma de rosa que eu havia visto no leilão e que havia sido ROUBADO de lá.

-Lancaster, COMO você conseguiu isso aqui? – escondo a jóia como consigo em minha mão. – Isso foi roubado da casa Holtz! E... Deveria ser destruído!

-O anjo que me disse que você é Maria acabou de me entregar e disse que se você usar enquanto conversa com seu irmão, ele muda de idéia.
-Claro, eu vou entrar com um colar roubado e uma blusa de ginástica numa DELEGACIA!
-Toma minha jaqueta...

Lancaster me empresta a jaqueta dele e enquanto a coloco, Erick esconde o colar com muita facilidade em apenas umas das mãos. O próprio Erick se inclina na minha frente para eu poder colocar o colar sem que ninguém veja. Assim, vou até meu irmão.

-Al...
-Que foi Shantel? – sem me olhar.
-Al, desculpa... Eu sei que não ando bem, mas não tinha necessidade disso...

Ele levanta o olhar para mim, e a expressão dele muda. De tensa, brava, volta à expressão do irmão amável e carinhoso.

-Você que achou que eu estava bravo e trouxe o pavê! Que, aliás, não sei por que, mas te perdôo... – ele diz sorrindo, mostrando o doce sobre a mesa.
-Ah, toda essa história da Anikka... Às vezes eu surto mesmo... Mas não precisava ter pedido exames dos meus amigos que tentam me ajudar, só porque são médicos, né?
-Exames?? È mesmo! Nossa, onde eu estava com a cabeça... Vou buscar os resultados, espera...
Eu não posso acreditar... Funcionou!! Ele volta com os resultados em mãos... É agora...
-Parabéns, maninha!! Como uma boa garota! Tudo em ordem, para todos vocês! Como recompensa, o doce é todo meu!

Rio, dou um beijo em meu irmão e saio dali. Não posso acreditar!

Aviso aos meninos que funcionou tanto o colar, quanto a troca dos resultados. Combinamos de nos encontrar em minha casa para que pudessem ver a espada, depois que eles buscassem a garota na casa do médico. Lancaster me pede de volta o colar. Não, não vou devolver. Fui eu quem criou e já que pode ser útil, que fique comigo.

-Você queria destruir o colar, agora quer ficar com ele?

Olho com o canto de olho para Erick. Me volto para Lancaster, ainda usando o colar.

-Que colar?
-Hein?? Do quê você está falando?
-Do que você deixou comigo! Não vou devolver!
-Vai devolver minha jaqueta sim! – ele responde, me olhando.

Ótimo! Erick apenas ri, enquanto eu resisto à tentação de dizer ao doutor que ele era gay e havia se apaixonado perdidamente pelo meu irmão. Mas Aleksei não ficaria feliz com isso...
-Em casa te devolvo, doutor... Quando você for ver a espada, ok?
-Acho bom!

Seguimos, cada um para seu caminho. Vou esperar os três lá, depois de ligar para Stuart.
-Acho que você está me devendo uma visita, gata!
-Claro! Passo aí hoje à noite, pra ver como você está... Você foi brilhante!
-Eu SOU brilhante! E estou precisando de uma enfermeira...
-Claro! Termino de resolver umas coisas, tomo um banho e te ligo! Brigada, gato! Salvou minha pele!
-Disponha, gata! Mas nada é de graça...
-Te pago assim que nos vermos, ok? Beijos!
-Beijo!

Saio do carro já estacionado na minha garagem. A primeira coisa a fazer é enrolar o colar num lenço, com cuidado, colocar dentro de uma fronha de travesseiro bem macia e esconder no fundo de alguma gaveta. Ótimo. Agora a maldita espada suja de sangue. COMO isso foi acontecer?

Péra!! Cadê a porcaria do sangue que tava aqui??? O lençol ficou no meu carro!

Limpo também! COMO??

Ah, já não sei de nada! Deixo a espada ali mesmo, sobre a cama, enquanto tento entender o que está acontecendo. Os caras estão demorando pra caramba! O jeito é esperar...

sábado, 3 de outubro de 2009

Simples.


Não sei se era o fato dele não se cansar (ele contou que se o irmão não cansa, ele também não cansa. Cara perfeito?) ou se ele realmente era bom naquilo. A verdade é que eu estava me divertindo muito. Mas EU não tenho uma irmã gêmea que segura minha onda e precisava dormir. Ele percebeu. A gente se divertiu mais um pouco e ele me puxa pra dormir no peito dele. E eu durmo mesmo.

Acordo no quarto de lady Ascelus novamente. Sozinha. Chamo por Zós, que prontamente atende.
-Sim, lady Ascelus.
-Voltei para cá... Ainda não entendo nada disso...
-Seu fascínio pelos humanos costuma lhe deixar assim. E esse fascínio eu não entendo.

Me levanto e me aproximo de Zós, sempre escondido nas sombras. Ele me observa.

-Eles sentem, Zós. Eles amam.
-Amor? Não faço idéia do que seja. Isso diz respeito ao deus amor.

O pego pela mão e o trago para onde as rosas o iluminam melhor. Eu poderia dizer que era Jonothan, o que faria um grande sentido. Ele se surpreende muito com meu toque, mas se assusta muito mais quando eu toco os lábios dele com os meus.

-Lady Ascelus, que sandice é essa? Não tem consciência do que acaba de fazer? Sabe-se lá o que pode ter sido criado no mundo dos homens com esse seu ato insano!

Me afasto dele, envergonhada.

-Desculpe-me, Zós! Mas é disso que eu falo! Eles podem se tocar, se beijar, se amar! Eles tem escolha. Isso que nós temos aqui não é vida!

-Não vivemos aqui, lady Ascelus. Apenas existimos. – ele diz, com o mesmo tom de voz calmo de sempre, como se eu não houvesse feito nada preocupante.
-Exato, Zós. É o fato dos humanos VIVEREM que me encanta...

Segue um silêncio. Me lembro da Rosa das Emoções, do meu contado com Chambers. A jóia do leilão foi criada por mim... Irônico, não?

-E a jóia que criei, Zós? Como estão as coisas a esse respeito?
-Resolvidas. A família do deus das memórias se responsabilizou pelo caso e já enviaram alguns capacitados para dar fim à ela.
-Ótimo. Tem alguma noção do que podemos ter criado agora?
-Não faço idéia, milady.

Me lembro do meu acordo e das conseqüências que ele poderia ter. Precisava resolver aquilo rápido, e talvez Zós soubesse como.

-Zós. Preciso ajudar Shantel. Ela fez um acordo com espíritos aranha e precisa ser liberada dele.
-Aranha? Não creio possa fazer algo diretamente, milady.
-Com quem eu falo então?
-Com o deus aranha. Mas duvido que teu pai permita que saia de vossa corte. Convide-o para um jantar.
-Como faço isso?
-Não sei sobre etiqueta entre as cortes. A minha corte é diferente da tua. Converse com tua irmã Iti. Ela está nos aposentos dela.
-Como chego lá?
-Como se chega em qualquer lugar deste castelo, milady. Desejando. Apenas deseje chegar até ela enquanto caminha.
-Obrigada! – Com um sorriso me despeço e vou ao encontro de minha irmã.

Ao me aproximar do quarto dela sinto frio. A vejo, com longos cabelos quase brancos, mesmo tom de pele de todos daquele lugar e olhos mais azuis que os meus, tocando uma belíssima harpa. Tudo em volta dela está coberto de neve. Ela sorri quando me vê e diz que eu não aparecia por lá há tempos, que meu fascínio pelos humanos me fazia fugir e com isso eu não podia tocar minha flauta com ela. Sorri quando eu digo que estava com frio e diz que eu já devia estar acostumada pois ela é o inverno, assim como eu sou a rosa.

Vou direto ao assunto e pergunto como convidar o deus aranha. Bastante pratica, ela diz que não sabe o que um deus aranha come e com isso um jantar ficaria inviável. Ela não pode ir até lá, já que aranhas não gostam de frio. Nem de fogo, como nossa irmã mais velha. Além do que, a deusa do fogo não concordava nem um pouco com minhas fugas e nunca me ajudaria por um humano. Nossa irmã mais nova ainda era muito imatura para que eu a colocasse no meio de minhas histórias com os humanos.

Legal, tenho irmãs! A melhor parte é que descubro tudo de uma vez só. E não me dou bem com uma delas... Muito bom!

Mas minha irmã me explica que para Shantel - ou melhor, eu - me livrar do acordo basta eu me sentir livre dele. Quando achar e sentir que já paguei o preço justo pelo favor que me fizeram, estou livre de cumprir o acordo, e isso não causaria nenhum mal. Como ela mesma disse:

-Se eu decido que só tenho amigos que gostem de rosas, só vou conviver com pessoas que gostem de rosas, certo? Se uma dessas pessoas deixar de gostar de rosas, eu deixo de ser amiga dela. Simples! É assim que funciona!

Agradeço e mais uma vez, tenho que explicar o porquê do meu fascínio pelos humanos. Mais uma vez não entendem. Quando comento sobre demonstração de carinho, ouço algo como “pra que isso serve? Isso é coisa do deus carinho, não precisamos disso!”.

Cada vez mais entendo o fascínio de Ascelus pelos humanos. Talvez por isso eu seja tão impulsiva. É ela querendo viver a minha vida.

Desejo e volto ao meu quarto. Preciso voltar para Shantel, na verdade. Me deito e adormeço.

Sonho?


Estava diante de um grande castelo, numa noite nebulosa. Aos poucos percebo que ele tem a forma de uma árvore de pedra, vários blocos de cor vinho dispostos em espiral. A folhagem daquela árvore eram as torres do castelo. Muitas torres, da mesma pedra vinho. E rosas. Muitas rosas, de todas as cores, se enrolavam nos portões do castelo, que se abriram para mim. Eu entro.

Num grande salão, vejo quatro pilastras cobertas por rosas. Ao fundo, um único grande trono, com um homem de pele azulada e cabelos brancos, não por idade, mas por serem brancos. Ele possui uma expressão tensa, me olhando. Do lado direito, em pé, três mulheres idênticas, com um véu na cabeça. Ela também tem pele azulada e cabelos vermelhos. Ao lado esquerdo do trono, um cavaleiro medieval de cabelos vermelhos também. Mas sua armadura era feita grandes placas de pétalas de rosas negras, e ele se apoiava numa espada larga. Todos me olhavam.

Me aproximo e reverencio o homem do trono, que se dirige à mim.

-Ascelus... Não acredito que fez novamente! Já lhe proibi de sair! Essas suas fugas me tiram do sério!

Sem entender, eu tento manter a conversa. É um sonho muito real, mas ainda um sonho...

-Perdão, senhor... Não o farei mais. Eu não me lembro de nada, não sei nem porque fugi, como me dizem...
-Acho bom que não faça mesmo! Ah... Muito tempo no mundo dos homens, é isso que acontece! Izidur, leve-a para seus aposentos e garanta que ela não fugirá de novo.

O cavaleiro se posiciona atrás de mim e espera que eu ande. Me viro para ele.

-Desculpe, mas não me lembro onde ficam meus aposentos. Poderia me guiar, por favor?

E ele me guia. Na ante sala do “meu quarto” eu vejo nove caixões de cristal, apenas um vazio.

Nos outros estou eu, adormecendo, em várias etapas diferentes da vida. Meu rosto e corpo, mas todas com o mesmo tom de pele azul e cabelos verdes. Mais velha em uns, mais nova em outros. Aponto o vazio.

-Não vou ter que entrar ali, não é?
-De forma alguma, lady Ascelus. Seus aposentos são estes. – e abre uma grande porta.

Lá dentro vejo um quarto tipicamente medieval, quase todo tomado por rosas, em todas as pilastras, paredes... Lindo... As rosas pareciam emitir luz própria... Tudo ali era feito basicamente das pedras vinho e de rosas... Um cristal enorme como espelho. Descubro que também tenho a pele azulada e longos cabelos esverdeados...

-Izidur... Eu sou Ascelus?
-Sim, milady... – ele parece surpreso com a pergunta. Ao se retirar, completa – apenas descanse...
-Sim, obrigada.

Me deito naquela enorme cama e começo a pensar no que houve. As WhiteWood agiram? Eu cheguei a falar com Jacqueline ou foi só mais uma de Chambers? Henry... Meu Deu, Henry... O que aconteceu??

E uma voz vinda das sombras me responde:
-Sabes que não foi nada disso.

Olho, e com um pouco de dificuldade vejo um homem todo vestido com roupas épicas negras, olhos e cabelos bem negros.

-Quem é você?
-Seu guardião, Lady Ascelus. Zós.
-Meu guardião?
-Sim.
-O que somos nós? Deuses?
-Não sei, milady... O que seria um deus? Alguma concepção criada pelos homens?
-Um ser superior, com capacidade de criar coisas a partir do nada...
-Seu pai, Lord Condor, se encaixaria nessa descrição. E vendo desta forma, sim, poderíamos dizer que somos deuses.
-Então me diga Zós... Se não foi nada daquilo, o que foi?
-Como lady Ascelus, você pode ordenar que sua vida humana se lembre do que aconteceu de verdade.

Me concentrei. Era como se visse dois filmes ao mesmo tempo, um sobrepondo o outro, mas muito nítidos. E descobri toda a verdade. Sem acreditar, me deitei, abatida.
-Por que, Zós?
-Lady Ascelus, não saberia explicar. Chambers é a forma humana do deus da memória, mas não o sabe. Como você é Ascelus e Shantel.
-Como vai ser agora?
-Shantel saberá diferenciar.
-Tudo bem. Você também está lá, comigo, quando sou Shantel?
-Claro, lady Ascelus. Quando lady Ascelus eu sou Zós. Quando humana, assumo alguma forma parecida para poder cuidar de ti.
-Para onde vai agora?
-Tenho que resolver um assunto importante. O simples fato do toque entre Shantel e Chambers gerou uma peça única no mundo dos homens, capaz de manipular emoçoes.
-Peça? Que peça? Só UM TOQUE?
-Sim. Para nós é assim que as coisas acontecem, milady. Esse toque gerou uma jóia de pedra, em forma de rosa. No mundo dos humanos chamam-na de "Rosa das Emoções"
-Então vá, Zós. Perdoe-me por isso.
-Não tem que pedir perdão por nada. Apenas descanse.
E assim eu fiz. Adormeci no sonho, na esperança de acordar na realidade...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O leilão



Chegamos em casa no tempo certo de eu me arrumar e ir ao leilão da srta. Borlins. Henry não ia por motivos óbvios, caberia somente a mim sorrir e fingir de boa moça. Então eu coloquei um vestido longo, vinho, justo até os quadris, onde se alargava levemente, com uma echarpe preta cobrindo os ombros. Brincos, anéis e gargantilha prateados, com os cabelos presos num coque frouxo.

Chegando lá, um manobrista pegou meu carro e eu entrei calmamente. Ganhei um catálogo das peças que seriam leiloadas.

Quadros, estatuetas, jóias... Um bracelete lindo, de prata... Wow! Que colar é esse??? Uma rosa lapidada num rubi, maravilhoso! Mas pera... Um rubi INTEIRO??? Eles lapidaram essa rosa NUM RUBI SÓ??? Lance inicial... Ok, desisto. É, isso aqui vai ser chato mesmo.

Ah, ela tá ali. Vamos acenar para a srta. Borlins ver que eu aceitei o convite dela, sorrindo... Isso... Sorte ou azar, ela tá rodeada de gente, eu não vou conseguir nunca falar com ela. Opa, leilão começando, hora de entrar na sala.

Que coisa estranha... A energia do lugar parece quase palpável, se move... Na direção daquele cara da primeira fileira. É, ele me viu olhando pra ele e sorriu pra mim... Vai começar o leilão.

Ah, que saco... Como demora... Vou mandar mensagem pro Henry. "Isso aqui tá um saco. Tô na 1 sala, são 6. Cada sala leiloa por sessão 10 peças. Tamos na 9 peça daqui, nessa sala há 40 min. Imaginou q horas chego, né? Te amo. Bjos"

Ufa! ainda bem que coloquei no silencioso. Resposta dele. "Precisa que te tirem daí? Tô indo. Tbm, bjo."

"Ñ preciso!! Pode deixar! Bjo"

"Ok. Bjo"

"Henry!! O q vc vai aprontar? Sério!"

"Sério. Nada. Bjo"

Aiaiai... Ele VAI aprontar... Pelo menos esse martírio acabou. Só faltam mais uns cinco, SE eu ficar até o final... Hora de circular e tentar cumprimentar a srta. Borlins. Quem sabe beliscar alguma coisinha do bufett, ter idéias para o cardápio do casamento...

O tal cara vindo em minha direção com duas taças de champagne... Henry, por favor, não chegue agora...

Até explicar metade desse povo já vai estar morto...

-Oi! Eu não te conheço de algum lugar? - ele diz enquanto me oferece uma das taças.
-Não sei... - pego a taça, só pra não ser rude.
-Bom, ando com a memória ruim. Se eu morasse aqui acharia que você é uma das minhas alunas. Desculpe, não me apresentei. Robert Chambers. - estende a mão para mim, que o cumprimento.
-Shantel Khodasevich. Prazer!
-Khodasevich... Não me é estranho... Você também não é daqui, certo?
-Não, sou russa. Esse sobrenome é do meu pai, Isaack Rainer Khodasevich. Engraçado porque as pessoas costumam se familiarizar com o sobrenome da minha mãe, Verkko.

E a conversa seguiu esse ritmo trivial, tranquilo... Só não comentei o fato de que achei MUITO estranho mais uma pessoa se "lembrar" do sobrenome dos meus pais. Tá cada vez mais e mais estranho... E lá vamos nós, pra outra sala. Dessa vez aquele colar perfeito vai ser leiloado. Esse eu quero ver.

O colar está lá, bem à minha frente... Muito mais bonito que na foto do catálogo, sem palavras. Sim, eu queria aquela peça...

Ei... O que é isso... Que vertigem é essa, eu nem bebi nada... Esse som ao fundo parece meu despertador. Ai, tá escurecendo tudo...

Como assim???? Meu despertador?? Meu QUARTO??? COMO ASSIM???

-Henry!!! Henry!!! Acorda!!
-Shan?? Que foi tá tudo bem?
-Como eu vim para aqui?? O que tá acontecendo?
-Como assim, você tá bem? Você foi parar aí como sempre, ué... Não tô te entendendo...
-O leilão!!! Eu tava no leilão!!
-Ah... Sonhou com ele? Mas já faz tempo.
-Tempo??? Que dia é hoje?
-17 de abril. Tá tudo bem?
-17 de abril?? COMO ASSIM?? O leilão foi dia 17 de março! Um mês! Eu perdi um mês?
-O quê? Do que você tá falando?
-Eu não me lembro de nada, Henry. NADA, desde o leilão! Eu tava lá, fiquei tonta e apareci aqui!
-Tá falando sério?

Sim, eu amo o Henry, mas às vezes ele me deixa nervosa. "não, não tô falando sério, tô fingindo todo esse desespero." Preciso saber o que eu fiz esse tempo, pra saber porque fizeram isso comigo...

EI!!! O cara do leilão! CHAMBERS! A Archa me falou dele, das memórias! Filho da *&##$%$, sem mãe. Eu MATO ele... Assim que descobrir como chegar perto dele sem esquecer até que eu existo.

Henry me disse que eu fiquei bem misteriosa, perguntando muito para o Al sobre nosso pais, e que passei bastante tempo com o Jono. Mas o Jono me disse não sabe de nada, só que eu pesquisava sobre meus pais e estava descobrindo algumas coisas. A chave disso é a minha família. Mas por quê?

MERDA! Apagaram meu histórico do computador! Só alguns dias específicos, provavelmente os dias em que obtive algum resultado por aqui. Minha agenda... Não acredito! Arrancaram as páginas! Ah, mas eu mato um!

Encontrei o Al, mas ele não me disse nada demais e ainda achou que eu tô paranóica por causa do meu casamento. Só me lembrou de algumas informaçoes que não batem sobre nosso pais, mas passam batido como pequenas confusões. A falta de fotos deles mais jovens é estranho também, mas passa. Pros outros. Pelo menos o Al me ajudou a conseguir alguém que vai recuperar o histórico do meu computador... Vou perder meu HD, mas preciso saber o que tá acontecendo.

Meu casamento é em DUAS SEMANAS!!! Pelo menos o Henry aprendeu MUITO a se controlar... O que deixou o sexo muito, muito melhor. Eu já nem fujo mais! Mas ele me disse que tem saído algumas vezes para "cuidar do território" com Amélia, com ela tem aprendido melhor a se conter e a ser quem ele realmente é.
Pelo menos pra ISSO essa porcaria que fizeram comigo serviu...
 

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