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domingo, 15 de novembro de 2009

Objetivos desconhecidos, descobertas inesperadas.


Lancaster insistia que fui eu quem havia feito aquilo, com as mãos mesmo, já que a espada me dava uma força sobrenatural, o motivo pelo qual eu cortei as dobradiças da porta daquela forma. Desiste de insistir nessa hipótese quando vê que para eu arrancar alguma parte de alguém eu precisaria usar as duas mãos, conseqüentemente, teria que largar a espada e assim me libertaria da dominação dela. Precisamos encontrar o Miguel. Eu preciso pegar a espada e a jóia. Espero que ela já esteja restaurada.

No caminho, o doutor me pergunta se eu me sinto bem, já que estou muito pálida. Digo que não e o faço me contar o que ele sabe sobre meu estado que eu não sei, já que eu notei como ele me olha desde que acordei. Ele me conta que a mulher dele tinha os mesmos sintomas que eu tinha e morreu dessa doença misteriosa. Com a diferença que ela demorou quatro semanas para chegar ao estagio que eu estava e completa dizendo que se a doença continuasse avançando com a rapidez que estava, eu tinha umas duas horas de vida. Bom... Pelo menos eu teria tempo pra salvar meu irmão. Lancaster para de andar, pensativo. Me analisa com os olhos e me diz pra eu me concentrar em curar meu sangue. Diz que antes ele não conhecia esse “lado” das coisas e acha que assim eu posso me curar mesmo que momentaneamente. Funciona. Me sinto bem melhor e eles dizem que aparentemente estou ótima. Mas a sede volta a surgir. Fraca, mas volta.

A jóia ainda está meio gelatinosa onde estava separada e já não parece uma rosa, mas vai ter que servir assim mesmo. A coloco no bolso. Com a espada enrolada no couro, vou atrás de Miguel com os rapazes.

O encontramos lutando com o capitão do navio, que há algumas horas atrás não se mantinha em pé sem apoio mas agora exibe uma agilidade e força invejáveis. Notamos que os olhos do capitão estão completamente negros. É ele quem eu tenho que deter com a pedra. Mas Daniel atira nele e o mata antes que eu faça qualquer coisa. É quando algo estranho acontece.

Da boca, olhos, nariz e ouvidos do capitão sai uma fumaça negra. Lancaster e Rodriguez saem correndo em direção aos porões onde estão os contêineres. A fumaça entra em Miguel e os olhos dele ficam negros. Erick se coloca entre mim e Miguel e é atacado.

Eu descubro apenas a lâmina da espada e a empunho na direção de Miguel, enquanto evoco o poder da jóia sem sucesso. Ele e Erick começam a brigar. Eu não entendo como o Erick consegue agüentar o Miguel, mas ele está dando conta. Acerta Miguel várias vezes, o deixando tonto. Depois de algum tempo Miguel domina a situação segurando Erick pelo pescoço. Eu evoco o poder da jóia mais uma vez, mas nada acontece. Erick luta para se libertar por alguns momentos, mas não consegue. Então escuto o pescoço dele estalar e o vejo parar de se mover. Miguel larga o corpo inerte de Erick e me olha com aqueles olhos negros. Ainda evocando a jóia e segurando a espada, tento me defender. Não quero usar a espada nele porque pode matá-lo, mas se eu usar a pedra, pode ser que ela mate apenas o que está dominando Miguel.

Ele bate com o braço na lâmina da espada e se queima muito, além de quase deslocar meu ombro já que eu não soltei a espada. Nervoso, bate o outro braço, tentando tirar a espada do caminho para me matar. Se queima de novo, tão gravemente quanto antes. Eu ainda evoco a jóia, já acreditando que ela não está em condições ainda de fazer o que ela deveria.

Nesse momento escuto tiros vindos de trás de mim, que acertam Miguel. Olho rapidamente por cima do meu ombro e vejo Lancaster com uma arma na mão, Rodriguez de olhos arregalados e Hector Hagis de expressão impassível, olhando a cena. Lancaster atira de novo e derruba Miguel. A mesma fumaça negra sai de Miguel e eu corro na direção dos três que estavam atrás de mim, na tentativa de não ser a próxima dominada por ela. Hector fecha os olhos, estende apenas os dedos na direção da fumaça e diz algo como “Retribuição”. Um raio atinge a fumaça, enfraquecendo-a. Eu paro de correr, estendo a jóia na direção da fumaça e com ela enfraquecida, o rubi faz seu trabalho. Ele emite uma luz avermelhada e a fumaça que parece ter vida, se movendo como um bicho capturado que tenta fugir é atraída para a jóia, se tornando avermelhada à medida que se aproxima até ser absorvida pela pedra, que nesse momento volta ser rígida como antes, mas que deixou de ser uma rosa.

Corremos para socorrer Erick e Miguel. Os dois estão vivos. Os acomodamos em um quarto, depois que recobram a consciência, para se recuperarem.

Explicamos ao Sr. Hagis tudo que sabemos até agora sobre estarmos ali, sobre o navio e sobre as pessoas que estão na mesma situação que ele estava. Explico a ele da outra memória em que eu o procurei e digo o motivo. Ele olha sempre com a mesma expressão altiva e inabalável, firme. Parece mesmo conhecer meus pais. Quando digo que uma das pessoas num contêiner é meu irmão, ele olha sério e nada surpreso dizendo em seguida em um tom calmo, quase entediado:

-Mais uma vez, dois Khodasevich.
-Então conhece mesmo meus pais? Eles já estiveram aqui? Bom, não aqui, mas com vocês?
-Não conheço outro casal com esse sobrenome. – ele responde, como se eu tivesse perguntado se ia chover num dia de céu carregado. Exatamente como na minha memória. Mesma personalidade.

Ele me explica em seguida que sou uma nephalin, um tipo de nexus que tem a capacidade de se lembrar de todas as vidas passadas e até de evocar habilidades delas quando necessário.

Ele diz que sabe o que estão desenterrando no Ártico. Um portal pro inferno. Cara, com a calma que ele fala parece até que estão desenterrando uma cápsula do tempo do jardim de infância de 1954. Parece que NADA é capaz de surpreendê-lo. O tipo de pessoa que tenho medo de ver realmente irritada, porque parece não sair do sério tão fácil, SE sair. Sugere que simplesmente deixemos o navio passar por cima de tudo, assim, normal. Com menos emoção ainda do que eu e o Al quando crianças, queríamos irritar um dos nossos vizinhos chatos, dizíamos: “vamos passar de bicicleta por cima daquele saco de folhas secas pra sujar todo o gramado dele de novo!”.

Ainda sem ter certeza de como impedir que desenterrem o portal, decidimos acordar a todos. Enquanto os homens saudáveis descem para adiantar o processo, vou buscar roupas quentes para meu irmão e para a mulher. Aproveito e troco as minhas por outras limpas.

Mesmo sem saber ainda se Aleksei é ou não um nexus, vamos acordá-lo. Será mais fácil mantê-lo vivo se ele estiver consciente.

Enquanto esperamos que ele acorde, Sr. Hagis me pergunta sobre a vida mais poderosa que eu me lembre. Falo um pouco sobre Ascelus. Ele me olha sério e diz:

-Então vamos ver se essa noite conseguimos trazer uma deusa à terra.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Novo velho ciclo começa se fechar mais uma vez


-O colar. Você vai colocá-lo no bolso do rapaz que estiver conversando comigo, lá fora.

-Não posso, tenho que entregar ele a uma pessoa.

-O contato que eu criei?

-Como assim?

-Diana Trevor não existe, Khodasevich. Nem Steve. Eu criei tudo na sua cabeça porque você é a única que poderia pegar essa pedra. Ninguém mais é capaz de tocá-la em segurança. Eu não posso tocá-la. Só você. Me desculpe, mas precisei fazer isso.


Chamo Steve pelo ponto. Ninguém responde. Ou mataram o Steve, ou ele ta falando a verdade. Olhando o reflexo no vidro e vendo a mim e não a Diana Trevor, acredito nele.


-Porque eu? Porque isso tudo?

-Como disse, só as descendentes da sua família tocam a pedra em segurança. Criei Diana Trevor baseada nas memórias de sua mãe, para que você fosse capaz de roubar a jóia.

-E pra quê quer a pedra?


Ele sorri, calmo.


-Nós precisamos dela. Num navio, daqui alguns meses...


Chambers me diz que eu vou entregar esse jóia ao rapaz, que vai entregá-la a um anjo, que por sua vez daria ao Daniel e enfim, o doutor a entregaria a mim de volta. Explica que somente a rosa pode acabar com um grande mal que vai estar num quebra gelo dali a alguns meses, que eu vou estar ali também. O navio vai estar a caminho do Ártico e eu não posso permitir que uma das pessoas a bordo chegue lá. Quando eu explico que isso já aconteceu, ele não entende. Eu digo que pra mim aquele dia já é passado, mas ele não presta muita atenção e volta a me dizer que eu saberei como usar a pedra, que ela saberia o que fazer quando encontrasse a pessoa sem alma que poderia causar um grande mal. Tento explicar que eu destruí a pedra, ele diz que talvez seja assim que ela vai agir. Acho que ele não ta me levando a sério... Me diz pra rezar e pedir pra encontrar a pedra, quando digo que existe a possibilidade de além dela estar quebrada, estar perdida também. Desisto. Ele me conta que eu não me lembraria nunca de nada disso, que me sentiria mal e iria para casa, depois que entregasse a pedra ao rapaz.


Ele me diz onde estão as minhas roupas de festa - exatamente as mesmas que eu usava naquele dia – sai e eu me troco. Saio da sala também, com a jóia na bolsa. Mais adiante, o vejo conversando com um rapaz que hoje eu reconheço, Henrique Rodriguez. Coloco o colar no bolso dele e ele percebe. O pavor logo passa quando Chambers diz algumas coisas e o rapaz parece esquecer o que houve.


Em segundos, começo a ficar tonta e tudo escurece. Abro os olhos e vejo paredes metálicas. A princípio me parece o hospital, mas logo reconheço a enfermaria do navio.


Não faço idéia de quanto tempo eu fiquei desacordada. Arranco a agulha do soro. Ainda me sinto muito mal, enjoada, corpo fraco, mas tenho que dar um jeito de recuperar a pedra.


Desço até os porões do navio. Já não fico tão feliz em ver que as pessoas estão vivas, já que uma delas pode ser quem vai nos colocar em risco. Não tão bem quanto antes, mas vivas, ao menos. Encontro apenas o cordão de ouro, mas não a pedra. A espada está bem longe de onde devia estar, e o case de couro sem a madeira de sustentação, só o couro mesmo, mole. Uso isso pra enrolar a espada, sem tocar nela. Eu não a sinto quente, mas ela está. Não que eu a tenha tocado diretamente, mas posso sentir através do couro uma temperatura normal, mesmo notando que o couro esta ate ficando marcado por ela. Vou procurar os rapazes e ver se alguém esta com as pedras, já que até onde eu me lembre, ela foi divida em duas.


Encontro Lancaster, que me diz que destruiu a pedra na caldeira do navio. Vou até a sala indicada e nem sinal da pedra dentro da caldeira. Uso um atiçador para achar algo debaixo das cinzas e nada. A pedra era resistente demais, a caldeira não seria suficiente para destruí-la. Vou atrás deles de novo. Encontro Erick e Rodriguez conversando e parecem surpresos ao me ver. Não sabem da pedra. Os dois estão feridos, Erick no pé e perna, Rodriguez nas mãos, quando tentaram tocar a espada. Vou falar com Lancaster de novo. Dessa vez ele está com Miguel. Pergunto sobre a pedra, Lancaster reafirma que foi destruída. Eu digo que não, quando Miguel o pergunta o motivo de esconder a pedra de mim. Cretino. Peço que Daniel me devolva a pedra ele se nega. Insisto e ele nega mais uma vez e pergunta por que eu a quero de volta. Quando penso em obrigá-lo a me devolver, Miguel se mete:


-Pára com isso, dá a pedra pra guria. – muito mais em tom de sugestão que de ameaça, mas vindo de quem veio não parece sensato contrariar e recebo as duas metades de volta.


Pego todas as minhas coisas no carro de Lancaster e me instalo em um dos quartos, o primeiro que eu encontro. Erick, Rodriguez e Lancaster ficam na porta já que me tranco lá dentro, perguntando o que eu vou fazer. Lancaster anda me olhando bem estranho, mas não me importo.


Com a empunhadura da espada ainda enrolada no couro, a firmo com a lâmina na vertical usando minhas pernas e o chão de apoio. Se a espada está quente assim e é um item mágico, pode ser que seu calor “solde” a pedra. Mas não... Parecem imas de pólos iguais, mas muito mais fortes. Não consigo aproximar e o atrito invisível é tão forte que chega a soltar faísca no ar. Mas eu insisto e forço. Uma pequena explosão acontece. Nada se destrói a não ser meu rosto. Fico toda queimada. Muito bom. Nem assim a pedra volta a ser uma só. Preciso pesar em outra coisa...


Erick ainda está na porta do quarto quando eu saio. Com calma, me pergunta o que está havendo. Conto a ele que alguém ali dentro vai colocar a todos nós em risco, que só a pedra teria a capacidade de impedir isso e como eu sei disso. Ele me pergunta o que houve comigo e me explica que os nexus conseguem concentrar a energia para se curar, exatamente assim, se concentrando e mandando a energia pro ferimento para que ela o cure. Ele me mostra a perna que antes estava completamente queimada, em perfeito estado. Eu tento uma vez, duas, mas só na terceira consigo algum resultado, ainda não suficiente. Erick explica que é mais fácil aprender quando nossa vida depende disso, que é normal não conseguir nas primeiras vezes e que cada vez que fazemos isso, consumimos energia que não se renova, então, o uso freqüente causa a “sede” de energia. E me sugere ir falar com Miguel sobre a pedra, sem dar a ele meus motivos.


Vou falar com Miguel. Ele me explica melhor sobre a sede e como obter mais energia, e isso não me deixa feliz. Somente em locais específicos é possível obter essa energia, e mesmo assim, esses locais têm um limite e precisam de algum tempo para de recarregarem. Fora isso, só fazendo pactos com as pessoas, pedindo a energia delas em troca do que elas quiserem. Podemos recusar o que elas pedem, mas não podemos obrigá-las a nos ajudar. Quanto à pedra, ele sugere que a deixe imersa em sangue. Sem idéia melhor, corto meu pulso e deixo o sangue correr dentro de um pequeno copo onde estão as duas metades da rosa. Tonta e com o sangue no copo já cobrindo as pedras, hora de aprender mesmo a habilidade. Fazendo pressão no corte, me concentro. Espero não falhar dessa vez.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Como eu matei vinte pessoas


Enquanto Erick corria para dentro do navio, eu trocava a espada de case. Claro, não tocava diretamente nela, sempre a deixo embrulhada num lençol. Na única vez que a toquei sem proteção, quis matar alguém com ela.

Logo alguém tão grande quanto Erick chega perto de nós, segurando roupas próprias para aquele clima. Eu já havia vestido algumas roupas limpas, minhas mesmo, por cima das que estavam sujas de sangue da espada, mas mesmo acostumada ao frio de Moscou, ali estava demais. Vesti a parca acolchoada, gigante e laranja, feliz.

Logo percebi que aquele homem do lado de fora era Miguel. Deviam estar pelo menos os três ali, Sr. Ausbury, Srta. Borlins e Miguel. Ele nos recebe do jeito peculiar de sempre:

-Não vou nem perguntar como, mas... Por quê?
-Longa historia... – responde Lancaster.

Explicamos bem por cima o que estava acontecendo e apresentamos Rodrigues a ele, mas o que ele nos conta é bem mais interessante.

Ele diz que está sozinho ali, que o resto dos poderosos da cidade estão em algum lugar na Groenlândia desenterrando algo muito velho que enterraram ali há tempos, que ele diz não saber o que é mas pretende impedir. Nas palavras dele:

-Cara, se enterraram isso na GROENLANDIA, há TANTO TEMPO, NÃO É pra ser desenterrado! Deixa essa merda LÁ, do jeito que tá!

Conta também que ele sozinho dominou todo o navio. Os que não concordaram estão presos no porão, e o capitão está lá. Os poucos que não se opuseram estão ajudando na manutenção do navio. Segundo ele, o capitão deu coordenadas de direção que não fazem sentido. Mas isso vindo que alguém que não tem a mínima noção de navegação, não é lá muito garantido. Com a permissão de Miguel, vamos tentar conversar com a tripulação e ver se conseguimos mais apoio.

Descemos até o porão, onde encontramos cerca de vinte pessoas. Além do capitão - muito machucado por sinal – encontramos umas sete pessoas que não falam inglês e estariam quase incomunicáveis. O capitão garante que vai colaborar e que já deu as coordenadas corretas. Conta inclusive que estamos nos dirigindo à uma base militar que pode não ficar feliz com o fato do navio ter sido tomado e não nos deixar aproximar, na melhor das hipóteses. Dizem que Miguel matou sete deles e os jogou no mar. Alguns ainda vivos. Conversamos e combinamos com eles que vamos lhes dar atendimento médico da melhor forma possível e vamos os alimentar melhor se nos ajudarem. Eles concordam. Pedimos que se separem de acordo com as necessidades médicas.

Pegamos as chaves com Miguel, mas antes de abrir precisamos ter certeza que não vão tentar fugir, ou Miguel nos mataria. Erick me olha e faz um gesto próximo ao pescoço dele. Eu entendo que era pra eu usar a Rosa das Emoções pra tentar controlar e garantir a ajuda da tripulação. Concordo. Digo a eles:

-Então, vocês vão nos ajudar?

A resposta não foi muito animadora. Alguns poucos responderam um “sim” bem desanimado. Não dava pra confiar ainda. Pergunto novamente, dessa vez evocando mais o poder do medalhão.

-Vocês vão nos ajudar? Podemos confiar em vocês?

Dessa vez ninguém respondeu. Achei que tinham ficado assustados com a luz vermelha que a jóia emitiu e mesmo debaixo de toda aquela roupa que eu usava, ficou visível. Pouco mais ficou. Olhei para eles a tempo de vê-los caindo, com um estranho vapor vermelho saindo de suas bocas e entrando na jóia. TODOS eles. Não... Não era possível!

Lancaster corre e abre a cela improvisada. Ele e Erick conferem um a um. Todos mortos. Todas as vinte pessoas mortas, de uma só vez, por mim. O mais estranho é que eu não conseguia sentir absolutamente nada a respeito. Remorso, medo, nada. Me era completamente indiferente. E era esse fato que me assustava.

Erick sugere que se a Rosa lhes tomou as almas, talvez, se destruída, lhes devolvesse. Concordo. Mando que subam, não posso arriscar mais ninguém. Eu vou destruir a jóia, mesmo que custe minha vida. Eles sobem. Não antes de Lancaster me olhar e dizer, arrogante como de costume, enquanto tentava ressuscitar um deles:

-Espera. Deixa eu ver se eu salvo ao menos esse, que VOCÊ matou...

Idiota! Ao menos EU me arrisco pra tentar melhorar as coisas, não fico parada olhando. Pena que ele não estava no meio dos vinte... E eu VOU consertar isso, custe o que custar.

Eles saem. Eu tiro o medalhão e coloco na porta da grade de ferro. Bato com força. O rubi nem ao menos se arranha, mas a grade entorta. Ótimo! Mais uma tentativa. Mesma coisa. Hora de mudar de método. Boa coisa com certeza não vai acontecer com o que vou fazer, mas espero que ao menos eu consiga devolver a vida a essas pessoas.

Subo em direção ao carro de Lancaster. Pego o case com a espada. Sem falar nada com ninguém, desço ao porão novamente. Os caras estão muito entretidos com Miguel, não me notam. Se for pro Miguel mata-los, que o primeiro seja o Lancaster e que seja bem lentamente...

Entro na cela, me tranco lá dentro para não correr o risco de ferir quem ainda está vivo. Tiro a espada e a toco diretamente, mas dessa vez não sinto nada. Só ouço os gritos de dor e desespero enquanto desfiro o golpe na jóia. Sim, são agradáveis. Dessa vez nem me assusto com essa sensação. Tenho algo mais importante a terminar agora. Antes de perder a consciência, consigo ver a Rosa das Emoções dividida ao meio pela Bebedora de Almas e um vapor vermelho saindo da jóia quebrada. Espero que tenha funcionado...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Arrumando a casa


Agora eu precisava colocar minha cabeça no lugar. Tinha que agir com calma e discretamente. Chambers queria que eu fosse até ele, senão ele simplesmente recriaria todo um mês na minha memória e eu nunca desconfiaria. Mas eu não podia fazer isso. Não agora.

Fui ao outro lado e as aranhas me ajudaram a encontrar Miguel. Contei o que houve e sutil como só ele, me sugeriu ir até o Chambers e bater nele até ele confessar, sem deixar que ele se concentre, evitando que ele me faça perder mais da minha memória. Não era bem o que eu pensava em fazer. Em último dos últimos casos, pode até servir... Não! Pára, não vou fazer isso...

Ligo pro cara que vai arrumar meu note. Ele tava numa boate, e não ia sair de lá. Disse que pagava dobrado e ele me deu o endereço. Nos encontraríamos no “escritório” dele.

Espero na porta, e ele não é lá como eu pensava. Era tanta bagunça lá dentro que eu não tinha nem onde sentar. Combinamos o preço, que ele trabalharia direto até conseguir e que nem atenderia telefonema se não fosse meu. Ele pareceu gostar do “serviço de espionagem pesada”.
Melhor assim. Era um processo químico, mas ele conseguiria salvar meus dados, só ia precisar de um HD novo, que tava incluído no preço. Preciso voltara pra casa agora.

Quando saio vejo um homem encostado no meu carro, me olhando. Devo tá muito ferrada...

-Khodasevich?
-E você quem é?
-Direta. Hector Haggis. Você me procurou há algum tempo.
-Pode até ser... Sabe, ando com a memória meio fraca. O que você quer?
-Aqui não é um bom lugar para conversarmos. Podemos ir à algum outro?

Escolho um lugar cheio, um pub ali perto. Ele vai a pé e eu de carro. Passo por ele, chego no pub, entro, e o cretino tava lá, de pé ao lado da porta, me esperando! Cara, eu tenho que rever minhas amizades... No mínimo os meus “contatos”...

Nos sentamos. E ele começa a falar muita coisa que fazia sentido.

-Você me procurou há pouco mais de duas semanas. Sabia que corria o risco de perder suas memórias, queria alguém que não estivesse no meio da guerra pra te ajudar. Um pouco mais confiável que os que estão na frente das coisas, hoje.
-O que eu te disse?
-Que sabia que seus pais tinham um segredo. As pequenas discrepâncias na historia deles, o fato de eles parecerem familiar aos antigos da cidade... Eles faziam parte da cidade há anos atrás. Desta cidade, deste grupo.
-Meus pais??? Diana Trevor Verkko e Isaack Rainer Khodasevich?
-Sim. Só conheço um casal com esses nomes. Quem mais seria?
-Mas... Então... Porque eles sempre fingem não saber de nada? Eles SABEM que isso é hereditário, porque não me ajudam?
-Porque eles não sabem... Você não está entendendo, Shantel. Eles não sabem.
-Como assim???
-Alguém não quer que a sua família se lembre quem ela é... Você de alguma forma, tem uma certa resistência à esse jogo de manipulação de memórias. Como você consegue eu não faço idéia. Mas certamente consegue.
-Eu te dei alguma pista sobre alguma coisa?
-Não a mim, e nem deixaria nada fácil demais. Se você escondeu alguma coisa, não vai encontrar nunca. Não tem algo que seja só seu?
-Sim... As coisas da minha filha...
-Você tem uma filha?
-Era pra ter... Perdi o bebê, durante um assalto.
-Não quero saber. Não precisa contar. Deve ser doloroso demais pensar nisso. Mas se acha que tem algo lá, procure. Outra coisa. Não confie em ninguém. Nem em mim. Posso nem mesmo me lembrar de você no nosso próximo encontro. Se quer aliados, busque em crianças como você.
-Eu vou. Obrigada.
-Tudo bem. Mas não sou como os dessa cidade, lembre-se disso. Para me encontrar, vá até a catedral se St. Louis e fale com quem estiver lá. Você não devia se lembrar de como fazer isso.
-Claro. Obrigada assim mesmo.

Deixamos o pub. Fui direto pra casa olhar as coisas da Anikka. De fato, havia algo lá. No álbum dela, aquele clássico que acompanha desde a gravidez até a idade escolar da criança, na idade que ela teria hoje, nove meses. Deixei anotado “está na hora de compor novas canções para você”.
Seis composições novas. Letras superficiais... Ótimo! Tenho que colocar na cabeça que detetive é o meu irmão! Não faz sentido nenhum pra mim, nada!!!

Ligo pra Marrie, tiro ela da balada pra ela me ajudar a decifrar isso aqui. Mas claro, ela está completamente bêbada, não vai me ajudar em nada! Ok, deixo ela onde ela quiser, preciso pensar com clama e ela com certeza não faria isso.

Surpresa. Na porta da boate. Vejo o Henry abraçado, caminhando com uma mulher. Paro na frente deles.

-Boa noite.
Ele me olha como se não me conhecesse. A mulher quer me matar. Ele responde, surpreso:
-Boa noite... Desculpa, a gente se conhece?

Ele esta sem aliança. Parece mesmo não me reconhecer. Peço desculpas e saio de perto. Cara, eu vou MATAR o Chambers. Ligo pro Al e pergunto se ele se lembra do meu noivo. Ele ri e pergunta se eu ainda vou me casar, se briguei com o Henry. Ele se lembra. Falo que não é nada, liguei atoa e desligo. Não antes de escutar ele me perguntando se eu to usando drogas. E ele tava falando sério.

Ao que tudo indica, foi só com o Henry. Vou falar com a Amélia. Tutora dele, ela deve saber um meio de traze-lo de volta à realidade.

Eu espero...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Que noite...


Já havia alguns dias que eu não ia sem querer para o outro lado. Estava bom demais pra ser verdade...

Durante um sonho Jonothan me manda acordar e sair dali com Henry, porque algo estava vindo atrás de nós e ele não sabia o que era. Sem discutir acordei e chamei o Henry, disse que precisava ir ao hospital, que estava passando mal. Ele se levantou na hora, pronto a me ajudar. Então eu percebi que estava do outro lado. É ate fácil perceber quando você já sabe que pode acontecer. As cores primárias somem, parece que tudo fica meio nebuloso... Além do fato de que você deixa de ver qualquer outra pessoa que esteja com você.

Ótimo. Pedi ao Henry que me ajudasse a andar pois estava tonta. Claro, ele foi solicito, embora eu não pudesse vê-lo. Nesse instante escuto um enorme estrondo do lado de fora do loft. Não podia deixar ele correr o risco. Disse a ele que ficasse ali, que eu precisava respirar e saí. Vi aquela mesma mulher atacando o homem de olhos claros. Ele já estava quase morto, com o abdômem aberto, se esvaindo em sangue. A mulher lambia suas mãos sujas do sangue do homem como um gato depois de comer algo que ele gosta. Me olhou e disse com uma voz quase gutural: “Obstáculo...”. Passou a garra no ar, e como rasgasse a realidade, uma fenda se abriu ali e ela entrou, fazendo com que aquela abertura se fechasse quase instantaneamente.

Corri até o homem, tentando ajuda-lo de alguma forma. Ele ainda estava vivo. Quando toquei nele para tentar estancar o sangue (embora não soubesse nem por onde começar) ele me disse:
-Não adianta, este hospedeiro já não me serve mais. Preciso de outro. Tentei cumprir minha missão e cuidar de você, mas ela foi mais forte. Tome cuidado com ela, ela vai fazer tudo para estragar seu destino...

-Quê??? Como assim, quem é você??? Um anjo?? MEU anjo?
Mas ele não teve tempo de me responder. Um clarão semelhante ao que eu havia visto da primeira vez que ele apareceu se formou e ele desapareceu. Ele havia me mandado de volta ao meu mundo.

A tempo de ouvir Henry gritar.

Corri para dentro de casa, e vejo aquela mulher arrancando um pedaço do braço do meu noivo numa mordida maior que a do Baruk. Sem pensar, agarro a gola da blusa de couro, o cós da calça dela e a jogo contra a parede. Henry está com uma ferida bem grande. Mando ele sair mas ele diz que não vai me deixar sozinha com aquilo. Quando ela se prepara para me atacar, Miguel aparece do nada por uma fenda como a que ela usou pra sumir antes e joga ela lá pra dentro.
-Agora é comigo, guria. Se cuida. E cuida dele. - e some por onde veio.

-Que MERDA é essa, Shan? Quem eram eles? O que que tá acontecendo aqui???
-Entra no carro, no caminho te explico. Vamos pro hospital.

No caminho conto tudo para ele. Fazer o quê, tinham enfiado ele no meio da bagunça, agora eu precisava ao menos dar uma direção a ele.

O único lugar pra onde eu poderia leva-lo sem ter que dar muitas explicações era pro hospital do doutor maluco... E pior: rezar pra que fosse ele que nos atendesse...

E fica cada vez pior...

Eu ainda não acreditava no caso dos Manson. Era impossível! Como assim? O que será que eu fazia, então? Nem Jonothan sabia. Ele dizia que apenas sentiu que eu era um deles, que todos nós sentimos e por isso resolveu me ajudar a lidar com tudo e me ensinar a aprimorar as minhas ainda desconhecidas “habilidades”. Éramos chamado de "nexos". Agora sim entendi o que a louca do hospital quis dizer. Então ela é um também. Saco...

Normalmente Jono vinha me visitar em sonho e respondia a qualquer dúvida que tivesse. Ele manipulava as sombras. Era estranho, mas parecia ser um cara legal. Me explicava sobre a terra, o céu e o inferno, que não são o sentido bíblico desses lugares. Em linhas grossas, um dia o inferno vai deixar de existir, a terra de hoje será o novo inferno, e o céu será a nova terra. Todos querem no mínimo se manter onde estão, mas há os que querem "subir" de posto, daí a gurra entre esses mundos, um tentando dominar o outro. Diz que a sucessão é natural, mas há quem queira precipitar as coisas, ou impedí-las de seguirem seu curso. Nós estaríamos do lado da terra... Mais ou menos isso.

Um belo dia estava eu arrumando minha casa quando uma janela simplesmente estoura, e um homem cai no meio da minha sala. Olhos muito azuis, e uma mulher o atacava. Ela agia como uma fera, tinha movimentos invejáveis, parecia pega impulso no ar, mas tinha garras de ossos, como se fossem as pontas dos dedos dela, algo muito bizarro e assustador. O homem parecia ter uma espécie de escudo invisível, sei lá. Sei que ela batia as garras em algo e o ar se movia em formas onduladas, como quando jogamos uma pedra num lago e formam-se algumas pequenas ondulações. Meu rotweiller, Baruk, começa a atacar o homem também, e não obedecia aos meus comandos. Foi quando a mulher de alguma forma conseguiu romper aquela barreira invisível, e cortou fundo o braço do homem. Ele me olhou e quase envergonhado me disse apenas “Corre...”. Eu nãi a sair dali. Dos olhos dele, saiu um clarão que me cegou. Quando o clarão sumiu, era como se nada tivesse acontecido. Até o Baruk estava deitado no mesmo lugar de antes, tranquilo, me olhando... Muito estranho. A janela estava inteira, a sala limpa, nem um caco de vidro, nem uma gota de sangue, nada! Aquilo parecia que simplesmente não havia acontecido...

Liguei para o Aleksei, precisava conversar com ele. Jonothan havia me dito que isso pode ser hereditário e que meu irmão podia estar passando por isso também. Ele era a melhor opção.

Marcamos num restaurante, só nós dois. Comecei a contar, ele ficou preocupado achando que eu estava alucinando. Foi quando aconteceu de novo.

A mesma mulher, desta vez apanhando e muito de um homem enorme. Ok, ela podia ser uma vadia bizarra, mas era injusto. Quando olhei não havia mais ninguém além de nós três no restaurante. Gritei pelo meu irmão várias vezes, mas não obtive resposta. A mulher apanhava muito, no chão, debaixo daquele gigante. Resolvi me meter. Mandei o cara largar ela, mas ele não se moveu. Repeti e nada. Chutei a costela dele, nada. Chutei de novo e ele sentiu. Se levantou e eu pude ter certeza dos dois metros de altura dele.

-Como você tá aqui? - disse enquanto se preparava pra me dar um soco. Só que ele simplesmente sumiu no ar! Olho à minha volta, eu estava no restaurante cheio de novo, que agora estava inteiro me olhando, meu irmão escondido atrás do cardápio. Meu Deus, que vergonha!!

-E é mais ou menos isso. Não faço muita coisa na peça... - eu disse olhando pro Al, tentando não parecer tão doida quanto estavam pensando. As pessoas se voltaram para seus pratos menos assustadas e eu voltei ao meu lugar na mesa com meu irmão, que me pediu para ir ao médico e não levou nada do que disse a sério.

Como se não bastasse, nesse mesmo dia na academia, quando entro na sala de aula cheia de alunos, alguém me agarra e me imobiliza. Pela voz, reconheci o grandão do restaurante.

-Como você faz isso? Nem os mais velhos conseguem andar assim nos dois mundos!
-Não sei, não sei como faço e nem porque faço! Na verdade, nem sei quando faço! Só noto depois! Me solta!

Mas não adiantou, ele não me soltou.

-Não quero que você tente me bater de novo, porque não quero ter que te bater, então não vou te soltar. Guria, tu não faz idéia de onde ta entrando. Não fica circulando por aqui desse jeito, vai se machucar de verdade. Se eu fosse você dava um jeito de me manter em terra firme. - e me soltou.
-Quem é você?
-Miguel.
-E como eu saio daqui?
-Se concentra, gata...

Funcionou. Meus alunos me olhavam espantados, com medo. Eu ri que nem maluca, olhando pra eles, como se tivesse brincando e saí da sala. Quando voltei eles pareciam ter acreditado na brincadeira e eu pude dar minha aula.

Foi assim que descobri que existe um mundo sob mundo, o mundo espiritual. E eu conseguia ir para lá sem o mínimo esforço, o que era bem enstranho até para quem já está dentro dele...
 

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