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sábado, 24 de outubro de 2009

Mais de mim II


Ele me olha profundamente e respira fundo. Olhando meus olhos ele retoma a palavra, com a mesma voz calma:


-Você veio para cá meses depois do nascimento de Aleksei em 1979, com um quadro de depressão pós parto profunda. Com o tempo descobrimos que a razão da depressão era uma paranóia com essa jóia passada de geração em geração somente às mulheres de sua família, mas que por algum motivo não veio para você quando devia. Está aqui há um ano e meio em tratamento pela sua segurança, segurança de seu marido, Isaack Rainer Khodasevich e de seu filho, Aleksei Verkko Khodasevich, que te amam muito e querem você de volta em casa. Já inclusive trouxemos essa jóia varias vezes para você ver, ela já é sua, mas nada nem ao menos ameniza sua obsessão. Estamos em agosto de 1981.


Ele me mostra fotos de todos. Eu sinto mesmo uma ligação com aquelas pessoas. Meu filho é um belo rapazinho de dois anos, com olhos muito azuis e cabelos negros como os do pai. Meu marido é um homem muito bonito, de olhar doce. Parecemos muito felizes nas poucas fotos que temos juntos. Sou diferente da Diana “do futuro”. Maçãs do rosto mais saltadas, mais jovem e até mais bonita, apesar de estar internada num hospital.


Eu me sinto parte daquilo tudo, daquela família, mas... Eu estava sonhando antes, então?? Era tão real...


Não, ESSE deve ser o sonho... Afinal me sinto muito ligada àquilo que vivi antes de “aparecer” aqui, à Diana “aventureira”. Não, não consigo discernir, não consigo saber quem sou! O que é sonho, o que é realidade? Meu Deus... O doutor tem razão quando diz que tenho problemas.


Ele interrompe meus pensamentos:


-Talvez, a solução para seus problemas esteja nesse seu mundo, em ter a jóia lá... Volte para lá e tente resolver dessa vez e de uma vez por todas, o problema de conseguir a jóia. Preparada?


Faço sinal de sim com a cabeça, sem dizer nada. Ele injeta algo em mim. Em segundos, durmo.


Acordo com Steve me chamando, batendo na porta do banheiro. Então, AQUELE era o sonho... Como estou feliz por isso. Por um momento, achei que estava gostando da idéia de ter um filho e marido.


Coloco um roupão e vou até Steve. Ele tem novas informações.


-Já que você esqueceu do seu operador, eu tive que entrar em contato com o meu, então vamos ter que seguir o plano dele.

-Operador?? Que operador?

-Cada agente tem um operador que acompanha a evolução do plano e dá as dicas pelo ponto eletrônico. Eu não sei quem é o seu, você não sabe quem é o meu. Como você esqueceu quem é o seu, o meu vai nos guiar dessa vez. O plano é o seguinte: O leilão é amanhã à noite. A jóia vai ser exposta entre três e quatro da manha. Temos que pega-la antes disso. Você vai entrar e fazer o serviço. Te espero do lado de fora para fugirmos. Seja rápida e discreta, como sempre. Vou estar no carro, como se fosse seu motorista, esperando a “madame” gastar o dinheiro do marido. – ele sorri.

-Eu TENHO que conseguir pegar essa jóia...

-Isso... To gostando de ver! A velha e boa Diana de volta! Você vai conseguir... É a melhor no que faz. O pagamento que vamos receber garante seu interesse e o sucesso da missão!

-Steve... Não estranha a pergunta, mas... Qual é de verdade a nossa relação?

-Negócios e sexo casual. Principalmente quando os papeis pedem. Mas em primeiro lugar, os negócios. Vai me dizer que não se lembra?

-Nunca nos envolvemos... Emocionalmente falando?

-Não... Não podemos. Às vezes é necessário que você fique com outros homens e eu com outras mulheres. Se tivéssemos um romance, iria estragar tudo e não seríamos os melhores. – sorri simples e direto. Ainda completa, com o mesmo sorriso – mas o sexo é sempre muito bom!

-Bom, se os negócios vêm em primeiro lugar, e se somos tão bons... Porque nunca tentamos nos matar e trabalhar sozinhos? Ou já tentamos?

-Somos bons porque somos uma dupla. Sabemos que sozinhos não seriamos tão eficientes. Seria o ultimo lucro verdadeiro se um matasse o outro, depois não seria tão interessante. Pra nenhum de nós.

-Tem razão. Eu acho. – respiro fundo e vou até o frigobar – Quer beber algo?


Sinto os braços dele me segurando firme por trás colando nossos corpos e a respiração no meu cabelo ainda molhado. Ele chega perto do meu ouvido e diz:


-Não. Hora de trabalhar. Srta. Miller e Sr. Brown têm um caso, esqueceu?


Enquanto me beija, suas mãos abrem meu roupão. E eu quero me entregar.


Sim, ele tinha razão. O sexo é realmente muito bom... Quando acaba, vou para meu quarto e durmo, como qualquer secretaria eficiente e discreta.


Quando acordo, estou de volta ao hospital com o Dr. Hewiski me olhando sério e me lembrando de tudo.


Tudo MESMO.


Sou Shantel de novo, e não fazia idéia disso antes. Da mesma forma como já acordei no corpo de Ascelus outras vezes, dessa vez acordei no corpo de... DIANA?? MINHA MÃE?? Péra!!! Mas e a OUTRA Diana, quem é ela?? De onde ela surgiu?? Com os mesmos nomes da minha mãe!! COMO ASSIM?? E se era a minha mãe, o médico deveria ter falado com ela em russo, não em inglês! Meus pais nunca moraram em Londres.


Estou sonhando com a minha mãe tendo um surto psicótico onde ela encontra o Aleksei adulto, mas estamos em 1981 e ele tem DOIS anos?? Pára!!! Não FAZ SENTIDO!!!


Ou será que eu sou minha mãe, Diana Khodasevich sonhando com um alter ego, Diana Trevor, atrás da jóia e com uma filha que ainda não tenho, Shantel? Faria sentido, afinal, se sou obcecada pela Rosa das Emoções e ela só é dada às mulheres da minha família, sonhar que tenho uma filha que na verdade não existe e que consegue a jóia seria esperado, até normal devido às minhas condições.


NORMAL??? Não existe NORMAL nisso tudo, NADA normal!!!


Zós me disse algo sobre lembrar de vidas passadas. Mas se for isso, como é possível três vidas ao mesmo tempo?? São vidas PASSADAS e não PRESENTES E COEXISTENTES!!! Eu ser mãe e filha, ambas VIVAS, e ainda uma terceira pessoa que desconheço? Sem falar de Ascelus que só não entra na lista porque seria de outro plano, mais fácil de explicar a coexistência.


Isso partindo do pressuposto que a “vida principal” é a de Shantel, que SOU Shantel, e as outras são “extensões” da minha alma e só estou me dando conta disso por causa do momento nebuloso no navio...


Mas isso também não faz sentido. Se fosse assim eu teria que ser Diana Khodasevich, por ser a mais velha delas, já que vivem juntas no futuro e não agora em 81, onde Shantel nem sequer foi concebida e está quatro anos longe disso.


Sim, tenho mais consciência da vida de Shantel, me sinto muito mais Shantel que qualquer outra dessas mulheres. Mas também me sinto Diana Khodasevich mãe, lutando para ficar melhor para sua família. Me sinto Diana Trevor destemida, aventureira e solitária. Me sinto a princesa Ascelus das rosas, apaixonada pelo que todos de seu mundo julgam fútil.


Sou todas elas? Apenas uma? Qual delas? Respiro fundo e me concentro. Preciso me acalmar ou nunca vou descobrir...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Meu bebê, mamãe nunca deixará de te amar...


Dia 23 de fevereiro de 2007, uma sexta feira. Tinhamos chegado da Rússia no dia anterior, onde fomos padrinhos de casamento da minha prima Tanja. Eu havia ficado na academia até tarde revendo uma papelada atrasada pela viagem. Henry estava em uma outra viagem pelo time. Era a terceira desde que começamos a morar juntos. Quando dei por mim, já passava da meia noite e eu tinha que dormir.

Estava frio, eu estava com algumas blusas grossas que escondiam ainda mais a barriga de cinco meses, que já era pouco saliente. Nesse dia a Anikka estava mais agitada que o normal.

"Calma mocinha!! Assim você vai me machucar! A mamãe já está indo pra casa e o papai chega amanhã de tarde!!", eu dizia enquanto trancava a academia. Mas ela se agitava a cada sílaba que eu pronunciava, como se soubesse o que estava por vir.

Quando me virei para ir pra casa, me deparo com um sujeito trêmulo, apontando uma arma para mim. "Anda!! Abre logo essa porra e me dá a grana!!". Eu olhava e pela primeira vez na minha vida com muito medo, sem saber como agir. Só queria sair dali bem, pela criança que eu carregava. "Calma... Vamos conversar, tá tudo bem..." eu dizia enquanto levava a mão ao bolso para pegar a chave da academia. Mas acho que ele não pensou nisso.

Só senti a coronha do revólver bater na minha testa e tudo ficou turvo. Caí no chão. Então, sinto um chute na minha barriga e uma dor horrível. Eu sabia o que aquele homem tinha acabado de fazer. Por toda a dor que ele havia me causado, por todo o ódio que eu jamais imaginei sentir de alguém, meu instinto gritou. Enfiei meus pés entre os dele, fazendo com que ele também caísse. No mesmo instante chutei a mão dele para que ele largasse a arma. Ainda no chão nós brigamos, e eu bati nele. Aprendi a resistir à dor e continuar me movendo e lutando, mesmo com ela, nesses anos de prática de sambo. Só a dor emocional por saber o que ele acabara de fazer me dominava. Por cima dele, dava socos no rosto, na cabeça, no peito, onde meu ódio permitisse. Com algum esforço consegui me levantar e continuei chutando. Ele já estava desmaiado a algum tempo, mas eu não iria parar. Foi então que eu ouvi o barulho das sirenes, senti outras mãos em mim me tirando de perto daquele monstro. Escuto os policiais falando algo sobre ambulância, que eu também precisava e mais uma vez, tudo fica turvo. Mas desta vez eu cedi e desmaiei.

Acordei no hospital com a Charlotte de olhos marejados do meu lado e meu irmão do outro, sério como eu nunca havia visto. Começo a chorar, sentindo os pontos da cirurgia que acabava de retirar o corpo de minha filha de dentro de mim. Eles diziam algo sobre o Henry, que ele estava a caminho, que meus pais estavam vindo da Rússia junto com um dos meus tios que é médico, que os pais do Henry estavam chegando... Mas eu não ouvia... Só ouvia o choro e o riso de um bebê que eu nunca conheceria...

Melhor época da minha vida!


Me lembro bem, era dia 25 de outubro e eu tava muito enjoada. Henry (agora um jogador de rúgbi bem sucedido) chegou do treino de banho tomado com aquela colônia que eu amava, mas quando ele me abraçou só deu tempo de correr pro banheiro. Charlotte e Marrie estavam lá em casa, viram a cena e começaram a rir. "Aiaiai, vamos ser tias logo!" brincavam, enquanto eu insistia que havia comido algo estragado. Mas eu sentia que não era isso...

O Henry havia acabado de me pedir em casamento, estava se mudando para a minha casa. Não podia ser. Minha família ia achar que foi tudo de caso pensado, meu irmão ia me matar! Se meu pai não matasse ele antes, por não ter tomado conta de mim... Bem capaz, eu já tinha os meus 22 anos e era completamente independente de qualquer pessoa, mas mesmo assim ainda eram minha família. E o próprio Henry me pediu pra fazer o exame de farmácia.

Na manhã do dia seguinte, enquanto ele organizava as coisas dele no loft, eu fiz o exame. " E aí, Shan??", ele perguntava de cinco em cinco minutos. E eu olhava as duas listrinhas naquela coisa do teste, e confirmava na embalagem: "duas listras: POSITIVO" Não, não... Tinha algo errado... Ou não...

Quando disse a ele a expressão dele mudou. Ele ficou pálido, me olhando. Quando eu pensava "ok, agora sim, me ferrei!" ele me abraçou. Só não apertou mais porquê teve medo de machucar o bebê. Me olhava com os olhos marejados e um sorriso bobo, dizendo "A gente vai ter um filho?? É sério?? Um bebê, meu e seu??" E então eu comecei a sorrir também e deixei de pensar no resto do mundo. Ali, naquele momento, nos braços dele, só existíamos nós três... Ele, eu e este bebê crescendo dentro de mim...

Meu irmão foi o primeiro a saber. A reação dele foi parecida com a do Henry. Palidez, olhar fixo em mim... A princípio ficou bravo, perguntando como aquilo tinha acontecido. Mas no segundo seguinte me abraçou e disse que estava muito feliz e que eu poderia contar com ele pra tudo. Que aquela criança já era mais que bem vinda... E todos os nosso amigos ficaram muito felizes logo de cara, nos dando os parabéns e discutindo nomes, padrinhos, quem daria o primeiro brinquedo, qual faculdade a criança faria...
Meus pais queriam me matar pelo telefone. "Uma vida inteira pela frente e já arruma uma responsabilidade dessas? Vcoê não sabe nem cuidar de si mesma, quanto mais de uma criança!" e coisas do tipo... Mas depois do susto, começaram a gostar da idéia de serem avós. Logo a família toda começou a mandar presentes e eu estava grávida de apenas SEIS semanas!
Lumikki acabou compondo uma canção pequena mas linda, cantada em suomi. Ela dizia que a paz poderia ser encontrada num balançar de berço, acreditando que a maternidade me faria desacelerar meu ritmo.
Começamos todos os exames, mantínhamos tudo em dia. Queríamos o melhor para o bebê. E foi num exame que descobrimos que seria uma menina! Anikka Khodasevich Thompson! Esse seria o nome dela. Os pais e a irmã do Henry já não viam a hora de poder pegá-la no colo. A sala de exame ficava sempre cheia...

Tudo estava sendo preparado com todo o amor e ansiedade para a chegada da pequena Anikka... Definitivamente, foi a melhor época da minha vida...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Alguns fatos da minha infância e adolescência...

Quando criança queria sempre ajudar a tudo e todos. Perdi as contas de quantos bichinhos levei para casa para dar comida e proteger do frio. Minha mãe brigava enquanto meu irmão tentava me ajudar e meu pai tentava convencê-la de que eu era apenas muito sensível, que logo ele levaria o animal para algum abrigo, que esperasse só um pouco para eu me sentir útil, com a “missão cumprida”. Por isso chegamos a ter sete cachorros e quinze gatos em uma determinada época. Depois meu pai realmente os levou para algum abrigo. Só tínhamos mesmo como nosso, um golden retriver marrom chamado Loop e uma gata vira latas que resistiu à implicância de minha mãe e a conquistou no dia que matou uma enorme ratazana da estufa que ela mantinha na nossa casa, a Lilly. Loop morreu pouco depois que me mudei para cá, de velhice mesmo. Lilly sumiu da nossa casa há alguns anos.

O apelido familiar de minha madrinha foi dado por mim, aos três anos de idade. Minha mãe me contava, em suomi, a história da “Branca de Neve e os Sete Anões”. Quando ouvi a descrição da protagonista, disse: “Igual à dinda Mah, mamãe!”. “Lumikki” significa “Branca de Neve” em suomi. Ela é chamada assim até hoje, por todos da família.

Foi Lumikki que me ensinou os primeiros acordes. Eu tinha apenas três anos e ela dezesseis quando percebeu meu interesse e resolveu que eu seguiria os passos dela na música. Nas minhas férias na Finlândia, na casa de uma tia da minha mãe pois minha avó já havia falecido, junto à minha madrinha comecei a estudar teclado, canto e violão. Anos depois Lumikki inicia uma banda e eu praticamente cresci ali, no meio deles. Brincava durante o ensaios e me tornei a mascote da turma. Quando a banda começou a fazer sucesso mundial, eu não acreditei! E foi dali que saiu meu primeiro namorado e noivo (ok, acho que se um dia encontrar outra pessoa, pulo a parte do noivado...), Samuli, o tecladista da banda, treze anos mais velho que eu. Ah, depois penso nisso...

A partida de Aleksei para Londres foi muito dolorosa para mim. Cheguei a ficar doente. Na época em que comecei a praticar sambo foi muito mais para ficar perto dele que por qualquer outro motivo. Só com o tempo aprendi a amar o esporte. Como eu ficava nervosa quando quebrava algum dedo e não podia tocar. E nossa, como eu já me quebrei toda nesse esporte. Ninguém acreditava que eu fosse mesmo capaz de continuar e gostar de sambo. Só o Al. E “perder” meu irmão aos doze anos não foi fácil. Mesmo sabendo que ele voltaria sempre para nos visitar, pra onde eu correria se tivesse algum pesadelo? Quem me buscaria nas festinhas, quem me ajudaria a esconder as coisas erradas que eu fazia dos meus pais (ok, essa parte podia até ficar com o meu padrinho Max, mas ele não morava na nossa casa, era mais difícil). Metade da minha base de vida foi pra Londres com meu irmão. E por mais que eu amasse meus pais, não via a hora de poder correr pra perto do Al.

Meus pais, Isaack e Diana Khodasevich e um pouco sobre minha família


Isaack Rainer Khodasevich, russo, 49 anos, casado há 31 anos (sim, 31 anos!) com Diana Trevor Verkko Khodasevich, também com 49 anos. Se conheceram durante as viagens do meu pai já pelo exército russo, na Finlândia, onde minha mãe morava com minha avó e minha tia Maarikka (que se tornou minha madrinha). Se casaram meses depois de se conhecerem, e o Al nasceu dois anos depois do casamento. Sempre foram exemplo de amor e companheirismo... Me sinto orgulhosa de ser filha deles. Apesar da minha mãe não esconder o favoritismo dela pelo Al, e meu pai deixar claro que sou, como ele mesmo diz, a "princesa" dele, nunca nos sentimos menos amados naquela casa. Eu adorava dormir no colo do meu pai e ver minha mãe trabalhar com as plantas dela.
Nunca foram relapsos na nossa educação, nunca nos mimaram. Fomos ensinados a batalhar pelos nossos desejos e fazermos por merecer nossos presentes. Já deixamos de ganhar presentes de aniversário e natal quando tiramos notas baixas na escola ou quando aprontamos alguma, já levamos bronca na rua, já levamos alguns tapas em casa quando a situação pedia.

Não tenho avós há algum tempo... Minha avó materna faleceu antes de eu nascer, no mesmo ano que meu avô paterno. Minha avó paterna faleceu há doze anos.

Mesmo sem eles, na Rússia, a família Khodasevich (isto é, os irmãos de meu pai: meu tio mais velho com sua filha e seu genro, minha tia mais nova com seu marido e filhos e meu padrinho Maximilian que é o irmão mais novo de meu pai) se reúne pelo menos duas vezes por mês, desde que me entendo por gente, apenas para conversar, celebrar os laços sanguíneos, e claro, beber vodka.

Até sinto saudade destes dias... Mas amo Londres, e não voltaria para a Rússia. Afinal, minha vida está construída aqui. Meus pais que me perdoem, sou imensamente grata a tudo, mas não volto pra casa...

Aleksei Verkko Khodasevich


Meu irmão, amigo, cúmplice, porto seguro. Desde sempre. Ele é seis anos mais velho que eu, e sempre cuidou de mim. Apesar de muito ciumento e superprotetor, sempre fiz questão de que ele fizesse parte da minha vida.

Quando eu era criança e tinha algum pesadelo, não era pra cama dos meus pais que eu corria, não eram eles que eu chamava. Era o Al. Era pra cama dele que eu corria, e dormia agarrada ao meu irmão, que mesmo sendo criança como eu, me dava toda a segurança de que eu precisava.

Brigávamos, claro, mas nunca demoramos mais de cinco minutos para resolver tudo e voltarmos a ver TV juntos.

Extremamente organizado, ficava bravo quando eu bagunçava as gavetas de meias e cuecas dele. E eu fazia isso sempre que ele saía com alguma namorada nova. Não que ele perdoasse algum namorado meu. TODOS apanharam dele. O único que conseguiu não se machucar muito e depois de um tempo conquistar a confiança e até a amizade do Al foi o Henry, já em Londres. E só deu conta porque joga rúgbi, estava acostumado com isso...

E teve até um episódio em que uma das namoradas dele apanhou de mim. Ainda na Rússia. Ele namorava a garota da minha escola, três anos mais velha que eu, quando se mudou para Londres, mantendo o namoro. E um belo dia, numa festa da escola eis que vejo a cretina escondida em um canto, aos beijos com um carinha da sala dela. Foi só eu me aproximar e o cara sumiu, deixando ela sozinha com toda a raiva que eu estava sentido. E ela ainda se sentiu no direito de me MANDAR não contar pro Aleksei. Não vi mais nada. Abri o supercílio e cortei a boca dela aos socos, das aulas de sambo que eu fazia há dez anos. E MANDEI ELA ficar calada, não contar a ninguém o que eu tinha feito, e principalmente o que ela tinha feito ao meu irmão. Acho que ela entendeu o recado. Terminou com ele sem mais explicações e sumiu das nossas vidas. Ele ficou muito mal na época, mas eu sempre o apoiei da forma que pude. Tanja tentava nos ajudar também, e era a única pessoa que sabia do ocorrido . E ele nunca soube dessa história, nem mesmo por mim.

domingo, 27 de setembro de 2009

Quem sou eu


Meu nome é Shantel Verkko Khodasevich. Tenho 23 anos e nasci em Moscou, Rússia. Meus pais são Diana Trevor Verkko Khodasevich e Isaack Rainer Khodasevich. Ela finlandesa, ele russo. Sempre criaram à mim e meu irmão mais velho, Aleksei, da melhor forma que puderam e isso diz respeito a dinheiro também. Sempre tivemos uma boa condição financeira. Minha mãe, com suas pesquisas botânicas em sua própria flora e meu pai militar, fazendo pesquisas para o exército russo, acho que algo relacionado a combustível para foguetes, mas não sei ao certo. Nunca soube, ele nunca fala muito sobre o trabalho. Crescemos em meio a uma família unida e grande. Meus padrinhos, um dos irmãos de meu pai e a única irmã de minha mãe sempre me trataram como filha, apesar de minha madrinha ter uma vida muito distante da nossa por viajar muito a trabalho com sua banda, morar ainda (mesmo que apenas para efeitos "oficiais") na Finlândia e ser apenas treze anos mais velha que eu. A minha melhor amiga era uma das minhas primas, Tanja, dois anos mais velha que eu. Aleksei, ela e eu não nos largávamos. Crescemos juntos.

Sempre fui impulsiva, quase complulsiva, desde criança. Minha avó paterna dizia que eu queria "abraçar o mundo", pois sempre tentava fazer algo para ajudar alguém ou alguma causa, mesmo que me prejudicasse e não encontrava limites para nada, não desistia e não deixava a história morrer no caminho. Por isso, seguindo os passos do sempre disciplinado Aleksei, comecei a fazer aulas de sambo aos três anos. Nesta mesma idade comecei a fazer aulas de música, por influência da minha madrinha, na tentativa de desviar minha atenção para algo que me trouxesse bem estar. Cheguei até a fazer um cursinho de maquiagem mais ou menos aos doze anos, junto com a Tanja, só porque nos interessávamos mesmo pelo assunto.

Me mudei para Londres aos dezoito anos, entre outros motivos, por não suportar a falta que meu irmão fazia em Moscou. Ele havia se mudado para cá seis anos antes para estudar. Aqui comecei a dar aulas de canto e de sambo para ajudar meu irmão no apartamento em que morávamos. Comecei as faculdades de Música e Educação Física no mesmo ano. Foi ali que conheci Henry, meu futuro noivo e sócio. Formada e com algum capital, abri uma escola de música e uma academia com o Henry. Moro sozinha em um loft ao lado das minhas escolas desde que meu irmão se casou com uma das minhas amigas da faculdade.

Com o tempo, minhas histórias serão contadas.
 

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