Ele me olha profundamente e respira fundo. Olhando meus olhos ele retoma a palavra, com a mesma voz calma:
-Você veio para cá meses depois do nascimento de Aleksei em 1979, com um quadro de depressão pós parto profunda. Com o tempo descobrimos que a razão da depressão era uma paranóia com essa jóia passada de geração em geração somente às mulheres de sua família, mas que por algum motivo não veio para você quando devia. Está aqui há um ano e meio em tratamento pela sua segurança, segurança de seu marido, Isaack Rainer Khodasevich e de seu filho, Aleksei Verkko Khodasevich, que te amam muito e querem você de volta
Ele me mostra fotos de todos. Eu sinto mesmo uma ligação com aquelas pessoas. Meu filho é um belo rapazinho de dois anos, com olhos muito azuis e cabelos negros como os do pai. Meu marido é um homem muito bonito, de olhar doce. Parecemos muito felizes nas poucas fotos que temos juntos. Sou diferente da Diana “do futuro”. Maçãs do rosto mais saltadas, mais jovem e até mais bonita, apesar de estar internada num hospital.
Eu me sinto parte daquilo tudo, daquela família, mas... Eu estava sonhando antes, então?? Era tão real...
Não, ESSE deve ser o sonho... Afinal me sinto muito ligada àquilo que vivi antes de “aparecer” aqui, à Diana “aventureira”. Não, não consigo discernir, não consigo saber quem sou! O que é sonho, o que é realidade? Meu Deus... O doutor tem razão quando diz que tenho problemas.
Ele interrompe meus pensamentos:
-Talvez, a solução para seus problemas esteja nesse seu mundo, em ter a jóia lá... Volte para lá e tente resolver dessa vez e de uma vez por todas, o problema de conseguir a jóia. Preparada?
Faço sinal de sim com a cabeça, sem dizer nada. Ele injeta algo
Acordo com Steve me chamando, batendo na porta do banheiro. Então, AQUELE era o sonho... Como estou feliz por isso. Por um momento, achei que estava gostando da idéia de ter um filho e marido.
Coloco um roupão e vou até Steve. Ele tem novas informações.
-Já que você esqueceu do seu operador, eu tive que entrar em contato com o meu, então vamos ter que seguir o plano dele.
-Operador?? Que operador?
-Cada agente tem um operador que acompanha a evolução do plano e dá as dicas pelo ponto eletrônico. Eu não sei quem é o seu, você não sabe quem é o meu. Como você esqueceu quem é o seu, o meu vai nos guiar dessa vez. O plano é o seguinte: O leilão é amanhã à noite. A jóia vai ser exposta entre três e quatro da manha. Temos que pega-la antes disso. Você vai entrar e fazer o serviço. Te espero do lado de fora para fugirmos. Seja rápida e discreta, como sempre. Vou estar no carro, como se fosse seu motorista, esperando a “madame” gastar o dinheiro do marido. – ele sorri.
-Eu TENHO que conseguir pegar essa jóia...
-Isso... To gostando de ver! A velha e boa Diana de volta! Você vai conseguir... É a melhor no que faz. O pagamento que vamos receber garante seu interesse e o sucesso da missão!
-Steve... Não estranha a pergunta, mas... Qual é de verdade a nossa relação?
-Negócios e sexo casual. Principalmente quando os papeis pedem. Mas em primeiro lugar, os negócios. Vai me dizer que não se lembra?
-Nunca nos envolvemos... Emocionalmente falando?
-Não... Não podemos. Às vezes é necessário que você fique com outros homens e eu com outras mulheres. Se tivéssemos um romance, iria estragar tudo e não seríamos os melhores. – sorri simples e direto. Ainda completa, com o mesmo sorriso – mas o sexo é sempre muito bom!
-Bom, se os negócios vêm em primeiro lugar, e se somos tão bons... Porque nunca tentamos nos matar e trabalhar sozinhos? Ou já tentamos?
-Somos bons porque somos uma dupla. Sabemos que sozinhos não seriamos tão eficientes. Seria o ultimo lucro verdadeiro se um matasse o outro, depois não seria tão interessante. Pra nenhum de nós.
-Tem razão. Eu acho. – respiro fundo e vou até o frigobar – Quer beber algo?
Sinto os braços dele me segurando firme por trás colando nossos corpos e a respiração no meu cabelo ainda molhado. Ele chega perto do meu ouvido e diz:
-Não. Hora de trabalhar. Srta. Miller e Sr. Brown têm um caso, esqueceu?
Enquanto me beija, suas mãos abrem meu roupão. E eu quero me entregar.
Sim, ele tinha razão. O sexo é realmente muito bom... Quando acaba, vou para meu quarto e durmo, como qualquer secretaria eficiente e discreta.
Quando acordo, estou de volta ao hospital com o Dr. Hewiski me olhando sério e me lembrando de tudo.
Tudo MESMO.
Sou Shantel de novo, e não fazia idéia disso antes. Da mesma forma como já acordei no corpo de Ascelus outras vezes, dessa vez acordei no corpo de... DIANA?? MINHA MÃE?? Péra!!! Mas e a OUTRA Diana, quem é ela?? De onde ela surgiu?? Com os mesmos nomes da minha mãe!! COMO ASSIM?? E se era a minha mãe, o médico deveria ter falado com ela em russo, não em inglês! Meus pais nunca moraram em Londres.
Estou sonhando com a minha mãe tendo um surto psicótico onde ela encontra o Aleksei adulto, mas estamos em 1981 e ele tem DOIS anos?? Pára!!! Não FAZ SENTIDO!!!
Ou será que eu sou minha mãe, Diana Khodasevich sonhando com um alter ego, Diana Trevor, atrás da jóia e com uma filha que ainda não tenho, Shantel? Faria sentido, afinal, se sou obcecada pela Rosa das Emoções e ela só é dada às mulheres da minha família, sonhar que tenho uma filha que na verdade não existe e que consegue a jóia seria esperado, até normal devido às minhas condições.
NORMAL??? Não existe NORMAL nisso tudo, NADA normal!!!
Zós me disse algo sobre lembrar de vidas passadas. Mas se for isso, como é possível três vidas ao mesmo tempo?? São vidas PASSADAS e não PRESENTES E COEXISTENTES!!! Eu ser mãe e filha, ambas VIVAS, e ainda uma terceira pessoa que desconheço? Sem falar de Ascelus que só não entra na lista porque seria de outro plano, mais fácil de explicar a coexistência.
Isso partindo do pressuposto que a “vida principal” é a de Shantel, que SOU Shantel, e as outras são “extensões” da minha alma e só estou me dando conta disso por causa do momento nebuloso no navio...
Mas isso também não faz sentido. Se fosse assim eu teria que ser Diana Khodasevich, por ser a mais velha delas, já que vivem juntas no futuro e não agora em 81, onde Shantel nem sequer foi concebida e está quatro anos longe disso.
Sim, tenho mais consciência da vida de Shantel, me sinto muito mais Shantel que qualquer outra dessas mulheres. Mas também me sinto Diana Khodasevich mãe, lutando para ficar melhor para sua família. Me sinto Diana Trevor destemida, aventureira e solitária. Me sinto a princesa Ascelus das rosas, apaixonada pelo que todos de seu mundo julgam fútil.
Sou todas elas? Apenas uma? Qual delas? Respiro fundo e me concentro. Preciso me acalmar ou nunca vou descobrir...












