sábado, 24 de outubro de 2009

Mais de mim II


Ele me olha profundamente e respira fundo. Olhando meus olhos ele retoma a palavra, com a mesma voz calma:


-Você veio para cá meses depois do nascimento de Aleksei em 1979, com um quadro de depressão pós parto profunda. Com o tempo descobrimos que a razão da depressão era uma paranóia com essa jóia passada de geração em geração somente às mulheres de sua família, mas que por algum motivo não veio para você quando devia. Está aqui há um ano e meio em tratamento pela sua segurança, segurança de seu marido, Isaack Rainer Khodasevich e de seu filho, Aleksei Verkko Khodasevich, que te amam muito e querem você de volta em casa. Já inclusive trouxemos essa jóia varias vezes para você ver, ela já é sua, mas nada nem ao menos ameniza sua obsessão. Estamos em agosto de 1981.


Ele me mostra fotos de todos. Eu sinto mesmo uma ligação com aquelas pessoas. Meu filho é um belo rapazinho de dois anos, com olhos muito azuis e cabelos negros como os do pai. Meu marido é um homem muito bonito, de olhar doce. Parecemos muito felizes nas poucas fotos que temos juntos. Sou diferente da Diana “do futuro”. Maçãs do rosto mais saltadas, mais jovem e até mais bonita, apesar de estar internada num hospital.


Eu me sinto parte daquilo tudo, daquela família, mas... Eu estava sonhando antes, então?? Era tão real...


Não, ESSE deve ser o sonho... Afinal me sinto muito ligada àquilo que vivi antes de “aparecer” aqui, à Diana “aventureira”. Não, não consigo discernir, não consigo saber quem sou! O que é sonho, o que é realidade? Meu Deus... O doutor tem razão quando diz que tenho problemas.


Ele interrompe meus pensamentos:


-Talvez, a solução para seus problemas esteja nesse seu mundo, em ter a jóia lá... Volte para lá e tente resolver dessa vez e de uma vez por todas, o problema de conseguir a jóia. Preparada?


Faço sinal de sim com a cabeça, sem dizer nada. Ele injeta algo em mim. Em segundos, durmo.


Acordo com Steve me chamando, batendo na porta do banheiro. Então, AQUELE era o sonho... Como estou feliz por isso. Por um momento, achei que estava gostando da idéia de ter um filho e marido.


Coloco um roupão e vou até Steve. Ele tem novas informações.


-Já que você esqueceu do seu operador, eu tive que entrar em contato com o meu, então vamos ter que seguir o plano dele.

-Operador?? Que operador?

-Cada agente tem um operador que acompanha a evolução do plano e dá as dicas pelo ponto eletrônico. Eu não sei quem é o seu, você não sabe quem é o meu. Como você esqueceu quem é o seu, o meu vai nos guiar dessa vez. O plano é o seguinte: O leilão é amanhã à noite. A jóia vai ser exposta entre três e quatro da manha. Temos que pega-la antes disso. Você vai entrar e fazer o serviço. Te espero do lado de fora para fugirmos. Seja rápida e discreta, como sempre. Vou estar no carro, como se fosse seu motorista, esperando a “madame” gastar o dinheiro do marido. – ele sorri.

-Eu TENHO que conseguir pegar essa jóia...

-Isso... To gostando de ver! A velha e boa Diana de volta! Você vai conseguir... É a melhor no que faz. O pagamento que vamos receber garante seu interesse e o sucesso da missão!

-Steve... Não estranha a pergunta, mas... Qual é de verdade a nossa relação?

-Negócios e sexo casual. Principalmente quando os papeis pedem. Mas em primeiro lugar, os negócios. Vai me dizer que não se lembra?

-Nunca nos envolvemos... Emocionalmente falando?

-Não... Não podemos. Às vezes é necessário que você fique com outros homens e eu com outras mulheres. Se tivéssemos um romance, iria estragar tudo e não seríamos os melhores. – sorri simples e direto. Ainda completa, com o mesmo sorriso – mas o sexo é sempre muito bom!

-Bom, se os negócios vêm em primeiro lugar, e se somos tão bons... Porque nunca tentamos nos matar e trabalhar sozinhos? Ou já tentamos?

-Somos bons porque somos uma dupla. Sabemos que sozinhos não seriamos tão eficientes. Seria o ultimo lucro verdadeiro se um matasse o outro, depois não seria tão interessante. Pra nenhum de nós.

-Tem razão. Eu acho. – respiro fundo e vou até o frigobar – Quer beber algo?


Sinto os braços dele me segurando firme por trás colando nossos corpos e a respiração no meu cabelo ainda molhado. Ele chega perto do meu ouvido e diz:


-Não. Hora de trabalhar. Srta. Miller e Sr. Brown têm um caso, esqueceu?


Enquanto me beija, suas mãos abrem meu roupão. E eu quero me entregar.


Sim, ele tinha razão. O sexo é realmente muito bom... Quando acaba, vou para meu quarto e durmo, como qualquer secretaria eficiente e discreta.


Quando acordo, estou de volta ao hospital com o Dr. Hewiski me olhando sério e me lembrando de tudo.


Tudo MESMO.


Sou Shantel de novo, e não fazia idéia disso antes. Da mesma forma como já acordei no corpo de Ascelus outras vezes, dessa vez acordei no corpo de... DIANA?? MINHA MÃE?? Péra!!! Mas e a OUTRA Diana, quem é ela?? De onde ela surgiu?? Com os mesmos nomes da minha mãe!! COMO ASSIM?? E se era a minha mãe, o médico deveria ter falado com ela em russo, não em inglês! Meus pais nunca moraram em Londres.


Estou sonhando com a minha mãe tendo um surto psicótico onde ela encontra o Aleksei adulto, mas estamos em 1981 e ele tem DOIS anos?? Pára!!! Não FAZ SENTIDO!!!


Ou será que eu sou minha mãe, Diana Khodasevich sonhando com um alter ego, Diana Trevor, atrás da jóia e com uma filha que ainda não tenho, Shantel? Faria sentido, afinal, se sou obcecada pela Rosa das Emoções e ela só é dada às mulheres da minha família, sonhar que tenho uma filha que na verdade não existe e que consegue a jóia seria esperado, até normal devido às minhas condições.


NORMAL??? Não existe NORMAL nisso tudo, NADA normal!!!


Zós me disse algo sobre lembrar de vidas passadas. Mas se for isso, como é possível três vidas ao mesmo tempo?? São vidas PASSADAS e não PRESENTES E COEXISTENTES!!! Eu ser mãe e filha, ambas VIVAS, e ainda uma terceira pessoa que desconheço? Sem falar de Ascelus que só não entra na lista porque seria de outro plano, mais fácil de explicar a coexistência.


Isso partindo do pressuposto que a “vida principal” é a de Shantel, que SOU Shantel, e as outras são “extensões” da minha alma e só estou me dando conta disso por causa do momento nebuloso no navio...


Mas isso também não faz sentido. Se fosse assim eu teria que ser Diana Khodasevich, por ser a mais velha delas, já que vivem juntas no futuro e não agora em 81, onde Shantel nem sequer foi concebida e está quatro anos longe disso.


Sim, tenho mais consciência da vida de Shantel, me sinto muito mais Shantel que qualquer outra dessas mulheres. Mas também me sinto Diana Khodasevich mãe, lutando para ficar melhor para sua família. Me sinto Diana Trevor destemida, aventureira e solitária. Me sinto a princesa Ascelus das rosas, apaixonada pelo que todos de seu mundo julgam fútil.


Sou todas elas? Apenas uma? Qual delas? Respiro fundo e me concentro. Preciso me acalmar ou nunca vou descobrir...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Mais de mim...


Acordei em um lugar escuro, fétido, nauseante. Aos poucos meus olhos se acostumaram e percebi que estou no esgoto. Ao meu lado, uma pistola calibre 22, pequena, feminina. Sem documentos, sem memória. Não sei de onde vim e por que estou aqui. Não sei nem mesmo meu próprio nome. Não conheço meu rosto.


Passo horas gritando por ajuda, não antes de jogar a arma na água nojenta que corria ao meu lado. Mas o que me deixou confusa foi o fato de que sabia manusear aquele revólver... O que eu seria, o que aquela arma significava? Precisava sair dali, mas não podia ser pega com aquilo.


Finalmente, alguém me escuta e me tira dali. Me leva para um hospital. Não tenho opção melhor e afinal, preciso de um bom banho... No caminho acho um espelho. Ruiva, olhos muito azuis, pele branca, corpo bonito. Mas coberta de esgoto eu perco muito do charme que pareço ter. Estamos em Londres, em março de 2008.


O bem feitor que me tirou dali vai embora, sem mais. Exames feitos, banho tomado, medicação preventiva aplicada. Só me resta agora dormir. Os médicos ainda não sabem a causa da amnésia, já que não há sinal de concussão. Provavelmente, foi o trauma de ser jogada naquele lugar.


Adormeço, ainda sem saber quem sou e bastante incomodada com o cheiro que eu ainda exalava.


O dia seguinte é menos intrigante. Um homem bem bonito vem me ver. Diz se chamar Conrad Chevalier e ser meu irmão. Me chamo Stelle Chevalier, tenho 28 anos e serei levada para casa dele assim que os médicos liberarem. Peço roupas e alguns hidratantes, shampoos e condicionadores meus, para que me sinta mais limpa, ele concorda em levá-los mais tarde. Claro, depois que peço provas de que somos irmãos. Infelizmente alguns dos meus documentos estavam dentro da bolsa que perdi, mas ele tinha algumas provas suficientes para me fazer ir com ele tão logo fosse liberada.


Nesse mesmo dia mais tarde, sou visitada por outro belo homem, dessa vez um policial russo. Estou em Londres, mas sim, era russo. Aleksei Khodasevich. Foi ele quem achou meu irmão e está procurando pistas do que houve comigo.


Liberada do hospital, hora de ir para a casa do meu irmão. Ainda é meio estranho, mas era o que eu tinha de referência...


Ele tinha um carro muito bonito, que eu não reconhecia. Parecia importado. Ele abriu a porta pra mim e com cuidado me ajudou a entrar. Depois de nos afastarmos algumas quadras do hospital, ele diz:


-Nossa... To impressionado... Quase que eu acredito nisso também...

-Heim? Como assim?

-Diana, você é boa, mas não me engana... – ele ri – Os médicos, o policial, não têm sombra de dúvida que você é mesmo uma vítima com amnésia pós traumática! Tenho que admitir, você foi brilhante!

-Diana?? Quem é Diana?

-Diana... – ele olha assustado para mim – Você não se lembra mesmo? Não é possível, você TEM que estar brincando!

-Sinto muito, mas não estou... Não me lembro de absolutamente nada... Meu nome não era Stelle?

-Ai meu deus... Agora eu quero ver... Não se lembra do que fazíamos? Do seu contato? NADA???

-Desculpe... Não, não me lembro...

-Tá, eu vou te contar... – ele responde receoso e confuso.


Começo a ficar com medo de mim mesma...


Antes de chegarmos ao flat dele, ele me conta que meu nome (ao menos o que eu usei para me apresentar a ele na primeira vez que nos vimos) é Diana Trevor, ele é Steve Evans. Me explica que somos uma dupla de bandidos e vamos roubar uma peça, uma jóia de rubi em forma de rosa, de um leilão. Isso sendo explicita. Para ele somos “especialistas, os melhores do ramo”. Me conta alguns de nossos “trabalhos” e eu não acredito que eu consiga fazer as coisas incríveis que ele me disse que eu faço. Inclusive me mover debaixo de um trem em movimento, em Los Angeles há algum tempo atrás, para desarmar uma bomba. Ainda estou muito, muito confusa. Quando fui jogada naquele lugar, havia saído para obter informações sobre a jóia e sobre o lugar onde ela estaria. Quem quer que fosse que fez aquilo comigo era muito, mas muito bom no que fazia. Era uma ameaça e eu nem sabia quem era.


Ele diz que precisamos sumir. Me diz pra limpar o lugar. Eu instintivamente sei o que ele quer dizer e o que fazer. Apago qualquer rastro de digitais e de DNA que possa haver naquele lugar, de nós dois. Encontro minha maleta de armas, com o espaço daquela que perdi no esgoto. É muita coisa... O mais curioso é que só de olhar, eu SEI como manusear cada uma delas... As conheço bem, sei qual usar em qualquer ocasião... Eu começo a acreditar em Steve.


Ele abre um fundo falso no porta malas do carro. Entre armas, celulares e disfarces, uma mala cheia de documentos de todos os tipos e nacionalidades. Para nós dois. Em cada um, uma foto caracterizada de acordo com o lugar de origem do documento. Escolhemos cidadãos americanos, em Londres a negócios. Chefe e secretária, que devem ter um caso.


Hora de trabalhar...


Antes de sair do flat nos caracterizamos para ficarmos iguais as fotos dos documentos de Audrey Miller e Edward Brown. A maquiagem é por minha conta e sim, eu tenho o dom.


Roupas de acordo com os personagens. Com um lenço, fechamos a porta e partimos para um hotel.


Como uma secretária eficiente faço nossas reservas num apartamento com duas suítes, escritório e sala conjugada num dos melhores hotéis de Londres. Meu chefe está numa reunião e eu tenho muitos papéis e relatórios a preencher, não quero ser incomodada.


O apartamento é fantástico. Enquanto Steve encontra outro meio de entrar em contato com nosso cliente, relaxo num belo banho na hidromassagem.


Pensando em tudo, me sinto cada vez mais Diana Trevor. Posso não me lembrar de nada, mas sinto isso tudo em meu sangue, correndo dentro de mim. Steve disse que fazemos isso pela adrenalina e sim, eu sinto isso. E parece ser essa chave do nosso sucesso. Acabo adormecendo.


Sonho que estou num quarto muito branco, com cheiro de hospital, usando pijamas. Olho para o lado e vejo um homem me observando, sério. Quando ele vê que acordei, diz:


-Diana?? Está conosco novamente?

-Sim... Eu acho... Onde estou?

-No hospital psiquiátrico Saint George. Sou seu médico, Dr. James Hewiski. Você teve outro surto. Me conte o que viu dessa vez, por favor.


Ele tinha uma voz suave, mas firme. Conto a ele tudo que passei desde que acordei no esgoto e ele ouve tudo atentamente. Quando acabo, ele diz:


-Então você sonhou com o futuro e com uma versão mais velha do seu filho? E claro, mais uma vez a jóia. Tudo girando em torno dela.

-Meu filho?? FUTURO?? Do que você está falando??


O doutor me olha sério. Ajeita os óculos, respira fundo e começa a falar:


-Diana, estou preocupado. Você não tem mostrado nenhum progresso quanto a essa obsessão pelo colar de rubi da sua família. Seu marido e o pequeno Aleksei anseiam por ter você em casa de novo, mas fica difícil com essa falta de avanço... Mais uma vez um devaneio onde você é uma aventureira num mundo futuro, envolvida com um bandido, atrás dessa jóia... Você se sente oprimida pela vida de casada, é isso? Queria viver algo diferente? Ter um filho e uma responsabilidade grande com apenas 22 anos deve mesmo ser difícil. Mas é tão ruim assim? Você é muito amada por eles.

-Pera, me explica? Futuro? Marido? FILHO??? Jóia de família??? Não estou entendendo nada! O que eu estou fazendo num HOSPITAL PSIQUIATRICO??

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Como eu matei vinte pessoas


Enquanto Erick corria para dentro do navio, eu trocava a espada de case. Claro, não tocava diretamente nela, sempre a deixo embrulhada num lençol. Na única vez que a toquei sem proteção, quis matar alguém com ela.

Logo alguém tão grande quanto Erick chega perto de nós, segurando roupas próprias para aquele clima. Eu já havia vestido algumas roupas limpas, minhas mesmo, por cima das que estavam sujas de sangue da espada, mas mesmo acostumada ao frio de Moscou, ali estava demais. Vesti a parca acolchoada, gigante e laranja, feliz.

Logo percebi que aquele homem do lado de fora era Miguel. Deviam estar pelo menos os três ali, Sr. Ausbury, Srta. Borlins e Miguel. Ele nos recebe do jeito peculiar de sempre:

-Não vou nem perguntar como, mas... Por quê?
-Longa historia... – responde Lancaster.

Explicamos bem por cima o que estava acontecendo e apresentamos Rodrigues a ele, mas o que ele nos conta é bem mais interessante.

Ele diz que está sozinho ali, que o resto dos poderosos da cidade estão em algum lugar na Groenlândia desenterrando algo muito velho que enterraram ali há tempos, que ele diz não saber o que é mas pretende impedir. Nas palavras dele:

-Cara, se enterraram isso na GROENLANDIA, há TANTO TEMPO, NÃO É pra ser desenterrado! Deixa essa merda LÁ, do jeito que tá!

Conta também que ele sozinho dominou todo o navio. Os que não concordaram estão presos no porão, e o capitão está lá. Os poucos que não se opuseram estão ajudando na manutenção do navio. Segundo ele, o capitão deu coordenadas de direção que não fazem sentido. Mas isso vindo que alguém que não tem a mínima noção de navegação, não é lá muito garantido. Com a permissão de Miguel, vamos tentar conversar com a tripulação e ver se conseguimos mais apoio.

Descemos até o porão, onde encontramos cerca de vinte pessoas. Além do capitão - muito machucado por sinal – encontramos umas sete pessoas que não falam inglês e estariam quase incomunicáveis. O capitão garante que vai colaborar e que já deu as coordenadas corretas. Conta inclusive que estamos nos dirigindo à uma base militar que pode não ficar feliz com o fato do navio ter sido tomado e não nos deixar aproximar, na melhor das hipóteses. Dizem que Miguel matou sete deles e os jogou no mar. Alguns ainda vivos. Conversamos e combinamos com eles que vamos lhes dar atendimento médico da melhor forma possível e vamos os alimentar melhor se nos ajudarem. Eles concordam. Pedimos que se separem de acordo com as necessidades médicas.

Pegamos as chaves com Miguel, mas antes de abrir precisamos ter certeza que não vão tentar fugir, ou Miguel nos mataria. Erick me olha e faz um gesto próximo ao pescoço dele. Eu entendo que era pra eu usar a Rosa das Emoções pra tentar controlar e garantir a ajuda da tripulação. Concordo. Digo a eles:

-Então, vocês vão nos ajudar?

A resposta não foi muito animadora. Alguns poucos responderam um “sim” bem desanimado. Não dava pra confiar ainda. Pergunto novamente, dessa vez evocando mais o poder do medalhão.

-Vocês vão nos ajudar? Podemos confiar em vocês?

Dessa vez ninguém respondeu. Achei que tinham ficado assustados com a luz vermelha que a jóia emitiu e mesmo debaixo de toda aquela roupa que eu usava, ficou visível. Pouco mais ficou. Olhei para eles a tempo de vê-los caindo, com um estranho vapor vermelho saindo de suas bocas e entrando na jóia. TODOS eles. Não... Não era possível!

Lancaster corre e abre a cela improvisada. Ele e Erick conferem um a um. Todos mortos. Todas as vinte pessoas mortas, de uma só vez, por mim. O mais estranho é que eu não conseguia sentir absolutamente nada a respeito. Remorso, medo, nada. Me era completamente indiferente. E era esse fato que me assustava.

Erick sugere que se a Rosa lhes tomou as almas, talvez, se destruída, lhes devolvesse. Concordo. Mando que subam, não posso arriscar mais ninguém. Eu vou destruir a jóia, mesmo que custe minha vida. Eles sobem. Não antes de Lancaster me olhar e dizer, arrogante como de costume, enquanto tentava ressuscitar um deles:

-Espera. Deixa eu ver se eu salvo ao menos esse, que VOCÊ matou...

Idiota! Ao menos EU me arrisco pra tentar melhorar as coisas, não fico parada olhando. Pena que ele não estava no meio dos vinte... E eu VOU consertar isso, custe o que custar.

Eles saem. Eu tiro o medalhão e coloco na porta da grade de ferro. Bato com força. O rubi nem ao menos se arranha, mas a grade entorta. Ótimo! Mais uma tentativa. Mesma coisa. Hora de mudar de método. Boa coisa com certeza não vai acontecer com o que vou fazer, mas espero que ao menos eu consiga devolver a vida a essas pessoas.

Subo em direção ao carro de Lancaster. Pego o case com a espada. Sem falar nada com ninguém, desço ao porão novamente. Os caras estão muito entretidos com Miguel, não me notam. Se for pro Miguel mata-los, que o primeiro seja o Lancaster e que seja bem lentamente...

Entro na cela, me tranco lá dentro para não correr o risco de ferir quem ainda está vivo. Tiro a espada e a toco diretamente, mas dessa vez não sinto nada. Só ouço os gritos de dor e desespero enquanto desfiro o golpe na jóia. Sim, são agradáveis. Dessa vez nem me assusto com essa sensação. Tenho algo mais importante a terminar agora. Antes de perder a consciência, consigo ver a Rosa das Emoções dividida ao meio pela Bebedora de Almas e um vapor vermelho saindo da jóia quebrada. Espero que tenha funcionado...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Fugindo do fim


Antes de sair, Rodriguez me liga no celular. Me pergunta sobre problemas ao entrar em igrejas, e eu o conto o que eu sei:

-Somos pontos concentrados de energia, almas velhas, e por isso somos “limitados” a certos costumes, símbolos ancestrais, lugares ditos como sagrados... Não vamos conseguir entrar em igrejas sem sermos convidados por alguém diretamente ligado à manutenção da fé do lugar, entre outras coisas... E me diz... Cavaleiro no sonho? Que cor?
-Verde
-Ok, você não vai dizer isso na frente de Lancaster, ok? Ele tem sonhado repetidamente que um cavaleiro verde mata a esposa dele... Ele não vai ficar feliz com isso. Certo, cavaleiro AZUL?
-C-certo... Acho que você poderá mesmo me ajudar muito, senhorita Khodasevich!
-O que eu puder fazer...

No land rover de Lancaster (ele dirigindo, claro) não tínhamos mais o problema de falta de velocidade nem o Erick ficava apertado. Jono já estava a caminho de ser cuidado em um belo hospital.

Já no pub onde combinamos, ele se aproxima. Não deve ser difícil nos encontrar, com Erick junto. Sentamos, fazemos nossos pedidos e conversamos.

O cara tava meio paranóico, mas não tiro a razão dele. Pesquisou sobre nós na internet, descobriu sobre Aleksei, e sobre mais algumas coisas que envolviam a todos nós. Eu também teria medo. Ele sabia que o presente que me foi dado era a Rosa das Emoções, ou Maçã de Eva, como ele a chamava. E nos mostrou uma rosa branca, muito mais branca que o normal, que quando eu rodei, senti um cheiro familiar e refrescante. Algo como cheiro de gelo, se isso existir. Ele recebeu essa rosa em sonho, dada por Iti, minha irmã deusa do inverno e da neve, no mesmo dia em que eu e Lancaster recebemos nossos “presentes”.

No meio da conversa e de toda a explicação sobre nexus e guerra entre os mundos, meu celular toca. Era o Henry.

-Graças!!! Como você ta, onde você ta?? To preocupada com você!!
-Tô bem, mas EU que estou preocupado com você, Shan. Vocês estão em risco. Com os poderosos de vocês sumidos, o meu povo retornou a cidade e quer vingança. Você sabe... Seu povo baniu o meu daqui e agora... Bom, o fato é que você precisa sumir. Eu to tentando conversar aqui, mas não garanto. Não quero você aqui. Vá pra um lugar onde esteja segura, fora da cidade. Rápido.

Fico sabendo que Anne está contando ao povo deles tudo sobre nós. Peço a ele pra cuidar de Baruk e Jimmy e pra arrumar uma desculpa pro Al. Aviso os meninos, convencemos Rodriguez a vir conosco pelo bem da família dele, afinal, o povo de Henry era honrado. Não usariam nossas famílias pra chegar até nós, mas não tolerariam obstáculos para nos alcançar.

Passamos na minha casa, pegamos a espada e a rosa, além de roupas e meus documentos. Acomodamos a espada num case de teclado com almofadas e lençóis para absorver o sangue que não parava de correr ali, além de um reserva porque com certeza aquele ia ser pouco pra tanto sangue.

Rodriguez ao ver aquilo tudo se desespera, achando que está no meio de um grupo de malucos e só piora quando eu tento pedir pra ele segurar a espada pra ver o que aconteceria, mas sinto vontade de usá-la. Largo a espada, por sorte, conseguindo resistir ao impulso. Claro, ele sai correndo. Tento me aproximar depois de colocar minhas coisas no carro do Lancaster, mas ele tem uma faca. Está MUITO assustado.

Saindo dali, escutamos um uivo. Acho que isso o assusta mais. Entramos todos no carro e corremos para a casa de Lancaster. Mas chegando lá, sinto um frio na espinha. Não sei o que era, mas sei que não quero me aproximar da casa dele. Na mesma hora que eu digo, Rodriguez também começa a dizer que não quer entrar lá. Lancaster para o carro a alguns metros e diz que precisa ir buscar suas coisas, sai e vai para casa a pé. Decidimos correr dali. Na verdade Erick decide por mim. Se eu não estivesse agarrada ao case, a espada teria ficado para trás quando ele me colocou sobre os ombros e começou a correr. Alguns metros depois, Lancaster vem correndo em direção a nós. Alguma coisa o assustou e ele parece não ter nem entrado em casa. Não importa, vamos todos para o carro em direção ao heliporto. Ainda bem que Lancaster vai bancar, e tem condição pra isso.

Na tentativa de alugar um helicóptero, todos saem do carro, menos eu. Não ia ser simpático uma menina com a coxa e braço tatuados, suja de sangue. TODA suja de sangue. Mas algo pesado cai sobre o teto do carro. Quando Erick tenta me tirar do carro, percebemos que era o Henry. Ele estava sujo de sangue, mas não tinha ferimentos.

-Henry!! Como você ta?? Meu Deus, ta machucado?? – digo entre abraços e beijos que nos damos, assustados ainda com tudo. Engraçado em como eu me sentia segura com ele, mesmo sabendo que o povo dele queria meu fígado assado, e não era no sentido figurado.
-Tô bem, mas se vocês querem viver, têm que ser mais rápidos que isso.
-Mas eles não vão te punir por estar nos ajudando?? – pergunto, preocupada com a segurança dele. Ninguém mais se atreve a dizer nada diretamente a nós, nesse momento.
-Não, ainda não estão atrás de vocês, diretamente. Mas vocês têm q sair daqui logo.
-Do país ou da cidade?
-Da cidade já é o suficiente.

Nos beijamos novamente, antes de eu entrar no carro com os outros, pra fora dali. Henry fica nos observando à distancia.

Até que, no meio do caminho, Lancaster e Rodriguez começam a agir como Lancaster agiu antes de “ganhar” o medalhão do anjo, como se escutassem um barulho alto demais. Rodriguez fica apontando a faca para mim, assustado, enquanto os dois conversam com algo ou alguém invisível.

Disseram que o anjo poderia no transportar para o norte, onde os iguais a nós estavam. Concordamos. Uma luz imensamente forte em nossa direção, parecia que íamos bater, mas quando nos demos conta o caro estava na proa de um grande quebra gelo, em pleno oceano. Frio demais.

A espada já não sangrava mais, e pude mudá-la para o case reserva, já que o sangue estava congelando e estava muito pesado aquele. Era hora de descobrir onde exatamente, a gente tinha ido parar...

O início do fim


Casa do Jono. Estranhamente clara, a escuridão não aprecia mais estar ali, como seria o normal. Ninguém atende. Ligo para os Manson e pergunto se tem noticias de Jono, e eles não tem há um bom tempo. Tem algo errado. Vou arrombar a porta. Chuto várias vezes, mas ela cede só um pouco, nem abre. Consigo a simpatia do senhor que mora ao lado e ele me deixa pular o muro dos fundos. Por lá eu quebro o vidro da porta daquela área e entro.

Depois de procurar pela casa, escuto algo se arrastando no andar de cima. Encontro Jono em estado de choque, dentro do armário, com os olhos completamente azuis. Apavorado, não conseguia nem falar. Ligo para o doutor Lancaster e peço que ele vá para lá. Os Manson não atendem.

Ele e Erick chegam logo, sem a Anne. Lancaster constata que Jono além de desidratado, teve o pigmento dos olhos “drenado”, mas ainda enxergava. Apesar do estado quase catatônico. Manson ainda não atendem.

Erick e eu decidimos tentar usar a espada e a placa juntas, mas Lancaster não permite, o que deixa Erick Bem nervoso. Eles brigam e já no carro, consigo convencer Lancaster a voltar e terminar o tratamento de Jono. Erick, assim como eu, vai correr para aliviar o stress.

Resolvo ir atrás dos Manson. Chegando ao carro, Erick me conta a novidade:

-Não tem mais nenhum nexus na cidade!
-COMO ASSIM?
-Não tem mais! A garota corvo, que nos observa, disse que só ta a gente na cidade! Que todos os líderes sumiram!

Eu já havia ouvido falar dessa garota. Cora. Ela se transformava num corvo. Meio bizarro, mas depois de tudo, eu tinha que ficar feliz por não brilhar no escuro. Não ainda, pelo menos... E então me dou conta:

-PQP!! OS MANSON!
-Você não vai lá sozinha.
-Mas eu preciso achar eles!
-Vamos todos.

Chamamos Lancaster, que resolve ir em casa e buscar a Anne quando fica sabendo o que estava acontecendo e onde íamos.

Ligo para Henry:

-Shan?
-Ei Henry! Tudo bem?
-Sim, e você?
-Bem... Onde você ta?
-No treino, porque?
-Porque a gente precisa do Rasga-Terra. Agora?
-Rasga-Terra? Como assim?
-Eu sei, Henry... Não precisa esconder.
-Sim, COMO você sabe é o problema.
-Longa história. Posso te esperar?
-Onde você precisa dele?

Passo o endereço. Digo pra ele não ir antes de eu avisar a ele, podia ser perigoso. Ele concorda. Peço a ele pra se cuidar. Apesar de envolvê-lo nisso, tenho medo por ele. Muito medo.

Enquanto eu e Erick vamos até a minha casa buscar a espada e o colar, Lancaster vai até a casa dele com Jono buscar Anne.

Tudo certo, nos encontramos no portão do ferro velho. Henry não está lá.

O lugar está uma bagunça. Carros espalhados, tudo fora da pouca ordem que era mantido. Porta da frente arrombada, nada de cachorros. Preocupante.

Durante as buscas pelos gêmeos, Anne me conta, discretamente, que Henry estava ali sim, mas do outro lado e diz que ali não há mais nada vivo.

Encontramos uma trilha de sangue, além de sinais de luta na casa. A trilha levava até uma pilha de carros. Quando Lancaster, Erick e Anne levantaram as ferragens, vimos uma marca de explosão, e a trilha terminava ali.

Digo para irmos embora, ali não é seguro. Todos concordam e vamos para a minha casa. Já na minha casa, Anne diz que ela iria ver se Henry precisava de ajuda. A peço para me manter informada e para dizer a ele para dar noticias assim que possível. Ela concorda e vai.

Ótimo... Uma poça de sangue no meu quarto... A espada, sangra MUITO e já está tudo ensopado e manchado de vermelho.

Durante a discussão sobre o melhor para Jono, o celular de Lancaster toca. Era um jovem chamado Henrique Rodriguez, que ligava procurando a doutora Lancaster e ouço algo sobre “castelo”. Peço para falar com o cara. Quando ele ouve uma voz feminina, já solta de uma vez, sem pensar:

-Doutora, preciso falar com você sobre meus sonhos, é urgente. Sonhei dessa vez com um castelo de pedras vinho, parecido com uma árvore, e com uma mulher que parecia a deusa do gelo e chamava Iti, que me encontrou e me levou até Ízidur, que disse que eu era o cavaleiro perdido dele. Eu não sei o que fazer, o anjo que eu ajudei ta me parecendo mais um demônio, to com medo, preciso falar com você urgente!
-Ok... Calma... Eu não sou a doutora Lancaster, mas posso te ajudar...

Depois convencê-lo de que não tínhamos seqüestrado a doutora e que poderíamos mesmo ajuda-lo, dizendo que era mesmo um anjo, Uriel, que eu era “Maria” e havia ganho um presente de Deus, ele topou nos encontrar e ficou até mais calmo. Passo meu número a ele e vou me arrumar para conhecer alguém com mais problemas que nós três juntos. Só esperar a ambulância que vai levar Jono para o hospital do Lancaster...

domingo, 11 de outubro de 2009

Construindo algumas fantasias, desfazendo outras...


Quase três horas depois, um telefonema. Eles avisando que a garota sumiu, que não está em lugar nenhum, mas não parece ter saído da casa. Sim... A sensação que tenho é que ela realmente não saiu. Pego o endereço, volto a espada pro lugar e vou ate lá.
Uma casa enorme! Ele deve ter MUITO dinheiro... Acho que vou abrir um hospital também.

-Lancaster, se eu achar essa menina, ganho um estetoscópio?
-Tá... – sem entender, arrogante como só ele.
-Então me arruma uma bacia com água.

Na outra memória, quando se passou um mês do leilão, Henry estava muito mais consciente das coisas, mais até que eu. Me ensinou o “truque” de me concentrar olhando alguma superfície reflexiva para facilitar a passagem para o outro lado. E funcionava.

Bacia com água na frente, me sento em posição de lótus e me concentro. Logo estava do outro lado.

A casa dele era fria ao extremo, estando ali. Muito escuro, mas não como Jonothan ou Zós deixavam os lugares... Era sombrio. Chamo a garota, Anne. Em pouco tempo, a resposta.

-Você não devia estar aqui. É perigoso demais pra gente como você.

Ok, cadê a menina do “sim, mestre” ou “posso, mestre?”, que só falava se Lancaster permitisse, e só não era mais submissa porque não aparentava ter nenhum tipo de problema mental? Mas eu não ia perguntar isso ali, naquele lugar.

-Anne, estão procurando por você. Estão preocupados.
-Não sabia que já havia se passado tanto tempo assim... Vá. Eu volto agora mesmo.
-Não achei seu corpo na casa.
-Venho para cá de modo diferente de vocês. Eu rasgo a realidade.
-Como Amélia? Ou a Fúria?
-Você a conhece?
-Sim... Uma longa historia. Sabe se existe algum filhote chamado Henry?
-Não vou saber pelo nome humano.
-Loiro, alto, olhos muito azuis. Uma tatuagem de uma asa presa a algo parecendo de metal, com um parafuso, nas costas, do lado esquerdo?

-Sim... O Rasga-Terra.
-Hein?? Rasga –Terra?? Porque isso? – estava gelada por dentro mais que aquele ambiente me mantinha por fora. Então ele era mesmo um deles. Mas ele ainda jogava! Eu não conseguia raciocinar... Ele corria risco demais! – Quem o ensina?
-Fúria.
-Anne, preferia que fosse você.
-Não sou tão mais velha que ele para isso. Agora vá. Os espíritos estão ficando cada vez mais difíceis de controlar, eles podem te ferir. Conversamos em outro lugar.
-Tudo bem.

Me concentro e volto. A volta é sempre mais fácil. Acordo amparada pelo Lancaster. Eu aparento um desmaio quando vou para o outro lado, mas esqueci de avisar.

-Você está bem??
-Sim, obrigada, doutor... Ela já vem. Cadê meu estetoscópio?

Segundos depois, Anne aparece. Vou com ela a outro cômodo da casa para terminarmos de conversar. Ela me explica que precisa criar um elo forte com um nexus para conseguir se manter na cidade, que só assim a permanência deles, do tipo deles, é conseguida, por isso todo o teatro com Lancaster. Me conta também que Henry só fica na cidade porque o nosso elo o mantém ali. Agora entendo... E se depender de mim, ele continua em Londres.

Voltamos para a minha casa. Lá os caras me contam que colocaram a placa numa centrifuga, e foram transportados a outra dimensão, onde encontraram um anjo. Só que agora a inscrição (que era o nome do tal anjo) havia sumido. Sem saber por que, imaginamos varias teorias. Tempo para usar de novo, limite de uso atingido, e outras coisas do tipo.

Mostro a espada. Erick tenta tocar, mas ele não consegue segura-la e diz que espada está muito quente, além de correr um fio de sangue sobre as inscrições dela, quando aproximamos ela dele. Lancaster pega a espada e a roda no ar. Para assustado, dizendo que ouviu gritos de pavor e medo, mas que por um momento, foi agradável. Eu pego a espada, giro e tenho exatamente a mesma sensação. Erick continua sem conseguir tocar a espada, e ela sangra sempre que a apontamos para ele.

Sem mais idéias, peço que não falem a ninguém, e digo que confiar em pessoas que já estão nessa há mais tempo pode ser perigoso. Que era melhor mantermos as coisas entre nós. Eles concordam.

Vamos até o hospital buscar meu estetoscópio. No caminho passo num sex shop e compro algumas coisas interessantes. Numa loja própria próxima ao hospital, um vestido e sapatos brancos. Levo Anne comigo para que ela possa respirar sem ter que fingir. Lancaster se dá conta e pergunta:

-Médica ou enfermeira?
-Não é da sua conta! E que diferença faz? Não é pra você! – rio e entro no carro. Dessa vez, SEM a Anne. Mas vou falar com Jono. Tenho muito a contar à ele sobre esses dias insanos...

Pequena mudança de planos


Mais uma vez, sangue colhido. Aviso a Stuart e ele diz que vai tentar resolver.

Voltamos a falar sobre a peça que Lancaster recebeu, e que me mostraram na sala dele quando Aleksei saiu. A peça brilhava se fizéssemos ela rodar, mas somente quando Aleksei não estava perto, o que o deixou ainda mais incrédulo com tudo. Era uma placa de metal com apenas uma inscrição semelhante à da Bebedora de Alma. Não fazíamos idéia do que era aquilo.

O resultado ainda não saiu. Aleksei foi pra sala dele, está muito tenso para conversar. Erick e Lancaster vão almoçar, mas eu não quero comer. Vou correr.

Algumas voltas no quarteirão, percebo que eles terminaram de comer. Me aproximo e me sento à mesa com eles, pedindo uma água. Falamos sobre o que fazer se Stuart (que eles não sabiam quem era, pois tomei cuidado de não dizer o nome dele em nenhum dos telefonemas) não conseguisse trocar os resultados. Até que Dr. Lancaster surta (até então ele parecia alguém normal). Ele colocou as mãos nos ouvidos, como se ouvisse um som muito alto. Depois de um tempo, para e fica olhando um ponto fixo, falando com o nada. Nos olha e pergunta se estamos vendo. Estende a mão e pega algo no ar, invisível, e coloca no bolso. Mais uma vez, parece escutar algo muito alto. Para, nos olha e diz:

-Vocês viram o anjo??
-Tá maluco??? Que anjo??
-Que me deu isto aqui. Disse pra você usar, Shantel. Diz que isso ajuda a mudar a opinião dos homens.

E me entrega, simplesmente, a Rosa das Emoções, o colar de rubi lapidado em forma de rosa que eu havia visto no leilão e que havia sido ROUBADO de lá.

-Lancaster, COMO você conseguiu isso aqui? – escondo a jóia como consigo em minha mão. – Isso foi roubado da casa Holtz! E... Deveria ser destruído!

-O anjo que me disse que você é Maria acabou de me entregar e disse que se você usar enquanto conversa com seu irmão, ele muda de idéia.
-Claro, eu vou entrar com um colar roubado e uma blusa de ginástica numa DELEGACIA!
-Toma minha jaqueta...

Lancaster me empresta a jaqueta dele e enquanto a coloco, Erick esconde o colar com muita facilidade em apenas umas das mãos. O próprio Erick se inclina na minha frente para eu poder colocar o colar sem que ninguém veja. Assim, vou até meu irmão.

-Al...
-Que foi Shantel? – sem me olhar.
-Al, desculpa... Eu sei que não ando bem, mas não tinha necessidade disso...

Ele levanta o olhar para mim, e a expressão dele muda. De tensa, brava, volta à expressão do irmão amável e carinhoso.

-Você que achou que eu estava bravo e trouxe o pavê! Que, aliás, não sei por que, mas te perdôo... – ele diz sorrindo, mostrando o doce sobre a mesa.
-Ah, toda essa história da Anikka... Às vezes eu surto mesmo... Mas não precisava ter pedido exames dos meus amigos que tentam me ajudar, só porque são médicos, né?
-Exames?? È mesmo! Nossa, onde eu estava com a cabeça... Vou buscar os resultados, espera...
Eu não posso acreditar... Funcionou!! Ele volta com os resultados em mãos... É agora...
-Parabéns, maninha!! Como uma boa garota! Tudo em ordem, para todos vocês! Como recompensa, o doce é todo meu!

Rio, dou um beijo em meu irmão e saio dali. Não posso acreditar!

Aviso aos meninos que funcionou tanto o colar, quanto a troca dos resultados. Combinamos de nos encontrar em minha casa para que pudessem ver a espada, depois que eles buscassem a garota na casa do médico. Lancaster me pede de volta o colar. Não, não vou devolver. Fui eu quem criou e já que pode ser útil, que fique comigo.

-Você queria destruir o colar, agora quer ficar com ele?

Olho com o canto de olho para Erick. Me volto para Lancaster, ainda usando o colar.

-Que colar?
-Hein?? Do quê você está falando?
-Do que você deixou comigo! Não vou devolver!
-Vai devolver minha jaqueta sim! – ele responde, me olhando.

Ótimo! Erick apenas ri, enquanto eu resisto à tentação de dizer ao doutor que ele era gay e havia se apaixonado perdidamente pelo meu irmão. Mas Aleksei não ficaria feliz com isso...
-Em casa te devolvo, doutor... Quando você for ver a espada, ok?
-Acho bom!

Seguimos, cada um para seu caminho. Vou esperar os três lá, depois de ligar para Stuart.
-Acho que você está me devendo uma visita, gata!
-Claro! Passo aí hoje à noite, pra ver como você está... Você foi brilhante!
-Eu SOU brilhante! E estou precisando de uma enfermeira...
-Claro! Termino de resolver umas coisas, tomo um banho e te ligo! Brigada, gato! Salvou minha pele!
-Disponha, gata! Mas nada é de graça...
-Te pago assim que nos vermos, ok? Beijos!
-Beijo!

Saio do carro já estacionado na minha garagem. A primeira coisa a fazer é enrolar o colar num lenço, com cuidado, colocar dentro de uma fronha de travesseiro bem macia e esconder no fundo de alguma gaveta. Ótimo. Agora a maldita espada suja de sangue. COMO isso foi acontecer?

Péra!! Cadê a porcaria do sangue que tava aqui??? O lençol ficou no meu carro!

Limpo também! COMO??

Ah, já não sei de nada! Deixo a espada ali mesmo, sobre a cama, enquanto tento entender o que está acontecendo. Os caras estão demorando pra caramba! O jeito é esperar...

Nexus, drogas... Cara, preciso de mais rock n' roll...


Ok, vamos tentar ser racionais... As coisas não aparecem assim, simplesmente... Ascelus deve estar mesmo precisando de mim... Ou eu sou ela mesmo... Ah!! Preciso esconder isso...

Ela não é pesada... Pelo menos não tanto quanto parece... Preciso esconder isso...

Enrolada num lençol, vai pra debaixo do colchão. Vai ficar ali até eu achar um lugar melhor.

Ligo pro restaurante russo, encomendo o pavê de nozes que eu e Aleksei comemos muito quando éramos crianças. Adorávamos! Confirmo com Charlotte que ele esta trabalhando.

Pego o doce antes de ir pra delegacia. Mas ele não parece muito feliz em me ver. Tento explicar o que está acontecendo de verdade, ele não acredita, acha que estou louca. Resolvo mostrar a espada a ele. Ele me acompanha até em casa, adiantando um pouco a hora do almoço.

No caminho, conto tudo para ele. As duas versões. Tudo, não deixei nada pra trás. Jonothan, Henry, Dr. Lancaster, Amélia, Miguel, nexus, tudo. Só piorou as coisas.

Mas tudo ficou pior quando eu mostrei a espada a ele. Ela estava suja de sangue, o lençol que a envolvia estava sujo, tudo coberto de sangue. Ótimo.

Ele tenta levar a espada para análise, mas deixo que leve apenas o lençol. Ele cada vez mais acha que eu estou usando drogas, Sugiro um exame toxicológico. Ele diz que caso seja positivo, vai me internar numa clinica de reabilitação. Eu não tenho nada a esconder. Convenço-o a irmos a outro hospital que não seja o do maluco do Lancaster. Com resistência, ele concorda, desde que logo após fazer exame em outra, eu vá fazer exame lá sem reclamar.

Sangue colhido, espera de resultados... POSITIVO??? COMO ASSIM???
Várias drogas constavam no exame, como se uma só metabolizasse em várias. Só coisa cara e nova tinha aquele potencial. Mas eu não consumi NADA!!! Não tem como estar certo, tem algo errado! Ok, vamos pro Lancaster...

Mais uma vez, sangue colhido... Aleksei resolve andar no jardim enquanto espero o resultado do exame na recepção.

Tento esconder o rosto quando vejo o Dr. Lancaster passando pela recepção, com um homem de mais de dois metros de altura e uma menina de uns 15 anos. Mas o homem se aproxima de mim. Lancaster segue para a sala, tenso com a minha presença ali e a menina atrás, quase uma sombra dele. Pergunta meu nome, fala que se chama Erik, e diz, sem pudor:

-Olha, já tentei rodear várias vezes sobre esse assunto, então... Você é um nexus, como nós?
-Ok, sim, eu sou... Como você sabe?
-Senti. A gente pode conversar na sala do Dr. Lancaster?
-Olha... Se você anda com ele... É melhor se cuidar. Ele é maluco. – e conto o que já passei com o doutor e Erick fica surpreso, diz que está tudo correndo bem entre eles. Aviso a Aleksei que vou até a sala do Doutor pra conversar com algumas pessoas, ele e resolve ir junto. Quando ele volta para a recepção, vamos todos juntos até a sala.

Lancaster não parece muito feliz em me ver. Fica menos feliz ainda quando Erick começa a conversar comigo dizendo que o doutor também recebeu um “presente” enquanto dormia. Aleksei, incrédulo, simplesmente tira o celular do bolso e pede um mandado para exames de toxicologia para o doutor e Erick! Assim, simples, fácil. Fiquei abismada!

Ele sai da sala, muito nervoso. Segundos antes do resultado chegar. Positivo de novo. Ok, desisto. Vamos ver se o Stuart sabe me explicar isso. Ligo pra ele.

-Nossa, ta mesmo com saudades, heim, gatinha??
-Gato, na verdade, a história é outra... Preciso saber uma coisa... Eu NUNCA usei drogas, mas na tentativa de provar pro meu irmão que eu não to maluca, fiz o exame e deu positivo! Repeti em outro lugar e deu positivo de novo. Agora ele quer exames do Dr. Lancaster e de mais um cara que parece ser dos nossos. O deles vai ser assim também?
-Olha gata... Somo pontos concentrados de energia, certo? Nosso cérebro é movido a energia... Então, na gente, ele trabalha diferente do que trabalharia em pessoas normais, produzindo esses hormônios que drogas produzem, mas não há efeito em nós porque somos assim, entende?
-Então... Tô ferrada?
-Mais ou menos... Me diz onde vocês vão fazer os exames, que eu posso tentar alterar os resultados... Mas TENTAR! Invadir um computador e / ou me manter lá sem que me descubram não é fácil.
-Sério?? Não sabia que você sabe fazer isso... E se conseguir... Fico te devendo muito, gato!
-Bom, agora tenho mais motivos para me empenhar... Sabe como é... Preciso de uma enfermeira pra cuidar de mim...
-Claro! Assim que eu souber te aviso e se você conseguir... Eu passo ái pra te agradecer, levar uma sopa... Sabe como é!
-Sopa? Ah, claro!! Me mantenha informado, ok?
-Ok! Beijos!
-Beijos!

Desligamos. Explico pros caras o que vai acontecer. Algumas idéias absurdas depois, resolvemos ir com Aleksei e deixar que ele faça os exames, confiando nas habilidades de Stuart.

Mandamos a garota de volta para a casa de Lancaster e seguimos até os laboratórios da polícia.

sábado, 10 de outubro de 2009

Em Drista


Acordo com Zós me chamando, voz tensa.

-Lady Ascelus, acorde!! Preciso que venha comigo, rápido!

Abro os olhos e ele está de pé na minha frente, usando uma armadura de pétalas negras bem parecida com a de Ízidur. Ainda confusa, pergunto:

-O que está acontecendo?? Porque preciso ir?
-O castelo está sob ataque, milady. Preciso garantir sua segurança.
-Mas e você?
-Eu irei lutar pelo reino de Drista, o reino de seu pai.
-Zós... Você vai ficar bem?
-Vou fazer o possível, milady.
-Mas se você partir, quem irá zelar por mim?
-Muitos outros, até melhores que eu, morreriam pela honra de protegê-la.
-Mas eu não quero ninguém além de você para isso, Zós. Ordeno que volte.

Ele me olha sem entender. Estende a mão para mim e diz:

-Vou fazer o possível, milady. Agora vamos.

Dou a mão a ele e ele me puxa para as sombras. Tudo muito escuro, uma escuridão quase palpável. Em segundos estamos no meio das florestas de Drista.

-Zós, quem está nos atacando?
-Seu pai tem muitos inimigos, milady.
-Pra onde vou?
-Para a vila de Drista. Lá existe uma porta para o mundo dos humanos, lugar que você conhece melhor que muitos de nós. Creio que estará segura lá. Peça para algum habitante da vila te guiar até a porta. Corra! Eu preciso ir. As sombras estão agitadas.

Eu corro na direção que ele mostra o mais rápido que posso. Logo chego à vila, com seus habitantes que se pareciam comigo, da “minha espécie”. Alguns me reconheciam e reverenciavam, outros quase não me viam, cuidavam de suas vidas.

Escuto um barulho de ferro batendo em ferro, que vinha de uma casa de porta aberta. Entro e vejo um homem, um ferreiro, de costas para a porta, forjando algo.

-Com licença, senhor!

Ele para, me olha com expressão dura mas indiferente.

-Isso não é lugar para uma princesa.
-Eu preciso estar aqui. Na verdade, preciso sair daqui. Ir para o mundo dos humanos, mas não sei onde fica a porta.
-A princesa que esquece seu próprio reino em função dos humanos não sabe onde fica essa porta?
-Não, não sei... Quem é você?
-Desolação. Forjo espadas com o ferro de seu pai. Vai mesmo passar pela porta? É perigoso demais para alguém como você. – e volta a forjar o instrumento.
-Eu preciso. Sabe onde fica?
-Terceira casa á esquerda, vai estar com portas abertas também. Fale com Ilyanor, ela lhe mostrará a passagem.
-Obrigada!
-Já que vai, lady Ascelus, é melhor que leve isto. A Bebedora de Almas.

Ele me entrega a arma que forjava. Não consigo identificar qual é o metal, mas me parece prata. Brilha muito. Ela parece ser forjada em uma única peça. Seu pomo é uma grande rosa, completamente desabrochada, seu cabo revestido por muitas tiras finas de couro curtido e emaranhado que se parecem com caules de roseira entrelaçados. O guarda-mão é feito com quatro rosas que começam a desabrochar, quase botões e de entre elas se projeta a lamina. O ‘chappe’ tem a base em cruz, projetando duas laminas cruzadas, mas a lamina extra é mais curta e se afina até desaparecer na lamina principal, cerca de 20cm depois do cabo. Desse ponto surge um vinco largo onde o metal é escurecido e possui inscrições em um idioma desconhecido e de aparência enoquiana. Seus dois fios são iguais e a ponta da espada se projeta prematuramente dando aparência perfurante. A lamina paralela é solida e tem as características de ‘forte’ em ambas as direções. É simplesmente linda. O nome me assusta.

Agradeço e vou até onde ele me indicou.

Ilyanor costurava quando entro em sua casa. Ela me reconhece e reverencia. Pergunta sobre vestidos, se estou ali para fazer mais algum. Quando falo sobre a porta, ela se assusta.

-Mas lady Ascelus, é perigoso demais!
-É necessário, Ilyanor.

Ela compreende e vai até um armário.Quando percebo a dificuldade dela em move-lo, a ajudo. Ele revela uma saída escavada na parede, com uma escada e uma luz dourada no fundo. Ilyanor me acompanha até um certo ponto da escada e volta, dizendo:

-Por favor, tome cuidado, milady!
-Sim! Obrigada!

Desço às pressas e me surpreendo quando percebo de onde vem a luz. Era uma fênix enorme, bem à minha frente. Me volto para a escada e pergunto, na esperança que Ilyanor ainda me escute, se iria ser atacada. Para minha surpresa maior, quem me responde é a própria fênix:

-Eu tenho um nome, Ascelus. E sim, irei te atacar se você estive aqui para atravessar a porta.
-Eu não quero brigar, mas preciso atravessar. E me perdoe por esquecer seu nome. Eu não ando me lembrando de muita coisa ultimamente.
-Sim, muito tempo no mundo dos humanos faz isso. E você fica mais lá que em seu próprio reino, com seu povo.
-O castelo de meu pai está sob ataque, preciso me proteger em algum lugar que conheço. Por isso preciso passar, e para continuar em segurança, não quero ter que enfrentar você.
-A minha função é proteger a porta, você não vai passar por mim sem luta. E me diga, onde está seu guardião? Ele deveria lhe manter segura
-Foi ele quem me disse para ir ao mundo dos humanos.
-O que ele pretende? Uma volta triunfal de uma das princesas, depois que o reino estiver destruído, para restabelecer as coisas?
-Não sei o que ele pretende, mas confio nele. Por isso preciso passar.
-Como pretende passar por mim? Com sua falsa autoridade da família real? Não me submeto à isso, não me impressiona.
-Eu, em algum momento, tentei lhe impor algo parecido com isso? Mas se não houve mesmo alguma forma pacífica de passar pela porta... Serei obrigada a usar isto. – ergo a espada, que antes mantinha presa às minhas costas por uma fita de meu vestido. A fênix olha surpresa, quase assustada.
-Se vai levar isso com você, eu lhe deixo passar. E que a Bebedora de Almas nunca mais volte.

Ela abre suas asas enormes e revela a passagem. A fênix era a porta. Uma luz forte me cega.

Acordo no meu quarto, o de Shantel. Abro os olhos e vejo a Bebedora de Almas cravada em minha cama, entre minhas pernas. Não posso acreditar...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Asas




Fui pra casa terminar o banho, bem rápido. Antes de qualquer coisa, precisava entender que havia acontecido lá, pra depois tentar falar com o Al.

À noite aquele ferro velho chega a ser bem sombrio, principalmente com os três dobermanns latindo e querendo um pedaço meu. Um deles vem abrir o portão pra mim. Legal. Passo a tarde inteira no motel com um deles e não sei qual está bem à minha frente. Peço licença e confiro o tríceps direito. Nada, não é o Jack. No esquerdo, uma tatuagem idêntica a do irmão... Parecem se encaixar...

-Olá Stuart.
-Eu sou Jack! ELE é o Stuart. Cara, você passou a tarde inteira no motel com ele e não sabe o NOME dele??
-Ele me disse que era o Jack!
-EU sou o Jack! ELE é o Stuart!
-Ok, vou diferenciar os dois pelas tatuagens. – e entro, sabendo menos ainda de tudo.
-Ele ta no quarto.
Stuart (ou Jack, sei lá! O da tatuagem na direita) me recebe com um sorriso.
-Gatinha!!! Já esta com saudades? Não conseguiu esperar ao menos até amanhã pra me ver de novo?
-Gato, você é ótimo, mas não é por isso que estou aqui. O que foi aquilo?
-Já disse, eu não me canso fácil desde que meu irmão esteja bem!
-Não é disso que to falando... Fumori, certo? O que é aquilo? E COMO vocês conseguiram ressuscitar a coisa... E quem era aquela menina com vocês?
-Calma... Uma pergunta de cada vez. Bom, aquilo era um fumori sim. Um espírito mau, que possuiu aquele homem e deixou ele daquele jeito.
-Deformou ele por completo... Mas um espírito consegue mesmo fazer aquilo?
-Sim, eles são espíritos “grandes” demais, fortes demais. Deformam o corpo que possuem para “caber”, saca?
-Entendi. E a menina, quem era?
-Que menina?
-Pára... Quem é? É uma de nós? Uma irmã de vocês? Bonita daquele jeito, por isso que não a vi por aqui... Do jeito que vocês são, devem morrer de ciúmes dela.
-Sim, a mantemos trancada num porão secreto debaixo de uma pilha de carros e a alimentamos somente a pão adormecido e água.
-Nossa... Como vocês são cruéis... Ainda bem que só tenho UM irmão ciumento.
-Da polícia, o que dá uma vantagem enorme pra ele. – ele sorri – ela é alguém especial.
-Tá. E como vocês três conseguiram ajeitar tudo?
-Mágica, gata.
-O que houve lá??
-Já disse, mágica... Olha, isso aqui ainda demora umas duas semanas pra sair, ta? – disse apontando algumas marcas no peito. – To convalescendo...
-Tá bom... – rio
-Sério, ainda dói! Você podia me dar um beijo pra ajudar a melhorar, né?
-Ué, achei que fosse algo casual. Se eu te beijar toda vez que te ver, vai virar algo freqüente, que vira algo serio.
-Tecnicamente ainda estamos no mesmo dia, ainda vale.
-Olhando por esse lado, pode até ser. – me aproximo e o beijo. – Melhora, ta? Não quero perder meu brinquedo. – sorrio.
-Ah, claro!! – ele ri - Te cuida, gata!
-Pode deixar. – finjo que vou sair – Ah! Você ainda não me contou como fizeram aquilo.
-Cara, você não esqueceu. Se você tem fé e precisa passar numa prova, pede a Deus e passa, vai se perguntar por que passou??
-Não. Mesmo tendo fé eu vou estudar e vou saber por que passei. COMO vocês fizeram aquilo?
-Mágica...
-De quem? Da garota?
-Dos três.
-Se vocês conseguiram fazer aquilo com dois mortos, imagino o que não fariam com pessoas apenas machucadas... Como eu queria ter amarrado vocês no pé da minha cama quando participava de campeonatos de sambo... Saía toda quebrada.
-Um pouco egoísta, não?
-E quem disse que eu sou caridosa? Melhora logo... – sorrio – Ainda bem que seu irmão está bem...
-EI!!! Nem pensa em me trocar pelo meu irmão! E nem finge que confundiu, ok? Eu vou saber!
-Eu não havia falado por isso, mas... – me aproximo e o beijo de novo, rindo -. Melhoras e até mais.

O outro Manson (da asa esquerda) me acompanha até o portão para que os dobermanns me deixem inteira e então eu sigo para a casa do Aleksei.
Meu irmão não estava lá, Charlotte não sabe onde fica o bar secreto dos policiais. Na delegacia ninguém me fala nada, é o segredo deles. Procurando não encontro. Mas Kevin, um amigo dele e meu aluno de sambo na academia me encontra.

-Ei gata! Ta perdida?
-Kevin! Bom, mais ou menos. Preciso falar com o Al. Sabe onde ele ta?
-Saber eu sei. Mas não posso te falar. Segredo da polícia. E Shan... Ele não ta legal, precisa de um tempo. Dá esse tempo a ele...
-É... Você tem razão. Saco, eu sei que ele ta mal por minha causa... Preciso falar com ele senão eu surto... Sabe como a gente é.
-Sei, mas tenta relaxar. Ele precisa disso, deixa ele. Vai pra casa, amanhã vocês conversam.

Não vou pra casa. Passo numa festinha na casa do Black, onde a galera ta “comemorando” a recuperação da Marrie e se drogando. Eu nem bebo, mas fico olhando o pessoal chapado e rindo deles.

Hora de voltar pra casa.

Dormir e sonhar... Com Ascelus.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nem tão simples assim... NADA simples.


Acordo nos braços de Jack. Sim, cada vez mais entendo o fascínio de Ascelus sobre nós. Ele me vê acordada e fica bem animado. Eu acabo tendo a idéia de mandar um “presente” pro irmão dele. Quem sabe assim todo mundo fica satisfeito?

Ligo pra Marrie e peço a ela que vá ate a casa deles, porque meu amigo esta sozinho lá, sem companhia... ela entende o recado e pede pra falar com o Jack. Depois de várias perguntas absurdas, eu pego o telefone, tiro uma foto dele e mando pra ela, que fica muito, mas muito feliz. Mostro uma foto dela pro Jack e ele diz que o irmão vai gostar da surpresa. Ótimo! Quando ela chegar lá ela vai me ligar, posso dormir mais um pouco.

E volto mais uma vez ao quarto de Ascelus. Cara, isso ta MUITO estranho mesmo. Não é possível que eu seja uma deusa! Uma deusa das rosas! Não mesmo...

Vejo Zós nas sombras.

-Está tudo bem, Zós?
-Sim lady Ascelus.
-Já teve alguma noticia da nossa possível criação?
-Nada de realmente grave, que seja relevante.
-Fico feliz. Eu ainda não entendo a relação deste mundo com o dos humanos. Não entendo como sempre venho para cá quando durmo lá, Zós... Simplesmente acordo aqui...
-Na verdade milady, você apenas sonha com as vidas que teve quando dorme aqui... Se lembra delas...
-Então... Sou de fato Ascelus, e não Shantel?
-Sim, milady! - ele sorri, surpreso com a pergunta.
-Então Zós, preciso continuar me lembrando. Vela por mim?
-Como sempre, milady.

Assim que fecho os olhos, meu telefone toca e me trás de volta. Era Marrie avisando que chegou lá. Agora sim todos iríamos sair de lá satisfeitos...

Sim... Muito satisfeitos. Mas agora Jack sentia cansaço praticamente dobrado. Não que ele reclamasse, ou que eu achasse ruim. Continuávamos nos divertindo um bocado. Quando eu vejo que ele estava precisando de um tempo, o coloco pra dormir em meu peito. Ele descansa um pouco mas acorda logo. Noto que ele tem uma tatuagem de uma asa no tríceps direito, bem bonita. Decido ir para o banho, ele resolve dormir mais um pouco.

Do chuveiro escuto um barulho enorme e corro para o quarto. Vejo a parede derrubada e uma criatura horrenda, completamente distorcida, com braços e pernas enormes, e garras afiadas atacando Jack. Eu só esperava que Stuart estivesse bem.

Eu não sabia o que fazer!! Não sabia nem o que era aquilo!

Na confusão vejo meu telefone. Ligo pro Al e peço a ele pra ir lá. Ele não entende nada, mas concorda. Ligo pra casa dos Manson pra falar com Stuart, mas ninguém atende. Ligo pra Marrie e ela me conta que ele está no banho há algum tempo. Preocupada, mando ela arrombar a porta.

Jack já não reage mais. Eu PRECISO fazer alguma coisa. Me aproximo daquilo e dou um soco na cabeça dele. Ele me olha e continua batendo em Jack, que está muito ferido. Chuto as costelas do monstro, e ele cai longe. Aproveito que ele está no chão e continuo chutando até ter certeza que ele estava morto. Corro pra tentar ajudar Jack. Em alguns segundos ele abriu os olhos.

-Cara, como você ta?? – pergunto, tentando estancar o sangue.
-AI!! Não encosta, ele quebrou essa costela... Ouch...
-Desculpa!! Que eu faço??
-Me beija...

Eu paro e olho pra ele. Pego minha camiseta, minha calcinha e me visto.

-Sério... Me beija... Você não vai me negar meu último desejo, vai? Aiiiiiiii....

Rindo, me aproximo dele e o beijo. Falo, brincando:

-Espero que esse evento não atrapalhe futuros encontros. Calma, não to te pedindo em casamento! Só acho que o que é bom não deve ser desperdiçado, entende? Tipo... Sexo casual!
Ele ergue as mãos, brincando.

-Aceito!! Só me lembra de não te irritar, tá? Se você cisma, se eu não te agrado... – olha a criatura morta, que parece estar encolhendo e se parece agora com um humano normal – Espero não te irritar NUNCA.

Então escuto pelo celular:

-Shan... Sha-an... Ai...
-Marrie?? O que foi??? Tá tudo bem?
-Tá... Bom, acho que desloquei o ombro... Ele ta la dentro ainda... To... ai... preocupada...
-Olha relaxa... O irmão dele já ta bem, ele deve estar também. Logo ele sai daí. Coisa de gêmeos. Problema hereditário de saúde... Descansa.
-Tá né... Doida.

Não dá nem tempo de me divertir com isso. Percebo que no quarto de onde saiu a criatura existe uma mulher morta sobre a cama.

Batem na porta e eu tenho certeza que é o Aleksei. Abro a porta e vejo que estava certa. Ele entra e a expressão dele muda. Olha a cena, o cara morto no chão e o cara seminu sentado na cama. E vê a irmã mais nova seminua. Num motel.

-O que houve aqui?
-Al, eu tava... erm... Tomando chá com um amigo... Aí o cara simplesmente derrubou a parede e atacou o Stuart!
-COMO o cara derrubou a parede? – ele olha o cara no chão – quem fez isso?
-Eu...
-Shantel, você MATOU um homem?

Enquanto eu converso com Aleksei, Jack liga para alguém e pede pra ir até lá, diz algo sobre a criatura ser um “fumori”. Em alguns minutos batem na porta de novo. Stuart e uma outra garota que eu ainda não conheço entram no quarto e falam com Jack. Pouco depois, Jack me chama, enquanto Aleksei vai olhar toda a cena direto. Ele pede pra eu distrair meu irmão um pouco. Concordo e saio do quarto com Al.

Aleksei está muito tenso. Diz pra eu sair dali, sumir, evitar o flagrante. Diz também que eu tenho que rever minhas companhias, e todo aquele papo de irmão mais velho superprotetor pra cima da irmãzinha que acaba de matar um homem.

Até que os três saem do quarto. O que estava com a roupa do Jack se vira para o Aleksei e diz:

-Cunhadinho, precisa dar uma bronca na sua irmã. Eu avisei que fingir que matar um homem pra fazer hora com você não era uma boa idéia. – ele olha pra mim, sorri e continua – gatinha, vou te ligar logo! Beijos!

E os três simplesmente vão embora.

Al e eu entramos no quarto e podemos ver pela parede quebrada, o homem dormindo calmamente ao lado da mulher. Vivos. Respirando.

Aleksei me olha de uma forma assustadora e diz, enquanto caminha para a saída:
-Da próxima vez que quiser fingir que matou alguém chama os seus amigos malucos.

Não adiantou chamar. Ele não ia voltar. Me visto rápido, pago a conta, pego meu carro.

Eu PRECISO falar com os Manson.

sábado, 3 de outubro de 2009

Simples.


Não sei se era o fato dele não se cansar (ele contou que se o irmão não cansa, ele também não cansa. Cara perfeito?) ou se ele realmente era bom naquilo. A verdade é que eu estava me divertindo muito. Mas EU não tenho uma irmã gêmea que segura minha onda e precisava dormir. Ele percebeu. A gente se divertiu mais um pouco e ele me puxa pra dormir no peito dele. E eu durmo mesmo.

Acordo no quarto de lady Ascelus novamente. Sozinha. Chamo por Zós, que prontamente atende.
-Sim, lady Ascelus.
-Voltei para cá... Ainda não entendo nada disso...
-Seu fascínio pelos humanos costuma lhe deixar assim. E esse fascínio eu não entendo.

Me levanto e me aproximo de Zós, sempre escondido nas sombras. Ele me observa.

-Eles sentem, Zós. Eles amam.
-Amor? Não faço idéia do que seja. Isso diz respeito ao deus amor.

O pego pela mão e o trago para onde as rosas o iluminam melhor. Eu poderia dizer que era Jonothan, o que faria um grande sentido. Ele se surpreende muito com meu toque, mas se assusta muito mais quando eu toco os lábios dele com os meus.

-Lady Ascelus, que sandice é essa? Não tem consciência do que acaba de fazer? Sabe-se lá o que pode ter sido criado no mundo dos homens com esse seu ato insano!

Me afasto dele, envergonhada.

-Desculpe-me, Zós! Mas é disso que eu falo! Eles podem se tocar, se beijar, se amar! Eles tem escolha. Isso que nós temos aqui não é vida!

-Não vivemos aqui, lady Ascelus. Apenas existimos. – ele diz, com o mesmo tom de voz calmo de sempre, como se eu não houvesse feito nada preocupante.
-Exato, Zós. É o fato dos humanos VIVEREM que me encanta...

Segue um silêncio. Me lembro da Rosa das Emoções, do meu contado com Chambers. A jóia do leilão foi criada por mim... Irônico, não?

-E a jóia que criei, Zós? Como estão as coisas a esse respeito?
-Resolvidas. A família do deus das memórias se responsabilizou pelo caso e já enviaram alguns capacitados para dar fim à ela.
-Ótimo. Tem alguma noção do que podemos ter criado agora?
-Não faço idéia, milady.

Me lembro do meu acordo e das conseqüências que ele poderia ter. Precisava resolver aquilo rápido, e talvez Zós soubesse como.

-Zós. Preciso ajudar Shantel. Ela fez um acordo com espíritos aranha e precisa ser liberada dele.
-Aranha? Não creio possa fazer algo diretamente, milady.
-Com quem eu falo então?
-Com o deus aranha. Mas duvido que teu pai permita que saia de vossa corte. Convide-o para um jantar.
-Como faço isso?
-Não sei sobre etiqueta entre as cortes. A minha corte é diferente da tua. Converse com tua irmã Iti. Ela está nos aposentos dela.
-Como chego lá?
-Como se chega em qualquer lugar deste castelo, milady. Desejando. Apenas deseje chegar até ela enquanto caminha.
-Obrigada! – Com um sorriso me despeço e vou ao encontro de minha irmã.

Ao me aproximar do quarto dela sinto frio. A vejo, com longos cabelos quase brancos, mesmo tom de pele de todos daquele lugar e olhos mais azuis que os meus, tocando uma belíssima harpa. Tudo em volta dela está coberto de neve. Ela sorri quando me vê e diz que eu não aparecia por lá há tempos, que meu fascínio pelos humanos me fazia fugir e com isso eu não podia tocar minha flauta com ela. Sorri quando eu digo que estava com frio e diz que eu já devia estar acostumada pois ela é o inverno, assim como eu sou a rosa.

Vou direto ao assunto e pergunto como convidar o deus aranha. Bastante pratica, ela diz que não sabe o que um deus aranha come e com isso um jantar ficaria inviável. Ela não pode ir até lá, já que aranhas não gostam de frio. Nem de fogo, como nossa irmã mais velha. Além do que, a deusa do fogo não concordava nem um pouco com minhas fugas e nunca me ajudaria por um humano. Nossa irmã mais nova ainda era muito imatura para que eu a colocasse no meio de minhas histórias com os humanos.

Legal, tenho irmãs! A melhor parte é que descubro tudo de uma vez só. E não me dou bem com uma delas... Muito bom!

Mas minha irmã me explica que para Shantel - ou melhor, eu - me livrar do acordo basta eu me sentir livre dele. Quando achar e sentir que já paguei o preço justo pelo favor que me fizeram, estou livre de cumprir o acordo, e isso não causaria nenhum mal. Como ela mesma disse:

-Se eu decido que só tenho amigos que gostem de rosas, só vou conviver com pessoas que gostem de rosas, certo? Se uma dessas pessoas deixar de gostar de rosas, eu deixo de ser amiga dela. Simples! É assim que funciona!

Agradeço e mais uma vez, tenho que explicar o porquê do meu fascínio pelos humanos. Mais uma vez não entendem. Quando comento sobre demonstração de carinho, ouço algo como “pra que isso serve? Isso é coisa do deus carinho, não precisamos disso!”.

Cada vez mais entendo o fascínio de Ascelus pelos humanos. Talvez por isso eu seja tão impulsiva. É ela querendo viver a minha vida.

Desejo e volto ao meu quarto. Preciso voltar para Shantel, na verdade. Me deito e adormeço.

Seguindo adiante... Apenas isso.


Acho o telefone na agenda do meu celular. Em um tom debochado, escuto do outro lado da linha:

-Retífica Manson!
-Quem fala?
-Jack Manson. Quem é?
-Khodasevich. Tudo bem, Stuart?
-Ah... A garota que encomenda as coisas e esquece de buscar. Sou o JACK, estou bem sim, e vc?
-Aham, Jack, sei... Vivem se passando um pelo outro. Mas eu to bem! Preciso mesmo pegar minha pulseira com vocês, ela já está pronta?
-Há um tempão! Pode vir buscar quando quiser.
-Legal! E o que tem de almoço aí hoje?
-A mesma porcaria de sempre...
-Porcaria??? E tão ruim assim? E você vai comer isso assim mesmo?
-Você não faz idéia. Ta me convidando pra almoçar?
-Na verdade, estou ME convidando pra almoçar aí...
-Olha, acho que você não vai gostar mesmo da comida daqui... Não prefere um restaurante?
-Pode ser! Tem um muito bom na Boulevard Street , bem na esquina com Green Tree. Pode ser?
-Claro! Levo a sua pulseira!
-Te vejo lá em meia hora, Stuart!
-Jack. Ok, nos encontramos lá.

Pego meu carro e sigo lentamente... Acho que já cansei de ouvir buzinadas e palavrões dos outros motoristas...

Chego lá um pouco atrasada.

-Demorou...
-Desculpa... Trânsito complicado.
-Ah! Achei que ia dizer que estava de longe olhando o cara bonitinho encostado na moto!
-Mas você não esperou eu dizer tudo! Só disse o que estava pensando no EXATO momento em que você me perguntou. A frase toda era “Droga!!! Podia estar aqui de longe olhando esse cara bonitinho encostado na moto, mas estava no TRANSITO COMPLICADO!” Erm... Colou? – sorrio. Ele ri de volta.
-Vou fazer um esforço enorme pra colar, ok?

Ele se surpreende com o restaurante russo que escolhi, diz que só entrega a pulseira depois do almoço. Nos sentamos, olhamos o cardápio em russo. Explico pra ele sobre os pratos e sugiro um, que ele aceita. Ele me entrega a pulseira e me ajuda a colocá-la. Uma corrente de moto. Até estilosa.

Durante a conversa descubro um pouco sobre ele, ele descobre um pouco sobre mim. Me pergunta porque do meu atraso. Conto para ele do acordo com o espírito aranha. Ele se surpreende, me pergunta se eu faço idéia do que aquilo significava. Eu digo que não e ele me conta:

-Cara, você anda pelo lado de lá sem querer e ainda fica fazendo acordo com espíritos? Sabe o que vai acontecer? Sabe esse seu processo de agressão? Vai se declarar CULPADA no seu julgamento! Você vai PEDIR para ser presa. Só se livrando desse acordo pra não fazer isso. E como se livrar... Eu não faço idéia.

Além de descobrir que estou completamente ferrada porque se o que ele estiver falando for verdade – e deve ser - eu vou acabar entregando o Henry, descubro também que apesar de idades próximas eles já estão nessa há seis anos. Já têm seus aliados, inclusive me diz pra tentar me enturmar com quem está se descobrindo agora, como eu. Eles não conhecem ninguém que possa me ajudar.

Contou que ele e o irmão têm uma espécie de elo empático. A condição física dos dois é exatamente igual, tanto que se um faz algum exercício e ganha massa, ela some se o outro não tiver se exercitado. Claro, não dizia uma frase inteira sem me passar uma cantada. Eu sorria e correspondia quando convinha. Ou seja, quase sempre... E a essa altura, ele já tinha desistido de me convencer que ele era o Jack. Pra mim não fazia diferença, eu sabia que nunca ia aprender a diferenciar os dois. Afirmava que ele era o outro irmão só por brincadeira mesmo.
Eu realmente me sentia livre para me envolver com outras pessoas, tinha essa vontade até. Não havia esquecido Henry, mas agora era um momento meu. Estava bem assim.

Quando saíamos do restaurante, ele se despediu de mim. Sorri e disse, em tom de provocação:

-Você deve ter algo muito interessante pra fazer agora...
-Na verdade, estou dando uma de difícil!

Eu não disse mais nada. Peguei a gola da jaqueta dele e o levei até meu carro. Ele, rindo disse:

-Ok, desisto, você é muito boa...

Ele até pensou em dirigir, mas eu me sentia muito incomodada com pessoas dirigindo sem respeitar as leis de trânsito.
Ele ficou mais surpreso ainda quando viu os cds do Iron, AC/DC, Rammstein, Pink Floyd, Korn, e coisas do gênero, no porta cd's no meu carro

Calmamente, seguimos para um motel. Eram duas da tarde...
 

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