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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O leilão



Chegamos em casa no tempo certo de eu me arrumar e ir ao leilão da srta. Borlins. Henry não ia por motivos óbvios, caberia somente a mim sorrir e fingir de boa moça. Então eu coloquei um vestido longo, vinho, justo até os quadris, onde se alargava levemente, com uma echarpe preta cobrindo os ombros. Brincos, anéis e gargantilha prateados, com os cabelos presos num coque frouxo.

Chegando lá, um manobrista pegou meu carro e eu entrei calmamente. Ganhei um catálogo das peças que seriam leiloadas.

Quadros, estatuetas, jóias... Um bracelete lindo, de prata... Wow! Que colar é esse??? Uma rosa lapidada num rubi, maravilhoso! Mas pera... Um rubi INTEIRO??? Eles lapidaram essa rosa NUM RUBI SÓ??? Lance inicial... Ok, desisto. É, isso aqui vai ser chato mesmo.

Ah, ela tá ali. Vamos acenar para a srta. Borlins ver que eu aceitei o convite dela, sorrindo... Isso... Sorte ou azar, ela tá rodeada de gente, eu não vou conseguir nunca falar com ela. Opa, leilão começando, hora de entrar na sala.

Que coisa estranha... A energia do lugar parece quase palpável, se move... Na direção daquele cara da primeira fileira. É, ele me viu olhando pra ele e sorriu pra mim... Vai começar o leilão.

Ah, que saco... Como demora... Vou mandar mensagem pro Henry. "Isso aqui tá um saco. Tô na 1 sala, são 6. Cada sala leiloa por sessão 10 peças. Tamos na 9 peça daqui, nessa sala há 40 min. Imaginou q horas chego, né? Te amo. Bjos"

Ufa! ainda bem que coloquei no silencioso. Resposta dele. "Precisa que te tirem daí? Tô indo. Tbm, bjo."

"Ñ preciso!! Pode deixar! Bjo"

"Ok. Bjo"

"Henry!! O q vc vai aprontar? Sério!"

"Sério. Nada. Bjo"

Aiaiai... Ele VAI aprontar... Pelo menos esse martírio acabou. Só faltam mais uns cinco, SE eu ficar até o final... Hora de circular e tentar cumprimentar a srta. Borlins. Quem sabe beliscar alguma coisinha do bufett, ter idéias para o cardápio do casamento...

O tal cara vindo em minha direção com duas taças de champagne... Henry, por favor, não chegue agora...

Até explicar metade desse povo já vai estar morto...

-Oi! Eu não te conheço de algum lugar? - ele diz enquanto me oferece uma das taças.
-Não sei... - pego a taça, só pra não ser rude.
-Bom, ando com a memória ruim. Se eu morasse aqui acharia que você é uma das minhas alunas. Desculpe, não me apresentei. Robert Chambers. - estende a mão para mim, que o cumprimento.
-Shantel Khodasevich. Prazer!
-Khodasevich... Não me é estranho... Você também não é daqui, certo?
-Não, sou russa. Esse sobrenome é do meu pai, Isaack Rainer Khodasevich. Engraçado porque as pessoas costumam se familiarizar com o sobrenome da minha mãe, Verkko.

E a conversa seguiu esse ritmo trivial, tranquilo... Só não comentei o fato de que achei MUITO estranho mais uma pessoa se "lembrar" do sobrenome dos meus pais. Tá cada vez mais e mais estranho... E lá vamos nós, pra outra sala. Dessa vez aquele colar perfeito vai ser leiloado. Esse eu quero ver.

O colar está lá, bem à minha frente... Muito mais bonito que na foto do catálogo, sem palavras. Sim, eu queria aquela peça...

Ei... O que é isso... Que vertigem é essa, eu nem bebi nada... Esse som ao fundo parece meu despertador. Ai, tá escurecendo tudo...

Como assim???? Meu despertador?? Meu QUARTO??? COMO ASSIM???

-Henry!!! Henry!!! Acorda!!
-Shan?? Que foi tá tudo bem?
-Como eu vim para aqui?? O que tá acontecendo?
-Como assim, você tá bem? Você foi parar aí como sempre, ué... Não tô te entendendo...
-O leilão!!! Eu tava no leilão!!
-Ah... Sonhou com ele? Mas já faz tempo.
-Tempo??? Que dia é hoje?
-17 de abril. Tá tudo bem?
-17 de abril?? COMO ASSIM?? O leilão foi dia 17 de março! Um mês! Eu perdi um mês?
-O quê? Do que você tá falando?
-Eu não me lembro de nada, Henry. NADA, desde o leilão! Eu tava lá, fiquei tonta e apareci aqui!
-Tá falando sério?

Sim, eu amo o Henry, mas às vezes ele me deixa nervosa. "não, não tô falando sério, tô fingindo todo esse desespero." Preciso saber o que eu fiz esse tempo, pra saber porque fizeram isso comigo...

EI!!! O cara do leilão! CHAMBERS! A Archa me falou dele, das memórias! Filho da *&##$%$, sem mãe. Eu MATO ele... Assim que descobrir como chegar perto dele sem esquecer até que eu existo.

Henry me disse que eu fiquei bem misteriosa, perguntando muito para o Al sobre nosso pais, e que passei bastante tempo com o Jono. Mas o Jono me disse não sabe de nada, só que eu pesquisava sobre meus pais e estava descobrindo algumas coisas. A chave disso é a minha família. Mas por quê?

MERDA! Apagaram meu histórico do computador! Só alguns dias específicos, provavelmente os dias em que obtive algum resultado por aqui. Minha agenda... Não acredito! Arrancaram as páginas! Ah, mas eu mato um!

Encontrei o Al, mas ele não me disse nada demais e ainda achou que eu tô paranóica por causa do meu casamento. Só me lembrou de algumas informaçoes que não batem sobre nosso pais, mas passam batido como pequenas confusões. A falta de fotos deles mais jovens é estranho também, mas passa. Pros outros. Pelo menos o Al me ajudou a conseguir alguém que vai recuperar o histórico do meu computador... Vou perder meu HD, mas preciso saber o que tá acontecendo.

Meu casamento é em DUAS SEMANAS!!! Pelo menos o Henry aprendeu MUITO a se controlar... O que deixou o sexo muito, muito melhor. Eu já nem fujo mais! Mas ele me disse que tem saído algumas vezes para "cuidar do território" com Amélia, com ela tem aprendido melhor a se conter e a ser quem ele realmente é.
Pelo menos pra ISSO essa porcaria que fizeram comigo serviu...

Descobertas...


Fomos à casa de Archa Borlins no dia marcado. Logo de cara já vi que seria complicado. Eu não conseguia andar acima da velocidade permitida, não conseguia não parar em sinais mesmo que ainda estivessem amarelos e não podia deixar o Henry dirigir já que ele não podia se exaltar até que tivesse controle sobre essa fúria que o estava dominando. E me lembrei da promessa que fiz à aranha...

No prédio da nossa anfitriã, assim que as portas do elevador se abriram, Henry fareja o ar, como um animal, me olha com um olhar estranho e diz “Alfa!”. Não podia ser boa coisa...

Quando entramos, havia um homem na sala com a srta. Borlins. Ele e Henry se entreolharam e ficaram assim, parados, se encarando, quase numa cena de velho oeste. Simplesmente não se moviam, não piscavam, nada. Quase podia ver as faíscas saindo dos olhos deles. Achei que o pior fosse acontecer. Chamei pelo Henry mas ele não me ouvia. Virei o rosto dele em minha direção, e quando os olhos dele encontraram os meus, aquele medo primitivo me cegou.

Quando dei por mim estava encolhida no canto do elevador, a srta. Borlins do outro lado da sala escondida atrás de um sofá e os dois parados no meio da sala, segurando um no pulso do outro, ainda se encarando. Sem dizer nada, a srta Borlins me chama para perto dela e com o olhar me diz para não me envolver na situação. Me aproximo dela e ficamos as duas, quase sem respirar, olhando a cena no meio da sala.

-Vai ter sua chance, filhote. Não aqui, não agora. - O homem disse enquanto soltava o pulso de Henry. Contrariado, Henry concordou e soltou o homem.

Ele era Sr. Alfred Ausbury, companheiro da srta Borlins. Muito educado, nos pede desculpas e se retira.

Durante toda a conversa com a srta Borlins, Henry parecia distante. Mas o estranho foi quando ela esboçou familiaridade com o nome de meus pais e depois tentou fingir que não os conhecia. Enquanto me explicava mais um pouco sobre esse novo mundo que eu estava descobrindo, citou algumas pessoas. Algumas parecidas comigo e com ela, assim como Jonothan, o Sr. Alfred, Miguel, e um outro cara chamado Chambers (que eu ainda não conhecia, mas ela dizia ser alguém importante, que lidava com memórias), cada um com sua habilidade. Outras como Henry e Amélia, uma menina de nome estranho, que era uma espécie de metamorfa. Disse que henry tinha que aprender a controlar toda e qualquer emoção, qualquer uma delas poderia desencadear um ataque de fúria. Muito bom! Nos convidou a ir a um leilão de peças dela que aconteceria dali a dois dias pela casa Holtz, a mesma que Charlotte trabalhava.

Precisávamos ir embora. Ela tinha os compromissos dela, e eu tinha algumas coisas a descobrir...
Chegamos em casa. Henry quis andar um pouco para espairecer. Eu o esperei com uma camisola pequena de seda. Tinha que descobrir.

Quando ele chegou e me viu, desceu as escadas correndo de volta para a garagem. De lá me perguntou se eu tinha certeza. Claro que eu tinha! Então ele subiu de novo, já tirando a camisa.
O corpo dele parecia mudar. Eu sentia os músculos mais rígidos que o normal, ele já não era mais tão delicado quanto antes e parecia maior. Não me machucava, mas não permitia que eu dominasse a situação. Ao toque ele parecia ter mais pêlos no corpo, mas eu não via esses pêlos. Apesar de algumas diferenças significativas, as coisas estavam muito boas...

Até aquele medo me dominar de novo. Acordei no banheiro, trancada, encolhida. Voltei para o quarto e ele estava sentado, enrolado num lençol, envergonhado.

-Te machuquei, não foi?
-Não... Eu senti medo. Mas um medo irracional, eu não sabia o que estava fazendo. Só me lembro de estar aqui com você, e no instante seguinte estar no banheiro. – o abraço forte e ele corresponde.
-Shan, a gente tem que parar com isso. Não quero te machucar.

Eu sorrio.

-A prática leva à perfeição, meu amor. Ou você aprende a se controlar, ou eu acabo me acostumando, o que vier primeiro. Só não vou abrir mão de você...

Ele sorri e me beija com calma. Nos deitamos e ficamos abraçados até adormecer.

Meu noivo e minha primeira vez voluntária



Sorte ou azar, era mesmo o Dr. Lancaster de plantão naquela noite. Cuidou do Henry sempre nos enchendo de perguntas. Pediu licença a ele para me falar algo em particular.

Veio com o papo de que eu devia tomar cuidado que eu era “Maria” e que um anjo disse que ele devia tomar conta de mim e mais um papinho furado que se ele não fosse tão doido eu podia achar até que era cantada. Disse a ele que não queria saber e voltei para o quarto onde o Henry estava. ESTAVA...

Só encontramos as roupas dele e uns enfermeiros dizendo que ele tinha fugido. Como assim, fugiu??? Liguei para o Al, precisava de ajuda. Ele estava a caminho.

Saímos para procurar pelo Henry. Quando o encontramos não entendemos como ele andou tanto em tão pouco tempo, completamente nu. Mas o estado dele era o que mais assustava. Ele chorava, encolhido em posição fetal, como uma criança. Só permitiu que eu me aproximasse, ficava agressivo com qualquer outra pessoa. Consegui coloca-lo no carro e levar de volta para o hospital.

Ele precisava ser sedado para ser examinado e o idiota do Lancaster não me deixou ficar com ele. Mas de alguma forma ele conseguiu aplicar o sedativo e quando fui ver meu noivo novamente ele já estava dormindo.

Pela manhã Henry estava bem, acordado e não se lembrava de nada. Eu já havia falado com Jonothan, que esteve no hospital. Ele não conseguiu ao certo dizer o que havia com meu noivo, mas disse que conhecia alguém que poderia dizer. Apesar de não ser uma pessoa confiável e amigável, a Srta Archa Borlins saberia com certeza nos dizer o que estava acontecendo. Ele mesmo a pediu que fosse lá. Um pouco depois ela chegou. Muito bonita e altiva. Disse que Henry era um espírito antigo, primitivo, bestial, que estava despertando. E nos convidou para um chá na casa dela no dia seguinte, onde poderia nos dar mais informações a respeito disso tudo.

Dr. Lancaster nos disse que ele estava bem e não tinha ferimentos, mas não ia dar alta a ele. Pra piorar começou a insulta-lo, e disse que meu noivo era perigoso para mim. O cara já estava começando a me encher.

Enquanto o Henry se trocava no banheiro para irmos embora, o doutor veio dizendo que meu noivo era uma criatura primitiva, que não era como eu ou ele. Era algo diferente e perigoso. Que eu devia tomar cuidado, e claro, começamos a discutir. Então Henry fugiu de novo. Mais um ponto pro doutor!

Saí dali desesperada, sem saber pra onde ir. Fui pra casa e pela primeira vez, resolvi ir até o outro lado, tentar achar um meio para ajudar meu noivo.

Me concentrei e quando dei por mim, tinha conseguido. Chamei e ouvi uma resposta. De uma aranha... Pedi informação e o “espírito aranha”, como ela mesmo se denominava, disse que me ajudaria se eu prometesse respeitar a cidade em todas as suas formas. Concordei. Ah, como essa promessa ainda ia me irritar...

Depois de um tempo ela me trás a informação. De acordo com o que ela me descreveu, Henry estava na velha casa da família dele. A mulher que o atacou foi sutilmente chamada de “Fúria Viva” pelo espírito aranha, que também me disse que meu noivo era como ela. Fui até la, mas não pude fazer nada. Voltei para casa e esperei pela volta dele. Eu sabia que ele voltaria quando se sentisse seguro.

No meio da tarde ele voltou. Envergonhado, assustado. Disse que sentiu um ódio tão grande ao me ouvir discutindo com o médico que sabia que se não fugisse poderia machucar alguém. Disse que tinha medo de me machucar. Eu não ligava! Queria estar com ele, passar por isso com ele. Iríamos dar um jeito em tudo. Foi então que ele me contou das “alucinações”. Ele também conseguia andar entre os planos involuntariamente e não entendia nada. Expliquei a ele e tentamos nos acalmar.

Naquela noite Jonothan me disse que a mulher era conhecida por Amélia Sampaio. E disse que eu e Henry precisávamos de uma espécie de âncora que dificultasse nossas viagens. Sal ou ferro.
Encomendei duas pulseiras de ferro puro aos gêmeos do ferro velho. Assim que ficassem prontas, alguma parte do problema estaria resolvida.

Como eu queria estar certa...
 

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