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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Explicações complicadas...


Antes de sair de perto, Daniel me recomenda ficar de olho na garota, e diz que ela é perigosa. Ele vai olhar como está o engenheiro mecânico que ele encontrou e pretende que o homem nos ajude. O homem está “instalado” no contêiner onde Miguel acordou.. Ficamos apenas eu e o Sr. Hagis no contêiner. Ele não parece muito disposto a conversar, mas eu preciso saber...


-Sr. Hagis... Como pretende trazer Ascelus aqui?

-Não, Khodasevich... Eu analisei e acho que você ainda não está pronta para isso. Pode ser muito perigoso. Para você e para nós também. Melhor você se aprimorar mais antes de tomar um passo destes.


Ok, sem mais nada a dizer. O Sr. Hagis diz que vai até o convés e me pede para que olhe a Srta. Collins também. Tudo bem eu olho, mas eu não pretendo sair de perto do Aleksei.


Depois de algum tempo, escuto uma voz fraca vindo de trás de mim. Olho e vejo um homem na casa dos quarenta anos de idade, amparado por uma muleta improvisada e com alguns tubos e soros pelo corpo. Deduzo que esse é o engenheiro.


-Senhorita... Por favor...

-Sim, senhor...?

-Joseph... Estou muito assustado para ficar sozinho... Posso ficar aqui?

-Claro... É o engenheiro mecânico, certo? O que houve?

-Sim, sou eu... Um homem... Acho que é um demônio... Queria minha alma... Ele se diz médico... Você não é um também, não é? – me olha assustado.


Não posso acreditar... Daniel não faz IDEIA de nada sobre energia ainda e já esta por ai querendo fazer pactos com as pessoas normais... E se isso matar ou incapacitar essas pessoas? Maluco, sem noção... Respiro fundo e tento amenizar a situação.


-Não um demônio, mas ele também não é um. Somos pessoas com algumas... “Habilidades fora do comum” que requerem energia para serem usadas, e essa energia tem limite, acaba... Ele devia estar querendo um pouco da sua para repor a dele, mas não soube explicar.


Ele me olha bem desconfiado e não diz nada. Parece que acreditou apenas em parte, não sei dizer. E nem quero saber, já que Aleksei começa a dar sinais de estar acordando. Eu começo a passar a mão no cabelo dele, chamando.


-Al... Acorda... Já ta tudo bem, eu to aqui com você... Acorda, Mano...


Ele abre os olhos lentamente e começa a olhar em volta, meio assustado.


-Onde eu to, o que houve? To num hospital?? Fui baleado?? Cadê a Charlotte?

-Bom... Não sei como explicar. Estamos longe de casa, a Charlotte deve estar bem, e você está bem agora. Não foi baleado... Foi... Seqüestrado... – agora é a hora em que ele tem um enfarte.


Por sorte ele não tem, mas tenta se sentar mais rápido na cama, olhando assustado para mim e pro lugar.


-E você? Também foi? Onde estamos? Quem fez isso, e por quê??

-Calma, Al... Eu não fui seqüestrada... E você não vai acreditar em como eu vim parar aqui, então...

-Se você não contar não tem nem como saber se acredito ou não. – já me olha com aquela cara de bravo que eu conheço bem. Ajudando-o a se levantar, me lembro da Srta. Collins.

-Espera... Tenho que ver outra pessoa, que estava nas mesmas condições que você. – e vou até o contêiner onde ela estava, deixando meu irmão com o engenheiro.


Abro a porta e a vejo de costas, num canto do contêiner. Os cachos do cabelo louro escuro dela ainda estão impecáveis, mesmo depois de ter ficado deitada sobre eles tanto tempo. É uma mulher muito bonita, e pude notar que ela se preocupa em estar bronzeada e em manter a forma enquanto a vestia, momentos antes dela acordar (eu não ia deixar que um dos rapazes fizesse isso, já que não ia gostar se fosse eu no lugar dela). Ela percebe a entrada de luz e vira um pouco a cabeça para trás.


-Srta Collins?

-Quem é você?

-Você não me conhece. Sou Shantel Khodasevich.

-Ah... Outra Khodasevich.

-Conhece meus pais também? – surpresa, já que ela não parece ser da “geração” que conviveu com eles na cidade.

-Não... – responde, sem o mínimo esforço para esconder que mente. E ela continua. – Onde estamos? Como vim parar aqui?

- A caminho do Ártico. Não sei como você veio parar aqui, sei que foi seqüestrada. Já adianto que eu não tive nada a ver com isso, apenas resolvemos acordar você e os outros quando encontramos vocês.

-“Vocês”? Quem mais está aqui?

-Eu, Lancaster, Erick e Rodriguez, que suponho que você não conhece, e que vieram comigo. Além de nós, meu irmão, Miguel e o Sr. Hector Hagis, que estavam em contêineres como você.

-Se não foram seqüestrados também, como estão aqui?

-Um anjo nos trouxe.

-Um anjo... As crianças nem sabem onde estão se metendo... Hector e Miguel aqui? Isso vai ser interessante. – posso ver um sorriso irônico no canto dos lábios dela, já que ela ainda está de costas com o rosto pouco voltado na minha direção.

-Venha comigo, Srta. Collins. Preciso ver meu irmão.


Ela se vira e caminha até mim, calmamente e apesar de toda a situação, ela se mantém muito segura de si. Quando saímos do contêiner encontramos Lancaster, sério e tenso.


-Shantel!! Cadê o engenheiro??? Tem alguma coisa errada com ele!!!!

-Como assim, Daniel?

-O capitão matou TODO MUNDO do navio quando tava possuído por aquela coisa. Só poupou os que são nexus, mas o engenheiro disse que não era nada disso, que nem sabia o que era isso!! Porque ele estaria mentindo se não tivesse que esconder alguma coisa??

-Ele veio falar comigo, e ele ta com o... ALEKSEI!! MERDA!!


Saio correndo. PRECISO ver meu irmão.

domingo, 15 de novembro de 2009

Objetivos desconhecidos, descobertas inesperadas.


Lancaster insistia que fui eu quem havia feito aquilo, com as mãos mesmo, já que a espada me dava uma força sobrenatural, o motivo pelo qual eu cortei as dobradiças da porta daquela forma. Desiste de insistir nessa hipótese quando vê que para eu arrancar alguma parte de alguém eu precisaria usar as duas mãos, conseqüentemente, teria que largar a espada e assim me libertaria da dominação dela. Precisamos encontrar o Miguel. Eu preciso pegar a espada e a jóia. Espero que ela já esteja restaurada.

No caminho, o doutor me pergunta se eu me sinto bem, já que estou muito pálida. Digo que não e o faço me contar o que ele sabe sobre meu estado que eu não sei, já que eu notei como ele me olha desde que acordei. Ele me conta que a mulher dele tinha os mesmos sintomas que eu tinha e morreu dessa doença misteriosa. Com a diferença que ela demorou quatro semanas para chegar ao estagio que eu estava e completa dizendo que se a doença continuasse avançando com a rapidez que estava, eu tinha umas duas horas de vida. Bom... Pelo menos eu teria tempo pra salvar meu irmão. Lancaster para de andar, pensativo. Me analisa com os olhos e me diz pra eu me concentrar em curar meu sangue. Diz que antes ele não conhecia esse “lado” das coisas e acha que assim eu posso me curar mesmo que momentaneamente. Funciona. Me sinto bem melhor e eles dizem que aparentemente estou ótima. Mas a sede volta a surgir. Fraca, mas volta.

A jóia ainda está meio gelatinosa onde estava separada e já não parece uma rosa, mas vai ter que servir assim mesmo. A coloco no bolso. Com a espada enrolada no couro, vou atrás de Miguel com os rapazes.

O encontramos lutando com o capitão do navio, que há algumas horas atrás não se mantinha em pé sem apoio mas agora exibe uma agilidade e força invejáveis. Notamos que os olhos do capitão estão completamente negros. É ele quem eu tenho que deter com a pedra. Mas Daniel atira nele e o mata antes que eu faça qualquer coisa. É quando algo estranho acontece.

Da boca, olhos, nariz e ouvidos do capitão sai uma fumaça negra. Lancaster e Rodriguez saem correndo em direção aos porões onde estão os contêineres. A fumaça entra em Miguel e os olhos dele ficam negros. Erick se coloca entre mim e Miguel e é atacado.

Eu descubro apenas a lâmina da espada e a empunho na direção de Miguel, enquanto evoco o poder da jóia sem sucesso. Ele e Erick começam a brigar. Eu não entendo como o Erick consegue agüentar o Miguel, mas ele está dando conta. Acerta Miguel várias vezes, o deixando tonto. Depois de algum tempo Miguel domina a situação segurando Erick pelo pescoço. Eu evoco o poder da jóia mais uma vez, mas nada acontece. Erick luta para se libertar por alguns momentos, mas não consegue. Então escuto o pescoço dele estalar e o vejo parar de se mover. Miguel larga o corpo inerte de Erick e me olha com aqueles olhos negros. Ainda evocando a jóia e segurando a espada, tento me defender. Não quero usar a espada nele porque pode matá-lo, mas se eu usar a pedra, pode ser que ela mate apenas o que está dominando Miguel.

Ele bate com o braço na lâmina da espada e se queima muito, além de quase deslocar meu ombro já que eu não soltei a espada. Nervoso, bate o outro braço, tentando tirar a espada do caminho para me matar. Se queima de novo, tão gravemente quanto antes. Eu ainda evoco a jóia, já acreditando que ela não está em condições ainda de fazer o que ela deveria.

Nesse momento escuto tiros vindos de trás de mim, que acertam Miguel. Olho rapidamente por cima do meu ombro e vejo Lancaster com uma arma na mão, Rodriguez de olhos arregalados e Hector Hagis de expressão impassível, olhando a cena. Lancaster atira de novo e derruba Miguel. A mesma fumaça negra sai de Miguel e eu corro na direção dos três que estavam atrás de mim, na tentativa de não ser a próxima dominada por ela. Hector fecha os olhos, estende apenas os dedos na direção da fumaça e diz algo como “Retribuição”. Um raio atinge a fumaça, enfraquecendo-a. Eu paro de correr, estendo a jóia na direção da fumaça e com ela enfraquecida, o rubi faz seu trabalho. Ele emite uma luz avermelhada e a fumaça que parece ter vida, se movendo como um bicho capturado que tenta fugir é atraída para a jóia, se tornando avermelhada à medida que se aproxima até ser absorvida pela pedra, que nesse momento volta ser rígida como antes, mas que deixou de ser uma rosa.

Corremos para socorrer Erick e Miguel. Os dois estão vivos. Os acomodamos em um quarto, depois que recobram a consciência, para se recuperarem.

Explicamos ao Sr. Hagis tudo que sabemos até agora sobre estarmos ali, sobre o navio e sobre as pessoas que estão na mesma situação que ele estava. Explico a ele da outra memória em que eu o procurei e digo o motivo. Ele olha sempre com a mesma expressão altiva e inabalável, firme. Parece mesmo conhecer meus pais. Quando digo que uma das pessoas num contêiner é meu irmão, ele olha sério e nada surpreso dizendo em seguida em um tom calmo, quase entediado:

-Mais uma vez, dois Khodasevich.
-Então conhece mesmo meus pais? Eles já estiveram aqui? Bom, não aqui, mas com vocês?
-Não conheço outro casal com esse sobrenome. – ele responde, como se eu tivesse perguntado se ia chover num dia de céu carregado. Exatamente como na minha memória. Mesma personalidade.

Ele me explica em seguida que sou uma nephalin, um tipo de nexus que tem a capacidade de se lembrar de todas as vidas passadas e até de evocar habilidades delas quando necessário.

Ele diz que sabe o que estão desenterrando no Ártico. Um portal pro inferno. Cara, com a calma que ele fala parece até que estão desenterrando uma cápsula do tempo do jardim de infância de 1954. Parece que NADA é capaz de surpreendê-lo. O tipo de pessoa que tenho medo de ver realmente irritada, porque parece não sair do sério tão fácil, SE sair. Sugere que simplesmente deixemos o navio passar por cima de tudo, assim, normal. Com menos emoção ainda do que eu e o Al quando crianças, queríamos irritar um dos nossos vizinhos chatos, dizíamos: “vamos passar de bicicleta por cima daquele saco de folhas secas pra sujar todo o gramado dele de novo!”.

Ainda sem ter certeza de como impedir que desenterrem o portal, decidimos acordar a todos. Enquanto os homens saudáveis descem para adiantar o processo, vou buscar roupas quentes para meu irmão e para a mulher. Aproveito e troco as minhas por outras limpas.

Mesmo sem saber ainda se Aleksei é ou não um nexus, vamos acordá-lo. Será mais fácil mantê-lo vivo se ele estiver consciente.

Enquanto esperamos que ele acorde, Sr. Hagis me pergunta sobre a vida mais poderosa que eu me lembre. Falo um pouco sobre Ascelus. Ele me olha sério e diz:

-Então vamos ver se essa noite conseguimos trazer uma deusa à terra.

domingo, 11 de outubro de 2009

Pequena mudança de planos


Mais uma vez, sangue colhido. Aviso a Stuart e ele diz que vai tentar resolver.

Voltamos a falar sobre a peça que Lancaster recebeu, e que me mostraram na sala dele quando Aleksei saiu. A peça brilhava se fizéssemos ela rodar, mas somente quando Aleksei não estava perto, o que o deixou ainda mais incrédulo com tudo. Era uma placa de metal com apenas uma inscrição semelhante à da Bebedora de Alma. Não fazíamos idéia do que era aquilo.

O resultado ainda não saiu. Aleksei foi pra sala dele, está muito tenso para conversar. Erick e Lancaster vão almoçar, mas eu não quero comer. Vou correr.

Algumas voltas no quarteirão, percebo que eles terminaram de comer. Me aproximo e me sento à mesa com eles, pedindo uma água. Falamos sobre o que fazer se Stuart (que eles não sabiam quem era, pois tomei cuidado de não dizer o nome dele em nenhum dos telefonemas) não conseguisse trocar os resultados. Até que Dr. Lancaster surta (até então ele parecia alguém normal). Ele colocou as mãos nos ouvidos, como se ouvisse um som muito alto. Depois de um tempo, para e fica olhando um ponto fixo, falando com o nada. Nos olha e pergunta se estamos vendo. Estende a mão e pega algo no ar, invisível, e coloca no bolso. Mais uma vez, parece escutar algo muito alto. Para, nos olha e diz:

-Vocês viram o anjo??
-Tá maluco??? Que anjo??
-Que me deu isto aqui. Disse pra você usar, Shantel. Diz que isso ajuda a mudar a opinião dos homens.

E me entrega, simplesmente, a Rosa das Emoções, o colar de rubi lapidado em forma de rosa que eu havia visto no leilão e que havia sido ROUBADO de lá.

-Lancaster, COMO você conseguiu isso aqui? – escondo a jóia como consigo em minha mão. – Isso foi roubado da casa Holtz! E... Deveria ser destruído!

-O anjo que me disse que você é Maria acabou de me entregar e disse que se você usar enquanto conversa com seu irmão, ele muda de idéia.
-Claro, eu vou entrar com um colar roubado e uma blusa de ginástica numa DELEGACIA!
-Toma minha jaqueta...

Lancaster me empresta a jaqueta dele e enquanto a coloco, Erick esconde o colar com muita facilidade em apenas umas das mãos. O próprio Erick se inclina na minha frente para eu poder colocar o colar sem que ninguém veja. Assim, vou até meu irmão.

-Al...
-Que foi Shantel? – sem me olhar.
-Al, desculpa... Eu sei que não ando bem, mas não tinha necessidade disso...

Ele levanta o olhar para mim, e a expressão dele muda. De tensa, brava, volta à expressão do irmão amável e carinhoso.

-Você que achou que eu estava bravo e trouxe o pavê! Que, aliás, não sei por que, mas te perdôo... – ele diz sorrindo, mostrando o doce sobre a mesa.
-Ah, toda essa história da Anikka... Às vezes eu surto mesmo... Mas não precisava ter pedido exames dos meus amigos que tentam me ajudar, só porque são médicos, né?
-Exames?? È mesmo! Nossa, onde eu estava com a cabeça... Vou buscar os resultados, espera...
Eu não posso acreditar... Funcionou!! Ele volta com os resultados em mãos... É agora...
-Parabéns, maninha!! Como uma boa garota! Tudo em ordem, para todos vocês! Como recompensa, o doce é todo meu!

Rio, dou um beijo em meu irmão e saio dali. Não posso acreditar!

Aviso aos meninos que funcionou tanto o colar, quanto a troca dos resultados. Combinamos de nos encontrar em minha casa para que pudessem ver a espada, depois que eles buscassem a garota na casa do médico. Lancaster me pede de volta o colar. Não, não vou devolver. Fui eu quem criou e já que pode ser útil, que fique comigo.

-Você queria destruir o colar, agora quer ficar com ele?

Olho com o canto de olho para Erick. Me volto para Lancaster, ainda usando o colar.

-Que colar?
-Hein?? Do quê você está falando?
-Do que você deixou comigo! Não vou devolver!
-Vai devolver minha jaqueta sim! – ele responde, me olhando.

Ótimo! Erick apenas ri, enquanto eu resisto à tentação de dizer ao doutor que ele era gay e havia se apaixonado perdidamente pelo meu irmão. Mas Aleksei não ficaria feliz com isso...
-Em casa te devolvo, doutor... Quando você for ver a espada, ok?
-Acho bom!

Seguimos, cada um para seu caminho. Vou esperar os três lá, depois de ligar para Stuart.
-Acho que você está me devendo uma visita, gata!
-Claro! Passo aí hoje à noite, pra ver como você está... Você foi brilhante!
-Eu SOU brilhante! E estou precisando de uma enfermeira...
-Claro! Termino de resolver umas coisas, tomo um banho e te ligo! Brigada, gato! Salvou minha pele!
-Disponha, gata! Mas nada é de graça...
-Te pago assim que nos vermos, ok? Beijos!
-Beijo!

Saio do carro já estacionado na minha garagem. A primeira coisa a fazer é enrolar o colar num lenço, com cuidado, colocar dentro de uma fronha de travesseiro bem macia e esconder no fundo de alguma gaveta. Ótimo. Agora a maldita espada suja de sangue. COMO isso foi acontecer?

Péra!! Cadê a porcaria do sangue que tava aqui??? O lençol ficou no meu carro!

Limpo também! COMO??

Ah, já não sei de nada! Deixo a espada ali mesmo, sobre a cama, enquanto tento entender o que está acontecendo. Os caras estão demorando pra caramba! O jeito é esperar...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mudança para Londres e adaptação







Finalmente!!! Dezoito anos! Finalmente vou morar com meu irmão em Londres, onde vou fazer faculdade e trabalhar.

Deixar meus pais foi difícil, mas era tão bom saber que eu iria pra perto do meu irmão e seria mais independente, mais livre... Tive todo o apoio da família toda. Tanja estava eufórica! ela sabia que apesar da distância que nos separaria, seria o melhor pra mim. E ela teria uma amiga pra fazer companhia sempre que fosse à Londres.
Fui morar no apartamento do meu irmão, claro. Ele já estava estabilizado na polícia londrina e tinha um bom apartamento. Ele tinha conseguido inclusive uma sala para mim, para que eu desse aulas de sambo e de música. Meu pai já tinha acertado as minhas faculdades, Música e Educação Física. Passaria o dia estudando entre os dois cursos que pra minha sorte eram no mesmo campus, e daria minhas aulas à noite.
E foi assim. Tive um pouco de dificuldade com o inglês na prática mesmo, ficava nervosa com tantos olhos na minha direção enquanto eu falava. Foi no curso de música que conheci Charlotte, Marrie e Carlos. Charlotte era inglesa mesmo, e logo mudou para o curso de Artes. Marrie, francesa, se mudou ainda criança para a Inglaterra. Carlos, assim como eu, era imigrante espanhol, queria estudar e melhorar de vida. Elas nos ajudavam com o inglês, eu os ajudava com o instrumento que precisassem. E no curso de Educação Física, conheci Black Dog (chamá-lo de Theodore é arrumar confusão), que me apresentou o Henry. Formamos todos um belo grupo.
Logo eu e Henry estávamos namorando. Tive muita dor de cabeça com as ex dele que não largavam a gente em paz. Mas ele sempre deixou claro que me amava, e com isso me deixava segura. Claro, Aleksei implicou, brigou, bateu nele, apanhou dele, proibiu o namoro, mas nada deu certo. Até que desistiu e viu que o Henry era o cara certo. Passaram a ser ótimos amigos depois de algum tempo.
Nos formamos na faculdade, todos no mesmo ano.

Aleksei se apaixonou por Charlotte. Dessa vez eu nem podia ter ciúmes. Minha melhor amiga, ele escolheu bem e afinal de contas, ela ajudou e muito para o Al aceitar o Henry. Meu irmão se casou com Charlotte depois de três anos de namoro, quando eu fui morar sozinha num loft ao lado da academia e da escola de música que havíamos montado em Londres. Um amigo russo veio de lá trabalhar conosco dando aulas de sambo e a turma da faculdade me ajudava na escola de musica. Black Dog ficava na academia, claro.

Foi assim que me estabilizei aqui. Criei raízes, por assim dizer... Por isso digo que amo esta cidade, e não saio daqui...

Alguns fatos da minha infância e adolescência...

Quando criança queria sempre ajudar a tudo e todos. Perdi as contas de quantos bichinhos levei para casa para dar comida e proteger do frio. Minha mãe brigava enquanto meu irmão tentava me ajudar e meu pai tentava convencê-la de que eu era apenas muito sensível, que logo ele levaria o animal para algum abrigo, que esperasse só um pouco para eu me sentir útil, com a “missão cumprida”. Por isso chegamos a ter sete cachorros e quinze gatos em uma determinada época. Depois meu pai realmente os levou para algum abrigo. Só tínhamos mesmo como nosso, um golden retriver marrom chamado Loop e uma gata vira latas que resistiu à implicância de minha mãe e a conquistou no dia que matou uma enorme ratazana da estufa que ela mantinha na nossa casa, a Lilly. Loop morreu pouco depois que me mudei para cá, de velhice mesmo. Lilly sumiu da nossa casa há alguns anos.

O apelido familiar de minha madrinha foi dado por mim, aos três anos de idade. Minha mãe me contava, em suomi, a história da “Branca de Neve e os Sete Anões”. Quando ouvi a descrição da protagonista, disse: “Igual à dinda Mah, mamãe!”. “Lumikki” significa “Branca de Neve” em suomi. Ela é chamada assim até hoje, por todos da família.

Foi Lumikki que me ensinou os primeiros acordes. Eu tinha apenas três anos e ela dezesseis quando percebeu meu interesse e resolveu que eu seguiria os passos dela na música. Nas minhas férias na Finlândia, na casa de uma tia da minha mãe pois minha avó já havia falecido, junto à minha madrinha comecei a estudar teclado, canto e violão. Anos depois Lumikki inicia uma banda e eu praticamente cresci ali, no meio deles. Brincava durante o ensaios e me tornei a mascote da turma. Quando a banda começou a fazer sucesso mundial, eu não acreditei! E foi dali que saiu meu primeiro namorado e noivo (ok, acho que se um dia encontrar outra pessoa, pulo a parte do noivado...), Samuli, o tecladista da banda, treze anos mais velho que eu. Ah, depois penso nisso...

A partida de Aleksei para Londres foi muito dolorosa para mim. Cheguei a ficar doente. Na época em que comecei a praticar sambo foi muito mais para ficar perto dele que por qualquer outro motivo. Só com o tempo aprendi a amar o esporte. Como eu ficava nervosa quando quebrava algum dedo e não podia tocar. E nossa, como eu já me quebrei toda nesse esporte. Ninguém acreditava que eu fosse mesmo capaz de continuar e gostar de sambo. Só o Al. E “perder” meu irmão aos doze anos não foi fácil. Mesmo sabendo que ele voltaria sempre para nos visitar, pra onde eu correria se tivesse algum pesadelo? Quem me buscaria nas festinhas, quem me ajudaria a esconder as coisas erradas que eu fazia dos meus pais (ok, essa parte podia até ficar com o meu padrinho Max, mas ele não morava na nossa casa, era mais difícil). Metade da minha base de vida foi pra Londres com meu irmão. E por mais que eu amasse meus pais, não via a hora de poder correr pra perto do Al.

Aleksei Verkko Khodasevich


Meu irmão, amigo, cúmplice, porto seguro. Desde sempre. Ele é seis anos mais velho que eu, e sempre cuidou de mim. Apesar de muito ciumento e superprotetor, sempre fiz questão de que ele fizesse parte da minha vida.

Quando eu era criança e tinha algum pesadelo, não era pra cama dos meus pais que eu corria, não eram eles que eu chamava. Era o Al. Era pra cama dele que eu corria, e dormia agarrada ao meu irmão, que mesmo sendo criança como eu, me dava toda a segurança de que eu precisava.

Brigávamos, claro, mas nunca demoramos mais de cinco minutos para resolver tudo e voltarmos a ver TV juntos.

Extremamente organizado, ficava bravo quando eu bagunçava as gavetas de meias e cuecas dele. E eu fazia isso sempre que ele saía com alguma namorada nova. Não que ele perdoasse algum namorado meu. TODOS apanharam dele. O único que conseguiu não se machucar muito e depois de um tempo conquistar a confiança e até a amizade do Al foi o Henry, já em Londres. E só deu conta porque joga rúgbi, estava acostumado com isso...

E teve até um episódio em que uma das namoradas dele apanhou de mim. Ainda na Rússia. Ele namorava a garota da minha escola, três anos mais velha que eu, quando se mudou para Londres, mantendo o namoro. E um belo dia, numa festa da escola eis que vejo a cretina escondida em um canto, aos beijos com um carinha da sala dela. Foi só eu me aproximar e o cara sumiu, deixando ela sozinha com toda a raiva que eu estava sentido. E ela ainda se sentiu no direito de me MANDAR não contar pro Aleksei. Não vi mais nada. Abri o supercílio e cortei a boca dela aos socos, das aulas de sambo que eu fazia há dez anos. E MANDEI ELA ficar calada, não contar a ninguém o que eu tinha feito, e principalmente o que ela tinha feito ao meu irmão. Acho que ela entendeu o recado. Terminou com ele sem mais explicações e sumiu das nossas vidas. Ele ficou muito mal na época, mas eu sempre o apoiei da forma que pude. Tanja tentava nos ajudar também, e era a única pessoa que sabia do ocorrido . E ele nunca soube dessa história, nem mesmo por mim.
 

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