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sábado, 3 de outubro de 2009

Surpresas


As aranhas me ajudam mais uma vez a encontrar quem eu preciso. Amélia está ferida, escondida em um parque se recuperando. Pulo o portão do parque para encontrá-la, mas ela me encontra primeiro.

-Veio zombar de mim, boneca dos espíritos?
-Não, Amélia. Vim dizer que Henry precisa de você.
-Henry? Quem é esse?
-Você não se lembra?? Ele é um dos seus, você cuidava dele!
-Não. Eu não cuido de ninguém, sou solitária. Não existem filhotes perdidos.
-Ok, manipularam a sua memória também. Saco, não acredito nisso!
-Vocês não têm capacidade pra isso. Não existe nenhum filhote perdido.
-Então procure por um. Henry Thompson. Infelizmente não sei mais onde ele mora, mas acho que você tem seus meios para encontrá-lo. E me encontrar quando descobrir a verdade.
-Quando descobrir a verdade, as vísceras de quem devem ser expostas para que tudo volte ao normal?
-Não sei se isso resolveria. Pode acabar fazendo com que tudo fique como está permanentemente. Não sei ainda como resolver. Quando descobrir, me encontre e a gente vê o que fazer.
-Com esse cheiro vai ser fácil, boneca dos espíritos.
-Precisa de ajuda?
-Nunca precisei.

Volto pra casa. Tenho que rever as partituras, as letras... Mas nada ainda faz sentido... Fico ali, olhando... Já são duas e meia da manha, e nada ainda. Quando o cara dos computadores me liga e diz que terminou o serviço eu nem acredito. Corro até lá para ver o que eu descobri.

Ele me explica que não foram sites visitados e sim uma troca de emails com alguém que com certeza, não seria possível encontrar com o endereço de IP do servidor. Era alguém que sabia se esconder. Eu havia pesquisado muita coisa nesse sites de busca comuns, era só o que eu poderia fazer. Até receber o primeiro email dessa pessoa, que não era lá muito gentil.

“Vc ñ vai axar nd do q procura nesses sitezinhos d busca. Idiota.”

“Qm é vc? Como sabe o q eu to procurando?”

“Alguém que sabe + de pc q vc. E t digo, vc ñ axa nd assim”

“Como eu acho entao?”

“Isso é coisa pra falar pessoalmente. Ñ é assim ñ.”

“onde?”

E tinha um endereço lá, com uma data para o encontro, que já tinha acontecido há algum tempo. Resolvo mandar um outro email para aquele endereço.

“Ei, preciso falar com vc. Te acho no mesmo lugar?”

Quase instantaneamente a recebo a resposta.

“Cmo assim? Do nada? Qual é a senha?”

“Ando com um probleminha de memória. Por isso preciso te encontrar. Quero saber o que a gente conversou aquele dia.”

“Se vc ta com problema de memória, como vou saber que é vc?”

“cara, vc me conhece. Eu não to lembrando de NADA, mesmo.”

“e se a única coisa que vc se lembra é que quer me matar?”

“Eu não sei o que eu almocei ontem... Sério.”

“Então vc precisa de uma boa refeiçao. Vai na rua Bedford, nº 2541. Dizem que a comida é ótima. Deve ta fechado, mas quem sabe num abrem pra vc?”

“que comida o q, quero resolver minha vida. Apagaram minha memória, apagaram a memória do meu noivo, eu to ferrada. Não é d comida q preciso.”

“eu tenho uma solução pra isso. Quase uma pílula d dia seguinte, saca? Vai por mim, uma boa refeição é o melhor a se fazer agora... vai nesse endereço q t dei e vc vai sacar.”
“ta, né. Vou lá. Bom, sabe q eu num to no meu pc, então sinta-se a vontade pra apagar o q quiser sobre essa conversa daqui.”

“ok.”

“brigada”

Não obtive resposta. Faço o cheque, mas só pego o note amanhã porque o cara ta sem o HD novo que preciso. Vou pro tal restaurante.

Chego e bato na porta, esperando. Da janela, algúem responde:

-Bom, estamos fechados. Desculpe.
-Eu preciso comer... Desculpa... Não tem como abrir rapidinho, por favor?

Quando consigo ver quem estava ali não acreditei. Jacqueline WhiteWood. A mesma que salvou o Henry há... Bem... um mês.

-Jacqueline WhiteWood? Não me reconhece?

Ela me olha e quando me reconhece, desce e abre a porta. Lá dentro, enquanto ela me convence a realmente comer alguma coisa e prepara uma lasanha, eu vou explicando tudo o que houve. Digo que até cogitei a hipótese de procurá-la, mas achei que ainda não era a hora, que estava ali por acaso, que algúem com quem eu havia conversado dias atras me disse para ir lá dando apenas o endereço, sem falar quem eu encontraria ali.
Ela disse que conversaria com Tajana e veriam se seria apropriado que elas intervissem. Me explicou das conseqüências de se apagar uma parte do tempo, que as coisas importantes e boas que foram feitas naquele período poderiam nunca mais existir. Eu sabia de tudo aquilo, por isso não as procurei no início do dia. Me disse que eu saberia a posição delas, quer fosse acordando no passado ou por um telefonema explicando que não poderiam me ajudar. Eu entendia, de verdade.

Voltei para casa. Precisava continuar revendo as partituras, precisava descobrir o que tava ali, bem na minha frente e que tava sendo o motivo da minha vida virar de pernas pro ar.

Comecei a tocar uma delas, tentando achar sentido. Foi quando escutei a voz de Chambers me perguntando se eu tava bem. Ignoro. Ele insiste. Eu pergunto, nervosa, se ele podia me deixar em paz, quando começo a me sentir tonta, muito tonta. Fecho os olhos para tentar amenizar a sensação. Ligo pro Al, peço pra ele ir lá.

-Quem é Al? Ele pode te ajudar? – pergunta Chambers.

Então abro meus olhos. Estou de volta no leilão. Mesma roupa, mesmas pessoas me olhando sentada numa cadeira, Chambers à minha frente, como se me ajudasse. A tontura passa. Meu celular marca dia 18 de março de 2008. Será que as WhiteWood já reverteram tudo???

Ligo pro Al e digo que estou bem, melhorei, foi só uma tontura forte. Ele não se contém e diz:

-Shan, fala sério... Tá saindo com algum carinha que não presta, né?
-Que cara, Al! O Henry não é tão liberal assim!
-Ué, pensei que vocês já tinham se acertado a esse respeito. Ou vocês voltaram e não me contaram?

Como assim, “VOLTARAM”?? Olho meu dedo. Nem marca da aliança tem.

Saio dali correndo pra casa, na medida que o limite de velocidade permite. MALDITO ACORDO!

Lá, não acho nada do Henry. Só no fundo do meu armário, uma caixa pequena com o nome dele escrito e alguns poucos objetos sem importância dentro.

Só podia chorar. De raiva, desespero, medo, impotência, por medo do que me tirariam no dia seguinte. Adormeci...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Meu primeiro porre


Apesar de tudo, era sempre bom estar com o Henry. Parecia que tudo que nos acontecia de ruim só servia para fortalecer ainda mais nossa relação. Ele estudava como sair do time de rúgbi antes que matasse alguém, então havia tirado licença médica.

Na manha seguinte, tentamos mais uma vez e o resultado foi o mesmo. Eu saí correndo. Quando procurei pelo Henry, ele estava sentado no jardim, enrolado em um lençol, abatido. Vesti meu hobby e fui até ele. O abracei e disse que as coisas iriam se acalmar, que eu não ia desistir dele e não permitiria que ele desistisse de nós. Nos beijamos e ele resolveu ficar estudando Yoga enquanto eu trabalhava.

Nesse dia em questão, por volta das sete da noite, eu voltava das minhas aulas na escola de música e ouvi um barulho. Corri para o andar de cima do loft e vi um homem muito estranho, com roupas de couro de vários animais costuradas à mão, barba por fazer e uma faca artesanal atacando o Henry, que se defendia e atacava também. Eu já sabia que meu noivo tinha capacidade de se regenerar, era parte do que ele era, mas não podia deixar isso acontecer. Tentei investir contra o homem, mas aquele maldito medo apareceu e me fez esconder dentro do armário de vassouras, abraçada ao Baruk, que desde que o Henry se tornou o que ele é, andava muito triste e sempre se escondia pelos cantos da casa.

Corri até meu quarto e o homem ainda estava lá. A casa estava toda destruída, meu noivo coberto de sangue, imóvel, deitado na cama. Então o homem se virou pra mim. Fugi para a rua e o cretino pula da minha janela bem na minha frente. Volto correndo e tento sair pelos fundos, pulando o muro. Vou até um telefone público e ligo para o Aleksei, digo que fomos atacados por alguém e que o Henry precisa de ajuda. Ignorando a ordem expressa do meu irmão, voltei ao loft. Tentava de todas as formas estancar o sangue de Henry e não entendia porque ele não estava se curando. A ambulância chegou e fomos para o hospital.

Ele foi direto para cirurgia. Horas e ninguém se manifestava. Até que meu irmão decide descobrir o que estava acontecendo. Quando ele volta, volta com os olhos marejados e me abraça forte, dizendo que sentia muito. Empurro meu irmão e vou ate a sala pra onde levaram o Henry a tempo de ouvir o médico dizer “hora do óbito: 03:42 da manhã”.

Não!!! Não!!! Isso não estava acontecendo!!

Os médicos simplesmente saíram da sala, me deixando ali com ele. Entendiam e já até deviam estar acostumados a uma cena daquelas.

Eu gritava com ele, batia nele, não podia permitir que ele me deixasse também. Era injusto. Foi quando notei que ele estava duro demais. O lençol que cobria parte do corpo dele não se movia, estava rígido e não importava o quanto eu tentasse movê-lo. A porta entreaberta simplesmente travou. Tudo parecia de pedra e estava estranhamente silencioso.

Escutei passos no corredor. Duas mulheres entram no quarto onde eu estava. Se identificaram como as irmãs Jacqueline e Tajana WhiteWood. Disseram que assim como eu, também possuíam habilidades especiais. Enquanto Jacqueline conseguia parar o tempo, Tajana tinha capacidade de voltar no tempo, apagando o período do tempo que precisa ser "refeito".

Pelo que entendi a morte do Henry teve consequências em todo o mundo. Aquela história do bater de asas de uma borboleta... Somente eu me lembraria do que aconteceu, para que pudesse evitar.

Tajana estendeu a mão para o alto e a realidade pareceu queimar, derreter. Sem perceber, voltei ao momento da manhã, onde eu e Henry estávamos sentados no jardim.

Ele não entendeu porque eu chorava e o abraçava daquela forma. Pedi a ele que me tirasse dali, que fossemos para algum lugar longe de tudo, para ficarmos sozinhos. Passei minhas turmas do dia para o pessoal da academia e da escola de música. Mesmo sem entender ele arrumou tudo e nós fomos viajar.

Paramos num hotel em NewCastle. Nos hospedamos e fomos para o bar. Resolvi beber pela primeira vez na minha vida. Ele já estava costumado. Até experimentei um cigarro, mas me engasguei com a fumaça e desisti. Tudo era motivo para riso naquele dia. Bebemos tanto que eu nunca me lembrei o que houve em boa parte daquele noite. Nos divertimos muito, rimos muito. No dia seguinte algumas pessoas nos cumprimentavam e nos chamavam pelo nome, mas não fazíamos idéia de quem eram. Só ríamos com toda a situação.

Claro, mais uma tentativa frustrada. Eu acabava sempre cedendo ao medo e fugindo, para voltar logo em seguida pros braços dele e ficar ali, quieta, tentando convecê-lo de que ele ia se controlar.
No fim do dia voltamos pra casa. Eu e meu noivo, juntos.
 

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