
Chegamos em casa no tempo certo de eu me arrumar e ir ao leilão da srta. Borlins. Henry não ia por motivos óbvios, caberia somente a mim sorrir e fingir de boa moça. Então eu coloquei um vestido longo, vinho, justo até os quadris, onde se alargava levemente, com uma echarpe preta cobrindo os ombros. Brincos, anéis e gargantilha prateados, com os cabelos presos num coque frouxo.
Chegando lá, um manobrista pegou meu carro e eu entrei calmamente. Ganhei um catálogo das peças que seriam leiloadas.
Quadros, estatuetas, jóias... Um bracelete lindo, de prata... Wow! Que colar é esse??? Uma rosa lapidada num rubi, maravilhoso! Mas pera... Um rubi INTEIRO??? Eles lapidaram essa rosa NUM RUBI SÓ??? Lance inicial... Ok, desisto. É, isso aqui vai ser chato mesmo.
Ah, ela tá ali. Vamos acenar para a srta. Borlins ver que eu aceitei o convite dela, sorrindo... Isso... Sorte ou azar, ela tá rodeada de gente, eu não vou conseguir nunca falar com ela. Opa, leilão começando, hora de entrar na sala.
Que coisa estranha... A energia do lugar parece quase palpável, se move... Na direção daquele cara da primeira fileira. É, ele me viu olhando pra ele e sorriu pra mim... Vai começar o leilão.
Ah, que saco... Como demora... Vou mandar mensagem pro Henry. "Isso aqui tá um saco. Tô na 1 sala, são 6. Cada sala leiloa por sessão 10 peças. Tamos na 9 peça daqui, nessa sala há 40 min. Imaginou q horas chego, né? Te amo. Bjos"
Ufa! ainda bem que coloquei no silencioso. Resposta dele. "Precisa que te tirem daí? Tô indo. Tbm, bjo."
"Ñ preciso!! Pode deixar! Bjo"
"Ok. Bjo"
"Henry!! O q vc vai aprontar? Sério!"
"Sério. Nada. Bjo"
Aiaiai... Ele VAI aprontar... Pelo menos esse martírio acabou. Só faltam mais uns cinco, SE eu ficar até o final... Hora de circular e tentar cumprimentar a srta. Borlins. Quem sabe beliscar alguma coisinha do bufett, ter idéias para o cardápio do casamento...
O tal cara vindo em minha direção com duas taças de champagne... Henry, por favor, não chegue agora...
Até explicar metade desse povo já vai estar morto...
Até explicar metade desse povo já vai estar morto...
-Oi! Eu não te conheço de algum lugar? - ele diz enquanto me oferece uma das taças.
-Não sei... - pego a taça, só pra não ser rude.
-Bom, ando com a memória ruim. Se eu morasse aqui acharia que você é uma das minhas alunas. Desculpe, não me apresentei. Robert Chambers. - estende a mão para mim, que o cumprimento.
-Shantel Khodasevich. Prazer!
-Khodasevich... Não me é estranho... Você também não é daqui, certo?
-Shantel Khodasevich. Prazer!
-Khodasevich... Não me é estranho... Você também não é daqui, certo?
-Não, sou russa. Esse sobrenome é do meu pai, Isaack Rainer Khodasevich. Engraçado porque as pessoas costumam se familiarizar com o sobrenome da minha mãe, Verkko.
E a conversa seguiu esse ritmo trivial, tranquilo... Só não comentei o fato de que achei MUITO estranho mais uma pessoa se "lembrar" do sobrenome dos meus pais. Tá cada vez mais e mais estranho... E lá vamos nós, pra outra sala. Dessa vez aquele colar perfeito vai ser leiloado. Esse eu quero ver.
O colar está lá, bem à minha frente... Muito mais bonito que na foto do catálogo, sem palavras. Sim, eu queria aquela peça...
Ei... O que é isso... Que vertigem é essa, eu nem bebi nada... Esse som ao fundo parece meu despertador. Ai, tá escurecendo tudo...
Como assim???? Meu despertador?? Meu QUARTO??? COMO ASSIM???
-Henry!!! Henry!!! Acorda!!
-Shan?? Que foi tá tudo bem?
-Como eu vim para aqui?? O que tá acontecendo?
-Como assim, você tá bem? Você foi parar aí como sempre, ué... Não tô te entendendo...
-O leilão!!! Eu tava no leilão!!
-O leilão!!! Eu tava no leilão!!
-Ah... Sonhou com ele? Mas já faz tempo.
-Tempo??? Que dia é hoje?
-17 de abril. Tá tudo bem?
-17 de abril. Tá tudo bem?
-17 de abril?? COMO ASSIM?? O leilão foi dia 17 de março! Um mês! Eu perdi um mês?
-O quê? Do que você tá falando?
-Eu não me lembro de nada, Henry. NADA, desde o leilão! Eu tava lá, fiquei tonta e apareci aqui!
-O quê? Do que você tá falando?
-Eu não me lembro de nada, Henry. NADA, desde o leilão! Eu tava lá, fiquei tonta e apareci aqui!
-Tá falando sério?
Sim, eu amo o Henry, mas às vezes ele me deixa nervosa. "não, não tô falando sério, tô fingindo todo esse desespero." Preciso saber o que eu fiz esse tempo, pra saber porque fizeram isso comigo...
EI!!! O cara do leilão! CHAMBERS! A Archa me falou dele, das memórias! Filho da *&##$%$, sem mãe. Eu MATO ele... Assim que descobrir como chegar perto dele sem esquecer até que eu existo.
Henry me disse que eu fiquei bem misteriosa, perguntando muito para o Al sobre nosso pais, e que passei bastante tempo com o Jono. Mas o Jono me disse não sabe de nada, só que eu pesquisava sobre meus pais e estava descobrindo algumas coisas. A chave disso é a minha família. Mas por quê?
MERDA! Apagaram meu histórico do computador! Só alguns dias específicos, provavelmente os dias em que obtive algum resultado por aqui. Minha agenda... Não acredito! Arrancaram as páginas! Ah, mas eu mato um!
Encontrei o Al, mas ele não me disse nada demais e ainda achou que eu tô paranóica por causa do meu casamento. Só me lembrou de algumas informaçoes que não batem sobre nosso pais, mas passam batido como pequenas confusões. A falta de fotos deles mais jovens é estranho também, mas passa. Pros outros. Pelo menos o Al me ajudou a conseguir alguém que vai recuperar o histórico do meu computador... Vou perder meu HD, mas preciso saber o que tá acontecendo.
Meu casamento é em DUAS SEMANAS!!! Pelo menos o Henry aprendeu MUITO a se controlar... O que deixou o sexo muito, muito melhor. Eu já nem fujo mais! Mas ele me disse que tem saído algumas vezes para "cuidar do território" com Amélia, com ela tem aprendido melhor a se conter e a ser quem ele realmente é.
Pelo menos pra ISSO essa porcaria que fizeram comigo serviu...













