quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O leilão



Chegamos em casa no tempo certo de eu me arrumar e ir ao leilão da srta. Borlins. Henry não ia por motivos óbvios, caberia somente a mim sorrir e fingir de boa moça. Então eu coloquei um vestido longo, vinho, justo até os quadris, onde se alargava levemente, com uma echarpe preta cobrindo os ombros. Brincos, anéis e gargantilha prateados, com os cabelos presos num coque frouxo.

Chegando lá, um manobrista pegou meu carro e eu entrei calmamente. Ganhei um catálogo das peças que seriam leiloadas.

Quadros, estatuetas, jóias... Um bracelete lindo, de prata... Wow! Que colar é esse??? Uma rosa lapidada num rubi, maravilhoso! Mas pera... Um rubi INTEIRO??? Eles lapidaram essa rosa NUM RUBI SÓ??? Lance inicial... Ok, desisto. É, isso aqui vai ser chato mesmo.

Ah, ela tá ali. Vamos acenar para a srta. Borlins ver que eu aceitei o convite dela, sorrindo... Isso... Sorte ou azar, ela tá rodeada de gente, eu não vou conseguir nunca falar com ela. Opa, leilão começando, hora de entrar na sala.

Que coisa estranha... A energia do lugar parece quase palpável, se move... Na direção daquele cara da primeira fileira. É, ele me viu olhando pra ele e sorriu pra mim... Vai começar o leilão.

Ah, que saco... Como demora... Vou mandar mensagem pro Henry. "Isso aqui tá um saco. Tô na 1 sala, são 6. Cada sala leiloa por sessão 10 peças. Tamos na 9 peça daqui, nessa sala há 40 min. Imaginou q horas chego, né? Te amo. Bjos"

Ufa! ainda bem que coloquei no silencioso. Resposta dele. "Precisa que te tirem daí? Tô indo. Tbm, bjo."

"Ñ preciso!! Pode deixar! Bjo"

"Ok. Bjo"

"Henry!! O q vc vai aprontar? Sério!"

"Sério. Nada. Bjo"

Aiaiai... Ele VAI aprontar... Pelo menos esse martírio acabou. Só faltam mais uns cinco, SE eu ficar até o final... Hora de circular e tentar cumprimentar a srta. Borlins. Quem sabe beliscar alguma coisinha do bufett, ter idéias para o cardápio do casamento...

O tal cara vindo em minha direção com duas taças de champagne... Henry, por favor, não chegue agora...

Até explicar metade desse povo já vai estar morto...

-Oi! Eu não te conheço de algum lugar? - ele diz enquanto me oferece uma das taças.
-Não sei... - pego a taça, só pra não ser rude.
-Bom, ando com a memória ruim. Se eu morasse aqui acharia que você é uma das minhas alunas. Desculpe, não me apresentei. Robert Chambers. - estende a mão para mim, que o cumprimento.
-Shantel Khodasevich. Prazer!
-Khodasevich... Não me é estranho... Você também não é daqui, certo?
-Não, sou russa. Esse sobrenome é do meu pai, Isaack Rainer Khodasevich. Engraçado porque as pessoas costumam se familiarizar com o sobrenome da minha mãe, Verkko.

E a conversa seguiu esse ritmo trivial, tranquilo... Só não comentei o fato de que achei MUITO estranho mais uma pessoa se "lembrar" do sobrenome dos meus pais. Tá cada vez mais e mais estranho... E lá vamos nós, pra outra sala. Dessa vez aquele colar perfeito vai ser leiloado. Esse eu quero ver.

O colar está lá, bem à minha frente... Muito mais bonito que na foto do catálogo, sem palavras. Sim, eu queria aquela peça...

Ei... O que é isso... Que vertigem é essa, eu nem bebi nada... Esse som ao fundo parece meu despertador. Ai, tá escurecendo tudo...

Como assim???? Meu despertador?? Meu QUARTO??? COMO ASSIM???

-Henry!!! Henry!!! Acorda!!
-Shan?? Que foi tá tudo bem?
-Como eu vim para aqui?? O que tá acontecendo?
-Como assim, você tá bem? Você foi parar aí como sempre, ué... Não tô te entendendo...
-O leilão!!! Eu tava no leilão!!
-Ah... Sonhou com ele? Mas já faz tempo.
-Tempo??? Que dia é hoje?
-17 de abril. Tá tudo bem?
-17 de abril?? COMO ASSIM?? O leilão foi dia 17 de março! Um mês! Eu perdi um mês?
-O quê? Do que você tá falando?
-Eu não me lembro de nada, Henry. NADA, desde o leilão! Eu tava lá, fiquei tonta e apareci aqui!
-Tá falando sério?

Sim, eu amo o Henry, mas às vezes ele me deixa nervosa. "não, não tô falando sério, tô fingindo todo esse desespero." Preciso saber o que eu fiz esse tempo, pra saber porque fizeram isso comigo...

EI!!! O cara do leilão! CHAMBERS! A Archa me falou dele, das memórias! Filho da *&##$%$, sem mãe. Eu MATO ele... Assim que descobrir como chegar perto dele sem esquecer até que eu existo.

Henry me disse que eu fiquei bem misteriosa, perguntando muito para o Al sobre nosso pais, e que passei bastante tempo com o Jono. Mas o Jono me disse não sabe de nada, só que eu pesquisava sobre meus pais e estava descobrindo algumas coisas. A chave disso é a minha família. Mas por quê?

MERDA! Apagaram meu histórico do computador! Só alguns dias específicos, provavelmente os dias em que obtive algum resultado por aqui. Minha agenda... Não acredito! Arrancaram as páginas! Ah, mas eu mato um!

Encontrei o Al, mas ele não me disse nada demais e ainda achou que eu tô paranóica por causa do meu casamento. Só me lembrou de algumas informaçoes que não batem sobre nosso pais, mas passam batido como pequenas confusões. A falta de fotos deles mais jovens é estranho também, mas passa. Pros outros. Pelo menos o Al me ajudou a conseguir alguém que vai recuperar o histórico do meu computador... Vou perder meu HD, mas preciso saber o que tá acontecendo.

Meu casamento é em DUAS SEMANAS!!! Pelo menos o Henry aprendeu MUITO a se controlar... O que deixou o sexo muito, muito melhor. Eu já nem fujo mais! Mas ele me disse que tem saído algumas vezes para "cuidar do território" com Amélia, com ela tem aprendido melhor a se conter e a ser quem ele realmente é.
Pelo menos pra ISSO essa porcaria que fizeram comigo serviu...

Meu primeiro porre


Apesar de tudo, era sempre bom estar com o Henry. Parecia que tudo que nos acontecia de ruim só servia para fortalecer ainda mais nossa relação. Ele estudava como sair do time de rúgbi antes que matasse alguém, então havia tirado licença médica.

Na manha seguinte, tentamos mais uma vez e o resultado foi o mesmo. Eu saí correndo. Quando procurei pelo Henry, ele estava sentado no jardim, enrolado em um lençol, abatido. Vesti meu hobby e fui até ele. O abracei e disse que as coisas iriam se acalmar, que eu não ia desistir dele e não permitiria que ele desistisse de nós. Nos beijamos e ele resolveu ficar estudando Yoga enquanto eu trabalhava.

Nesse dia em questão, por volta das sete da noite, eu voltava das minhas aulas na escola de música e ouvi um barulho. Corri para o andar de cima do loft e vi um homem muito estranho, com roupas de couro de vários animais costuradas à mão, barba por fazer e uma faca artesanal atacando o Henry, que se defendia e atacava também. Eu já sabia que meu noivo tinha capacidade de se regenerar, era parte do que ele era, mas não podia deixar isso acontecer. Tentei investir contra o homem, mas aquele maldito medo apareceu e me fez esconder dentro do armário de vassouras, abraçada ao Baruk, que desde que o Henry se tornou o que ele é, andava muito triste e sempre se escondia pelos cantos da casa.

Corri até meu quarto e o homem ainda estava lá. A casa estava toda destruída, meu noivo coberto de sangue, imóvel, deitado na cama. Então o homem se virou pra mim. Fugi para a rua e o cretino pula da minha janela bem na minha frente. Volto correndo e tento sair pelos fundos, pulando o muro. Vou até um telefone público e ligo para o Aleksei, digo que fomos atacados por alguém e que o Henry precisa de ajuda. Ignorando a ordem expressa do meu irmão, voltei ao loft. Tentava de todas as formas estancar o sangue de Henry e não entendia porque ele não estava se curando. A ambulância chegou e fomos para o hospital.

Ele foi direto para cirurgia. Horas e ninguém se manifestava. Até que meu irmão decide descobrir o que estava acontecendo. Quando ele volta, volta com os olhos marejados e me abraça forte, dizendo que sentia muito. Empurro meu irmão e vou ate a sala pra onde levaram o Henry a tempo de ouvir o médico dizer “hora do óbito: 03:42 da manhã”.

Não!!! Não!!! Isso não estava acontecendo!!

Os médicos simplesmente saíram da sala, me deixando ali com ele. Entendiam e já até deviam estar acostumados a uma cena daquelas.

Eu gritava com ele, batia nele, não podia permitir que ele me deixasse também. Era injusto. Foi quando notei que ele estava duro demais. O lençol que cobria parte do corpo dele não se movia, estava rígido e não importava o quanto eu tentasse movê-lo. A porta entreaberta simplesmente travou. Tudo parecia de pedra e estava estranhamente silencioso.

Escutei passos no corredor. Duas mulheres entram no quarto onde eu estava. Se identificaram como as irmãs Jacqueline e Tajana WhiteWood. Disseram que assim como eu, também possuíam habilidades especiais. Enquanto Jacqueline conseguia parar o tempo, Tajana tinha capacidade de voltar no tempo, apagando o período do tempo que precisa ser "refeito".

Pelo que entendi a morte do Henry teve consequências em todo o mundo. Aquela história do bater de asas de uma borboleta... Somente eu me lembraria do que aconteceu, para que pudesse evitar.

Tajana estendeu a mão para o alto e a realidade pareceu queimar, derreter. Sem perceber, voltei ao momento da manhã, onde eu e Henry estávamos sentados no jardim.

Ele não entendeu porque eu chorava e o abraçava daquela forma. Pedi a ele que me tirasse dali, que fossemos para algum lugar longe de tudo, para ficarmos sozinhos. Passei minhas turmas do dia para o pessoal da academia e da escola de música. Mesmo sem entender ele arrumou tudo e nós fomos viajar.

Paramos num hotel em NewCastle. Nos hospedamos e fomos para o bar. Resolvi beber pela primeira vez na minha vida. Ele já estava costumado. Até experimentei um cigarro, mas me engasguei com a fumaça e desisti. Tudo era motivo para riso naquele dia. Bebemos tanto que eu nunca me lembrei o que houve em boa parte daquele noite. Nos divertimos muito, rimos muito. No dia seguinte algumas pessoas nos cumprimentavam e nos chamavam pelo nome, mas não fazíamos idéia de quem eram. Só ríamos com toda a situação.

Claro, mais uma tentativa frustrada. Eu acabava sempre cedendo ao medo e fugindo, para voltar logo em seguida pros braços dele e ficar ali, quieta, tentando convecê-lo de que ele ia se controlar.
No fim do dia voltamos pra casa. Eu e meu noivo, juntos.

Descobertas...


Fomos à casa de Archa Borlins no dia marcado. Logo de cara já vi que seria complicado. Eu não conseguia andar acima da velocidade permitida, não conseguia não parar em sinais mesmo que ainda estivessem amarelos e não podia deixar o Henry dirigir já que ele não podia se exaltar até que tivesse controle sobre essa fúria que o estava dominando. E me lembrei da promessa que fiz à aranha...

No prédio da nossa anfitriã, assim que as portas do elevador se abriram, Henry fareja o ar, como um animal, me olha com um olhar estranho e diz “Alfa!”. Não podia ser boa coisa...

Quando entramos, havia um homem na sala com a srta. Borlins. Ele e Henry se entreolharam e ficaram assim, parados, se encarando, quase numa cena de velho oeste. Simplesmente não se moviam, não piscavam, nada. Quase podia ver as faíscas saindo dos olhos deles. Achei que o pior fosse acontecer. Chamei pelo Henry mas ele não me ouvia. Virei o rosto dele em minha direção, e quando os olhos dele encontraram os meus, aquele medo primitivo me cegou.

Quando dei por mim estava encolhida no canto do elevador, a srta. Borlins do outro lado da sala escondida atrás de um sofá e os dois parados no meio da sala, segurando um no pulso do outro, ainda se encarando. Sem dizer nada, a srta Borlins me chama para perto dela e com o olhar me diz para não me envolver na situação. Me aproximo dela e ficamos as duas, quase sem respirar, olhando a cena no meio da sala.

-Vai ter sua chance, filhote. Não aqui, não agora. - O homem disse enquanto soltava o pulso de Henry. Contrariado, Henry concordou e soltou o homem.

Ele era Sr. Alfred Ausbury, companheiro da srta Borlins. Muito educado, nos pede desculpas e se retira.

Durante toda a conversa com a srta Borlins, Henry parecia distante. Mas o estranho foi quando ela esboçou familiaridade com o nome de meus pais e depois tentou fingir que não os conhecia. Enquanto me explicava mais um pouco sobre esse novo mundo que eu estava descobrindo, citou algumas pessoas. Algumas parecidas comigo e com ela, assim como Jonothan, o Sr. Alfred, Miguel, e um outro cara chamado Chambers (que eu ainda não conhecia, mas ela dizia ser alguém importante, que lidava com memórias), cada um com sua habilidade. Outras como Henry e Amélia, uma menina de nome estranho, que era uma espécie de metamorfa. Disse que henry tinha que aprender a controlar toda e qualquer emoção, qualquer uma delas poderia desencadear um ataque de fúria. Muito bom! Nos convidou a ir a um leilão de peças dela que aconteceria dali a dois dias pela casa Holtz, a mesma que Charlotte trabalhava.

Precisávamos ir embora. Ela tinha os compromissos dela, e eu tinha algumas coisas a descobrir...
Chegamos em casa. Henry quis andar um pouco para espairecer. Eu o esperei com uma camisola pequena de seda. Tinha que descobrir.

Quando ele chegou e me viu, desceu as escadas correndo de volta para a garagem. De lá me perguntou se eu tinha certeza. Claro que eu tinha! Então ele subiu de novo, já tirando a camisa.
O corpo dele parecia mudar. Eu sentia os músculos mais rígidos que o normal, ele já não era mais tão delicado quanto antes e parecia maior. Não me machucava, mas não permitia que eu dominasse a situação. Ao toque ele parecia ter mais pêlos no corpo, mas eu não via esses pêlos. Apesar de algumas diferenças significativas, as coisas estavam muito boas...

Até aquele medo me dominar de novo. Acordei no banheiro, trancada, encolhida. Voltei para o quarto e ele estava sentado, enrolado num lençol, envergonhado.

-Te machuquei, não foi?
-Não... Eu senti medo. Mas um medo irracional, eu não sabia o que estava fazendo. Só me lembro de estar aqui com você, e no instante seguinte estar no banheiro. – o abraço forte e ele corresponde.
-Shan, a gente tem que parar com isso. Não quero te machucar.

Eu sorrio.

-A prática leva à perfeição, meu amor. Ou você aprende a se controlar, ou eu acabo me acostumando, o que vier primeiro. Só não vou abrir mão de você...

Ele sorri e me beija com calma. Nos deitamos e ficamos abraçados até adormecer.

Meu noivo e minha primeira vez voluntária



Sorte ou azar, era mesmo o Dr. Lancaster de plantão naquela noite. Cuidou do Henry sempre nos enchendo de perguntas. Pediu licença a ele para me falar algo em particular.

Veio com o papo de que eu devia tomar cuidado que eu era “Maria” e que um anjo disse que ele devia tomar conta de mim e mais um papinho furado que se ele não fosse tão doido eu podia achar até que era cantada. Disse a ele que não queria saber e voltei para o quarto onde o Henry estava. ESTAVA...

Só encontramos as roupas dele e uns enfermeiros dizendo que ele tinha fugido. Como assim, fugiu??? Liguei para o Al, precisava de ajuda. Ele estava a caminho.

Saímos para procurar pelo Henry. Quando o encontramos não entendemos como ele andou tanto em tão pouco tempo, completamente nu. Mas o estado dele era o que mais assustava. Ele chorava, encolhido em posição fetal, como uma criança. Só permitiu que eu me aproximasse, ficava agressivo com qualquer outra pessoa. Consegui coloca-lo no carro e levar de volta para o hospital.

Ele precisava ser sedado para ser examinado e o idiota do Lancaster não me deixou ficar com ele. Mas de alguma forma ele conseguiu aplicar o sedativo e quando fui ver meu noivo novamente ele já estava dormindo.

Pela manhã Henry estava bem, acordado e não se lembrava de nada. Eu já havia falado com Jonothan, que esteve no hospital. Ele não conseguiu ao certo dizer o que havia com meu noivo, mas disse que conhecia alguém que poderia dizer. Apesar de não ser uma pessoa confiável e amigável, a Srta Archa Borlins saberia com certeza nos dizer o que estava acontecendo. Ele mesmo a pediu que fosse lá. Um pouco depois ela chegou. Muito bonita e altiva. Disse que Henry era um espírito antigo, primitivo, bestial, que estava despertando. E nos convidou para um chá na casa dela no dia seguinte, onde poderia nos dar mais informações a respeito disso tudo.

Dr. Lancaster nos disse que ele estava bem e não tinha ferimentos, mas não ia dar alta a ele. Pra piorar começou a insulta-lo, e disse que meu noivo era perigoso para mim. O cara já estava começando a me encher.

Enquanto o Henry se trocava no banheiro para irmos embora, o doutor veio dizendo que meu noivo era uma criatura primitiva, que não era como eu ou ele. Era algo diferente e perigoso. Que eu devia tomar cuidado, e claro, começamos a discutir. Então Henry fugiu de novo. Mais um ponto pro doutor!

Saí dali desesperada, sem saber pra onde ir. Fui pra casa e pela primeira vez, resolvi ir até o outro lado, tentar achar um meio para ajudar meu noivo.

Me concentrei e quando dei por mim, tinha conseguido. Chamei e ouvi uma resposta. De uma aranha... Pedi informação e o “espírito aranha”, como ela mesmo se denominava, disse que me ajudaria se eu prometesse respeitar a cidade em todas as suas formas. Concordei. Ah, como essa promessa ainda ia me irritar...

Depois de um tempo ela me trás a informação. De acordo com o que ela me descreveu, Henry estava na velha casa da família dele. A mulher que o atacou foi sutilmente chamada de “Fúria Viva” pelo espírito aranha, que também me disse que meu noivo era como ela. Fui até la, mas não pude fazer nada. Voltei para casa e esperei pela volta dele. Eu sabia que ele voltaria quando se sentisse seguro.

No meio da tarde ele voltou. Envergonhado, assustado. Disse que sentiu um ódio tão grande ao me ouvir discutindo com o médico que sabia que se não fugisse poderia machucar alguém. Disse que tinha medo de me machucar. Eu não ligava! Queria estar com ele, passar por isso com ele. Iríamos dar um jeito em tudo. Foi então que ele me contou das “alucinações”. Ele também conseguia andar entre os planos involuntariamente e não entendia nada. Expliquei a ele e tentamos nos acalmar.

Naquela noite Jonothan me disse que a mulher era conhecida por Amélia Sampaio. E disse que eu e Henry precisávamos de uma espécie de âncora que dificultasse nossas viagens. Sal ou ferro.
Encomendei duas pulseiras de ferro puro aos gêmeos do ferro velho. Assim que ficassem prontas, alguma parte do problema estaria resolvida.

Como eu queria estar certa...

Que noite...


Já havia alguns dias que eu não ia sem querer para o outro lado. Estava bom demais pra ser verdade...

Durante um sonho Jonothan me manda acordar e sair dali com Henry, porque algo estava vindo atrás de nós e ele não sabia o que era. Sem discutir acordei e chamei o Henry, disse que precisava ir ao hospital, que estava passando mal. Ele se levantou na hora, pronto a me ajudar. Então eu percebi que estava do outro lado. É ate fácil perceber quando você já sabe que pode acontecer. As cores primárias somem, parece que tudo fica meio nebuloso... Além do fato de que você deixa de ver qualquer outra pessoa que esteja com você.

Ótimo. Pedi ao Henry que me ajudasse a andar pois estava tonta. Claro, ele foi solicito, embora eu não pudesse vê-lo. Nesse instante escuto um enorme estrondo do lado de fora do loft. Não podia deixar ele correr o risco. Disse a ele que ficasse ali, que eu precisava respirar e saí. Vi aquela mesma mulher atacando o homem de olhos claros. Ele já estava quase morto, com o abdômem aberto, se esvaindo em sangue. A mulher lambia suas mãos sujas do sangue do homem como um gato depois de comer algo que ele gosta. Me olhou e disse com uma voz quase gutural: “Obstáculo...”. Passou a garra no ar, e como rasgasse a realidade, uma fenda se abriu ali e ela entrou, fazendo com que aquela abertura se fechasse quase instantaneamente.

Corri até o homem, tentando ajuda-lo de alguma forma. Ele ainda estava vivo. Quando toquei nele para tentar estancar o sangue (embora não soubesse nem por onde começar) ele me disse:
-Não adianta, este hospedeiro já não me serve mais. Preciso de outro. Tentei cumprir minha missão e cuidar de você, mas ela foi mais forte. Tome cuidado com ela, ela vai fazer tudo para estragar seu destino...

-Quê??? Como assim, quem é você??? Um anjo?? MEU anjo?
Mas ele não teve tempo de me responder. Um clarão semelhante ao que eu havia visto da primeira vez que ele apareceu se formou e ele desapareceu. Ele havia me mandado de volta ao meu mundo.

A tempo de ouvir Henry gritar.

Corri para dentro de casa, e vejo aquela mulher arrancando um pedaço do braço do meu noivo numa mordida maior que a do Baruk. Sem pensar, agarro a gola da blusa de couro, o cós da calça dela e a jogo contra a parede. Henry está com uma ferida bem grande. Mando ele sair mas ele diz que não vai me deixar sozinha com aquilo. Quando ela se prepara para me atacar, Miguel aparece do nada por uma fenda como a que ela usou pra sumir antes e joga ela lá pra dentro.
-Agora é comigo, guria. Se cuida. E cuida dele. - e some por onde veio.

-Que MERDA é essa, Shan? Quem eram eles? O que que tá acontecendo aqui???
-Entra no carro, no caminho te explico. Vamos pro hospital.

No caminho conto tudo para ele. Fazer o quê, tinham enfiado ele no meio da bagunça, agora eu precisava ao menos dar uma direção a ele.

O único lugar pra onde eu poderia leva-lo sem ter que dar muitas explicações era pro hospital do doutor maluco... E pior: rezar pra que fosse ele que nos atendesse...

E fica cada vez pior...

Eu ainda não acreditava no caso dos Manson. Era impossível! Como assim? O que será que eu fazia, então? Nem Jonothan sabia. Ele dizia que apenas sentiu que eu era um deles, que todos nós sentimos e por isso resolveu me ajudar a lidar com tudo e me ensinar a aprimorar as minhas ainda desconhecidas “habilidades”. Éramos chamado de "nexos". Agora sim entendi o que a louca do hospital quis dizer. Então ela é um também. Saco...

Normalmente Jono vinha me visitar em sonho e respondia a qualquer dúvida que tivesse. Ele manipulava as sombras. Era estranho, mas parecia ser um cara legal. Me explicava sobre a terra, o céu e o inferno, que não são o sentido bíblico desses lugares. Em linhas grossas, um dia o inferno vai deixar de existir, a terra de hoje será o novo inferno, e o céu será a nova terra. Todos querem no mínimo se manter onde estão, mas há os que querem "subir" de posto, daí a gurra entre esses mundos, um tentando dominar o outro. Diz que a sucessão é natural, mas há quem queira precipitar as coisas, ou impedí-las de seguirem seu curso. Nós estaríamos do lado da terra... Mais ou menos isso.

Um belo dia estava eu arrumando minha casa quando uma janela simplesmente estoura, e um homem cai no meio da minha sala. Olhos muito azuis, e uma mulher o atacava. Ela agia como uma fera, tinha movimentos invejáveis, parecia pega impulso no ar, mas tinha garras de ossos, como se fossem as pontas dos dedos dela, algo muito bizarro e assustador. O homem parecia ter uma espécie de escudo invisível, sei lá. Sei que ela batia as garras em algo e o ar se movia em formas onduladas, como quando jogamos uma pedra num lago e formam-se algumas pequenas ondulações. Meu rotweiller, Baruk, começa a atacar o homem também, e não obedecia aos meus comandos. Foi quando a mulher de alguma forma conseguiu romper aquela barreira invisível, e cortou fundo o braço do homem. Ele me olhou e quase envergonhado me disse apenas “Corre...”. Eu nãi a sair dali. Dos olhos dele, saiu um clarão que me cegou. Quando o clarão sumiu, era como se nada tivesse acontecido. Até o Baruk estava deitado no mesmo lugar de antes, tranquilo, me olhando... Muito estranho. A janela estava inteira, a sala limpa, nem um caco de vidro, nem uma gota de sangue, nada! Aquilo parecia que simplesmente não havia acontecido...

Liguei para o Aleksei, precisava conversar com ele. Jonothan havia me dito que isso pode ser hereditário e que meu irmão podia estar passando por isso também. Ele era a melhor opção.

Marcamos num restaurante, só nós dois. Comecei a contar, ele ficou preocupado achando que eu estava alucinando. Foi quando aconteceu de novo.

A mesma mulher, desta vez apanhando e muito de um homem enorme. Ok, ela podia ser uma vadia bizarra, mas era injusto. Quando olhei não havia mais ninguém além de nós três no restaurante. Gritei pelo meu irmão várias vezes, mas não obtive resposta. A mulher apanhava muito, no chão, debaixo daquele gigante. Resolvi me meter. Mandei o cara largar ela, mas ele não se moveu. Repeti e nada. Chutei a costela dele, nada. Chutei de novo e ele sentiu. Se levantou e eu pude ter certeza dos dois metros de altura dele.

-Como você tá aqui? - disse enquanto se preparava pra me dar um soco. Só que ele simplesmente sumiu no ar! Olho à minha volta, eu estava no restaurante cheio de novo, que agora estava inteiro me olhando, meu irmão escondido atrás do cardápio. Meu Deus, que vergonha!!

-E é mais ou menos isso. Não faço muita coisa na peça... - eu disse olhando pro Al, tentando não parecer tão doida quanto estavam pensando. As pessoas se voltaram para seus pratos menos assustadas e eu voltei ao meu lugar na mesa com meu irmão, que me pediu para ir ao médico e não levou nada do que disse a sério.

Como se não bastasse, nesse mesmo dia na academia, quando entro na sala de aula cheia de alunos, alguém me agarra e me imobiliza. Pela voz, reconheci o grandão do restaurante.

-Como você faz isso? Nem os mais velhos conseguem andar assim nos dois mundos!
-Não sei, não sei como faço e nem porque faço! Na verdade, nem sei quando faço! Só noto depois! Me solta!

Mas não adiantou, ele não me soltou.

-Não quero que você tente me bater de novo, porque não quero ter que te bater, então não vou te soltar. Guria, tu não faz idéia de onde ta entrando. Não fica circulando por aqui desse jeito, vai se machucar de verdade. Se eu fosse você dava um jeito de me manter em terra firme. - e me soltou.
-Quem é você?
-Miguel.
-E como eu saio daqui?
-Se concentra, gata...

Funcionou. Meus alunos me olhavam espantados, com medo. Eu ri que nem maluca, olhando pra eles, como se tivesse brincando e saí da sala. Quando voltei eles pareciam ter acreditado na brincadeira e eu pude dar minha aula.

Foi assim que descobri que existe um mundo sob mundo, o mundo espiritual. E eu conseguia ir para lá sem o mínimo esforço, o que era bem enstranho até para quem já está dentro dele...

Gêmeos bons, gêmeos maus, confusão sempre...




Dessa vez eu e o Henry saímos para correr de verdade. Depois do exercício, dou a desculpa de que preciso olhar alguns preparativos para o casamento e saio direto para o hospital.

Enquanto pergunto pra recepcionista sobre o doutor Lancaster, a doutora Lancaster me aborda. Acho que houve algum engano. Ela me leva até a sala dela. Depois de me apresentar e dizer o motivo de eu estar ali, ela surpreendentemente me leva até os arquivos e me mostra a ficha do cara! Com certeza foi o wisky que ela bebeu enquanto conversávamos. Aquilo era contra a lei! Mas ok, o tal cara existia mesmo, tinha um irmão gêmeo e eu agora precisava anotar o endereço dele.

Do nada a mulher simplesmente me dá um tapa! Maluca! Empurro ela pra longe, mas ela volta e me dá outro tapa, dizendo que eu era uma vergonha para os nexos.
Nexos?? Que nexos, sua doida?? Aquilo que você perdeu?
Dou um soco nela e saio correndo dali. O processo por agressão ao bandido que matou minha filha ainda tá correndo, eu não posso me meter em confusão. Claro, ele mata a minha filha e eu sou processada... Enfim...

Na saída apressada, trombo com um cara que devia ser irmão gêmeo daquela maluca. Ele diz que é o doutor Lancaster e que a tal mulher não existe. Depois de averiguar as fitas de segurança onde eu andava SOZINHA pelo hospital até a sala dela e depois até a sala de arquivo, ele acredita em mim e me leva até a sala dele. A mesma da maluca.

Mais uma vez, explico a ele o motivo de eu estar ali e conto que a outra já havia me dito tudo sobre o caso da noite anterior. Ele diz que me daria o endereço, desde que fosse comigo. Depois de tudo, já não me assustava com mais nada. Ele também devia estar curioso com a recuperação relâmpago do tal cara.

Ele no carro dele, eu na minha moto, chegamos ao endereço. Um ferro velho, AC/DC tocando bem alto. Bom, comecei a gostar dos caras. Um deles tá debaixo de uma pick-up. Ele sai, me olha de cima a baixo e se apresenta como Jack Manson. Diz que o irmão, Stuart, estava em observação em algum outro hospital, devido aos cortes profundos que sofreu. Mas parece que ele realmente se recupera rápido, porque chegou lá depois de alguns minutos. E acho que nem clones seriam tão iguais.

O dr. Lancaster não cansava de afirmar que havia algo errado e os gêmeos (que diga-se de passagem, que dupla! Se eu não fosse noiva, estaria no céu) insistiam em dizer que estavam bem e que o doutor havia se enganado.

Claro que com meu jeitinho, convenço um deles a me mostrar as cicatrizes. Me pareceram mais abertos à questão quando disse que Jonothan havia me pedido para entrar em contato com eles. Longe do dr. Lancaster, o que dizia ser Stuart me mostra o corpo livre de marcas e explica que é uma habilidade que ele e o irmão tem. Enquanto um estiver bem, o outro fica também. Mas me pede discrição, não quer que ninguém mais saiba. Quando saímos, confirmei os cortes, disse que ele estava cheio de pontos, mas o doutor não acreditou em mim.

Foi quando o doutor surtou. Simplesmente tirou um bisturi do bolso e cortou o cara! Assim, do nada, pra provar que ele estava certo e os gêmeos podiam se curar instantaneamente. Ainda reclamou quando levou um soco na boca. Eu tive que imobiliza-lo e me meter no meio deles de costas, enquanto segurava o doutor, mandando parar com a bagunça. Ainda bem que me escutaram.

O gêmeo machucado foi para o carro enquanto o outro me pedia para tirar meu amigo maluco dali para que ele pudesse levar o irmão para o hospital. Consigo colocar o doutor no carro que insistia que não sairia dali enquanto eu não fosse, porque ele tinha que me proteger. Que cara estranho!

Fui até o carro onde estava o gêmeo com o braço enfaixado e peço para ver o corte. E já não tinha mais nada ali além da mancha de sangue no tecido que envolvia o lugar. Prometi não contar. Ele mandou lembranças ao Jonothan e me disse que ele era um cara legal. Mas me advertiu que eu estava entrando em terreno perigoso, que era pra ter muita certeza do que estava fazendo.
Fomos embora dali, o doutor me seguindo de carro até o momento em que eu fui para a minha casa e ele voltou para o hospital.

Ok, Jonothan... Você tinha razão... Mas o que eu tenho a ver com tudo isso???

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Começando a ficar maluca


Mais um dia na minha vida corrida. Hoje literalmente, é dia de correr com o Henry. Depois tenho algumas avaliações físicas pra fazer na academia. Novos alunos, isso é muito bom! Mas o Henry muda de planos. Ele prefere se exercitar na cama. Por mim tá ótimo! Ainda bem que temos ritmos muito parecidos. E fôlego!

Primeira avaliação. Não posso acreditar. Assim, de cara? Era o cretino que tava me olhando pela vitrine da loja! Me parece menor, mais franzino, mas É ELE. Será que ele tá me perseguindo? Se tiver eu vou descobrir e ele vai se arrepender.

Jonothan, o nome dele. Que coisa estranha, essa sombra não devia estar daquele jeito. Parece se mover sem precisar da luz. Devo estar cansada. Ok, nada de sexo antes do trabalho. Quantas vezes será que eu já me disse isso?

Shan, foco!! Volta pra avaliação do cara!

Não, pera, tem algo errado. Só TRINTA batimentos por minuto? Esse cara morreu, não é possível. Diz ele que é normal, mas eu não posso colocar um cara assim pra malhar e morrer aqui. Ele diz que volta depois com uma permissão médica. Vamos esperar. E essas sombras, parecem querer segui-lo. Coisa bizarra. Eu REALMENTE preciso descansar antes que fique maluca e ao invés de casada, seja internada...

Comento com o Henry sobre esse cara.

-Tudo bem, quando ele voltar com o atestado, eu descubro o que ele quer com você!
-Não amor, assim não. Pode ser só coincidência. Eu descubro e te falo. Se for o caso ele é todo seu, prometo!

Dia cheio, hora de dormir. Não antes de curtir meu noivo da melhor forma possível. Acho que somos meio ninfomaníacos, mas dormir nos braços dele é perfeito também...

Devo estar mais impressionada com o cara que imaginava. No sonho daquela noite, Jonothan pede desculpas por ter me assustado.

-Não sabia como lhe abordar, achei que aqui seria mais fácil e você ficaria menos assustada. Preciso falar com você, Shantel.

Ele me diz que era ele mesmo na loja. Me explica que o sobrenatural existe e eu sou alguém, digamos... “Especial”. Alguém que tem meios de agir para ajudar o mundo, literalmente. Disse que meus dons para isso estavam prestes a fluir. Que se eu ainda não acreditasse, era pra procurar o doutor Lancaster, do hospital James Lancaster e perguntar sobre o cara que se curou sozinho, era alguém semelhante a mim. O doutor teria meios de me levar até ele e eu poderia ter minhas comprovações.

Não sei porque, Jonothan, mas eu vou. Devo estar mesmo maluca, mas vou...

Começando os preparativos


Dezembro de 2007. Apenas cinco meses para o casamento e eu não fiz NADA ainda! Deus, tô ferrada!

Corro muito, vou em todas as lojas de vestido de noiva, em todos os bufett da cidade, escolho modelo de convite, meu Deus, pra quê tanta coisa assim, só pra me deixar maluca! As lembrancinhas da festa!! MEU DEUS, AS BENDITAS LEMBRANCINHAS!

Ainda bem que escolher os padrinhos é a parte mais fácil.

Email pra minha mãe, Lumikki, Charlotte, Marrie, Tanja... Criamos um grupo de discussão só pra me ajudarem a escolher as coisas da festa, da igreja, o vestido... MEU VESTIDO!!

Como assim, eu esqueci do meu vestido?? Aiaiai... Ao menos os convites já estão sendo feitos, o lugar da festa e a igreja já foram escolhidos, os vestidos das madrinhas estão em fase de ajuste e o cardápio da festa quase pronto.

Finalmente um estilista que entende o que eu quero. O croqui estava perfeito, mando começar a fazer. Já estamos no meio de janeiro e ainda não tenho vestido, sapatos, acessórios e nem decoração de lugar nenhum. Ótimo...
Pera... Aquela coisa “algo velho, algo novo, algo emprestado e algo azul”... Ok. Uma liga azul, daquelas de elástico estilo “Betty Boop” só pra constar a coisa azul da lista mesmo. Os brincos de brilhante da Charlotte. Todo o conjunto de espartilho, ligas e meias finas brancas, novíssimas (claro... a única peça que realmente interessa ao Henry já foi comprada...). Algo velho. Será que não serve a coisa emprestada? Tá, por via das dúvidas vou usar o anel de brilhantes que foi da minha avó, da minha mãe e agora é meu... Acho que é velho o suficiente...

Março, DOIS MESES para o casamento!!! Mais uma prova de vestido. Ok, agora para frente do espelho para ser espetada enquanto a mulher diz marcar o vestido para ajustes. Que droga, TINHA q ser em frente as vitrines? Vou pedir desconto, servir de manequim vivo para a loja não tava no contrato... Mas meu vestido tá lindo... Ei! O QUE é aquilo???
Olho para trás e o que vi no reflexo do espelho já não estava mais lá. O cara bizarro de olhos completamente negros havia sumido. Coisa estranha, medonha... Ele tava lá, eu tenho certeza, tava me olhando!


Acho que preciso descansar...

Voltando à vida real


Embalar as coisas dela, cancelar compras de objetos, móveis e da nova casa. Doar quase tudo que seria da minha filha. Seria... Ainda bem que Tanja estava ali naquele momento para me ajudar nisso. Ela estava em lua de mel na época, e não pode vir me ver quando aconteceu. Veio depois, assim que pôde, e me ajudou muito com tudo.

Como aquilo doía. Mas eu não podia me deixar abater. Henry se sentia um pouco culpado por ter me deixado sozinha, grávida, então eu precisava mostrar pra ele que apesar de tudo eu estava bem. Por nós dois...
Com o passar do tempo a dor se abranda, adormece, mas não acaba. Você aprende a viver com ela, até chegar um ponto que você sente que precisa fazer alguma coisa que marque a superação daquele problema. E três meses depois eu senti isso.

Queria algo que fosse especial e me trouxesse algum sentimento bom, algo que durasse e que ninguém pudesse tirar de mim. E descobri que uma tatuagem seria o ideal, como as velhas e antigas tribos onde as tatuagens representavam um rito de passagem importante. Mas qual o desenho, onde, como, quais cores?

Rosas... Engraçado como eu sempre amei rosas. Me trazem uma sensação de familiaridade. Provavelmente minha mãe as cultivava na estufa quando eu era bem pequena. Vermelhas e brancas! Ok, branco não se destaca em mim... Só vermelhas. Com algumas borboletas, quem sabe... Mas onde? No braço? Quadril? E se elas envolvessem meu corpo como se me acolhessem? Isso!!

Mas só rosas e borboletas? Vai ficar muito cheio de coisa, muito “igual” e difícil de combinar os elementos Além do que, deve doer muito mais... Com alguns traços orgânicos, indefinidos, leves, dando forma às linhas que as rosas e as poucas borboletas vão seguir no meu corpo... Isso!

Ok. Então a tatuagem começa do lado esquerdo, no braço entre o cotovelo e o ombro e ali se divide indo para as costas e peito, passando entre meus seios, sobre o estômago e vai para o lado direito suavemente até chegar no quadril, onde se encontra com a parte que foi para trás e que desceu pelas minhas costas até chegar naquele mesmo ponto do lado direito, desce pela minha coxa até o tornozelo e pé... ISSO!!

Passei a idéia para Charlotte, que fez um trabalho lindo! Exatamente como eu queria. Uma semana depois ela me deu o desenho pronto. No melhor tatuador de Londres, eu comecei. Faríamos o contorno de uma parte por semana, depois iríamos colorir cada parte com esse mesmo intervalo. Os caras acharam que eu tava maluca porque não queria esperar um mês como seria o correto, por causa da dor. Diziam que eu não ia agüentar. Se eles soubessem o motivo da tatuagem...

No meio de setembro de 2007 eu estava com minha tatuagem pronta. Perfeita! Como eu queria! Demorou mas valeu a pena. Só a coceira da cicatrização que realmente incomodava, mas COMO valia a pena! O Henry estava lá a cada sessão, segurando minha mão e olhando o tatuador, lógico. Ciumento daquele jeito, ainda me surpreendo por ele não ter reclamado tanto por um homem tatuar aqueles lugares do meu corpo. E claro, era ele quem cuidava da parte das minhas costas, com a pomada e os curativos. Eu parecia uma fruta embalada no plástico! E no verão!
Mandei uma foto à Lumikki e à Tanja, que adoraram! Lumikki, claro, compôs outra canção onde se referia à mim como "Minha pequena Fênix", já que eu havia superado.

Só queria saber o que meus pais vão dizer... Nossa, eles vão falar muito... Quando eles descobrirem, o que vai demorar muito se depender me mim.

Mas eram as MINHAS rosas, no MEU corpo. Me abraçando e me trazendo conforto, como há muito tempo eu já não sentia...

Meu bebê, mamãe nunca deixará de te amar...


Dia 23 de fevereiro de 2007, uma sexta feira. Tinhamos chegado da Rússia no dia anterior, onde fomos padrinhos de casamento da minha prima Tanja. Eu havia ficado na academia até tarde revendo uma papelada atrasada pela viagem. Henry estava em uma outra viagem pelo time. Era a terceira desde que começamos a morar juntos. Quando dei por mim, já passava da meia noite e eu tinha que dormir.

Estava frio, eu estava com algumas blusas grossas que escondiam ainda mais a barriga de cinco meses, que já era pouco saliente. Nesse dia a Anikka estava mais agitada que o normal.

"Calma mocinha!! Assim você vai me machucar! A mamãe já está indo pra casa e o papai chega amanhã de tarde!!", eu dizia enquanto trancava a academia. Mas ela se agitava a cada sílaba que eu pronunciava, como se soubesse o que estava por vir.

Quando me virei para ir pra casa, me deparo com um sujeito trêmulo, apontando uma arma para mim. "Anda!! Abre logo essa porra e me dá a grana!!". Eu olhava e pela primeira vez na minha vida com muito medo, sem saber como agir. Só queria sair dali bem, pela criança que eu carregava. "Calma... Vamos conversar, tá tudo bem..." eu dizia enquanto levava a mão ao bolso para pegar a chave da academia. Mas acho que ele não pensou nisso.

Só senti a coronha do revólver bater na minha testa e tudo ficou turvo. Caí no chão. Então, sinto um chute na minha barriga e uma dor horrível. Eu sabia o que aquele homem tinha acabado de fazer. Por toda a dor que ele havia me causado, por todo o ódio que eu jamais imaginei sentir de alguém, meu instinto gritou. Enfiei meus pés entre os dele, fazendo com que ele também caísse. No mesmo instante chutei a mão dele para que ele largasse a arma. Ainda no chão nós brigamos, e eu bati nele. Aprendi a resistir à dor e continuar me movendo e lutando, mesmo com ela, nesses anos de prática de sambo. Só a dor emocional por saber o que ele acabara de fazer me dominava. Por cima dele, dava socos no rosto, na cabeça, no peito, onde meu ódio permitisse. Com algum esforço consegui me levantar e continuei chutando. Ele já estava desmaiado a algum tempo, mas eu não iria parar. Foi então que eu ouvi o barulho das sirenes, senti outras mãos em mim me tirando de perto daquele monstro. Escuto os policiais falando algo sobre ambulância, que eu também precisava e mais uma vez, tudo fica turvo. Mas desta vez eu cedi e desmaiei.

Acordei no hospital com a Charlotte de olhos marejados do meu lado e meu irmão do outro, sério como eu nunca havia visto. Começo a chorar, sentindo os pontos da cirurgia que acabava de retirar o corpo de minha filha de dentro de mim. Eles diziam algo sobre o Henry, que ele estava a caminho, que meus pais estavam vindo da Rússia junto com um dos meus tios que é médico, que os pais do Henry estavam chegando... Mas eu não ouvia... Só ouvia o choro e o riso de um bebê que eu nunca conheceria...

Melhor época da minha vida!


Me lembro bem, era dia 25 de outubro e eu tava muito enjoada. Henry (agora um jogador de rúgbi bem sucedido) chegou do treino de banho tomado com aquela colônia que eu amava, mas quando ele me abraçou só deu tempo de correr pro banheiro. Charlotte e Marrie estavam lá em casa, viram a cena e começaram a rir. "Aiaiai, vamos ser tias logo!" brincavam, enquanto eu insistia que havia comido algo estragado. Mas eu sentia que não era isso...

O Henry havia acabado de me pedir em casamento, estava se mudando para a minha casa. Não podia ser. Minha família ia achar que foi tudo de caso pensado, meu irmão ia me matar! Se meu pai não matasse ele antes, por não ter tomado conta de mim... Bem capaz, eu já tinha os meus 22 anos e era completamente independente de qualquer pessoa, mas mesmo assim ainda eram minha família. E o próprio Henry me pediu pra fazer o exame de farmácia.

Na manhã do dia seguinte, enquanto ele organizava as coisas dele no loft, eu fiz o exame. " E aí, Shan??", ele perguntava de cinco em cinco minutos. E eu olhava as duas listrinhas naquela coisa do teste, e confirmava na embalagem: "duas listras: POSITIVO" Não, não... Tinha algo errado... Ou não...

Quando disse a ele a expressão dele mudou. Ele ficou pálido, me olhando. Quando eu pensava "ok, agora sim, me ferrei!" ele me abraçou. Só não apertou mais porquê teve medo de machucar o bebê. Me olhava com os olhos marejados e um sorriso bobo, dizendo "A gente vai ter um filho?? É sério?? Um bebê, meu e seu??" E então eu comecei a sorrir também e deixei de pensar no resto do mundo. Ali, naquele momento, nos braços dele, só existíamos nós três... Ele, eu e este bebê crescendo dentro de mim...

Meu irmão foi o primeiro a saber. A reação dele foi parecida com a do Henry. Palidez, olhar fixo em mim... A princípio ficou bravo, perguntando como aquilo tinha acontecido. Mas no segundo seguinte me abraçou e disse que estava muito feliz e que eu poderia contar com ele pra tudo. Que aquela criança já era mais que bem vinda... E todos os nosso amigos ficaram muito felizes logo de cara, nos dando os parabéns e discutindo nomes, padrinhos, quem daria o primeiro brinquedo, qual faculdade a criança faria...
Meus pais queriam me matar pelo telefone. "Uma vida inteira pela frente e já arruma uma responsabilidade dessas? Vcoê não sabe nem cuidar de si mesma, quanto mais de uma criança!" e coisas do tipo... Mas depois do susto, começaram a gostar da idéia de serem avós. Logo a família toda começou a mandar presentes e eu estava grávida de apenas SEIS semanas!
Lumikki acabou compondo uma canção pequena mas linda, cantada em suomi. Ela dizia que a paz poderia ser encontrada num balançar de berço, acreditando que a maternidade me faria desacelerar meu ritmo.
Começamos todos os exames, mantínhamos tudo em dia. Queríamos o melhor para o bebê. E foi num exame que descobrimos que seria uma menina! Anikka Khodasevich Thompson! Esse seria o nome dela. Os pais e a irmã do Henry já não viam a hora de poder pegá-la no colo. A sala de exame ficava sempre cheia...

Tudo estava sendo preparado com todo o amor e ansiedade para a chegada da pequena Anikka... Definitivamente, foi a melhor época da minha vida...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mudança para Londres e adaptação







Finalmente!!! Dezoito anos! Finalmente vou morar com meu irmão em Londres, onde vou fazer faculdade e trabalhar.

Deixar meus pais foi difícil, mas era tão bom saber que eu iria pra perto do meu irmão e seria mais independente, mais livre... Tive todo o apoio da família toda. Tanja estava eufórica! ela sabia que apesar da distância que nos separaria, seria o melhor pra mim. E ela teria uma amiga pra fazer companhia sempre que fosse à Londres.
Fui morar no apartamento do meu irmão, claro. Ele já estava estabilizado na polícia londrina e tinha um bom apartamento. Ele tinha conseguido inclusive uma sala para mim, para que eu desse aulas de sambo e de música. Meu pai já tinha acertado as minhas faculdades, Música e Educação Física. Passaria o dia estudando entre os dois cursos que pra minha sorte eram no mesmo campus, e daria minhas aulas à noite.
E foi assim. Tive um pouco de dificuldade com o inglês na prática mesmo, ficava nervosa com tantos olhos na minha direção enquanto eu falava. Foi no curso de música que conheci Charlotte, Marrie e Carlos. Charlotte era inglesa mesmo, e logo mudou para o curso de Artes. Marrie, francesa, se mudou ainda criança para a Inglaterra. Carlos, assim como eu, era imigrante espanhol, queria estudar e melhorar de vida. Elas nos ajudavam com o inglês, eu os ajudava com o instrumento que precisassem. E no curso de Educação Física, conheci Black Dog (chamá-lo de Theodore é arrumar confusão), que me apresentou o Henry. Formamos todos um belo grupo.
Logo eu e Henry estávamos namorando. Tive muita dor de cabeça com as ex dele que não largavam a gente em paz. Mas ele sempre deixou claro que me amava, e com isso me deixava segura. Claro, Aleksei implicou, brigou, bateu nele, apanhou dele, proibiu o namoro, mas nada deu certo. Até que desistiu e viu que o Henry era o cara certo. Passaram a ser ótimos amigos depois de algum tempo.
Nos formamos na faculdade, todos no mesmo ano.

Aleksei se apaixonou por Charlotte. Dessa vez eu nem podia ter ciúmes. Minha melhor amiga, ele escolheu bem e afinal de contas, ela ajudou e muito para o Al aceitar o Henry. Meu irmão se casou com Charlotte depois de três anos de namoro, quando eu fui morar sozinha num loft ao lado da academia e da escola de música que havíamos montado em Londres. Um amigo russo veio de lá trabalhar conosco dando aulas de sambo e a turma da faculdade me ajudava na escola de musica. Black Dog ficava na academia, claro.

Foi assim que me estabilizei aqui. Criei raízes, por assim dizer... Por isso digo que amo esta cidade, e não saio daqui...

Meu primeiro noivo, meu primeiro chifre...



Ele era lindo, perfeito! Olhos verdes, cabelos negros, um sorriso meio tímido, e um beijo... E maduro. Afinal, ele era treze anos mais velho que eu.

Ele me viu crescer nos ensaios da banda dele onde minha madrinha canta e compõe. Mas me enxergava como mulher e quando eu fiz dezesseis anos começamos a namorar.

Ninguém acreditava que eu namorava ninguém menos que Samuli Kantee, tecladista da SilveRose. As meninas morriam por ele e era a mim que ele amava! Só meu pai e meu irmão não gostavam disso. Minha mãe me dizia para tomar cuidado e ter juízo, mas meu pai e meu irmão queriam me matar. Principalmente o Al. Ele MORRIA de ciúmes, e queria que meu pai me proibisse de namorar o Samuli, mas meu pai achava que seria pior. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde, eu iria me desiludir.

Claro que a minha primeira vez foi com ele. Contamos com a ajuda da minha madrinha e de Tanja para isso. Ela se “responsabilizou” por nós para meu pai, meu tio e meu irmão, mas minha mãe sabia o que iria acontecer. Ela sabia que eu acabaria dando um jeitinho para isso e se ela me apoiasse, pelo menos teria certeza que eu tomaria cuidado com tudo.
Carinhoso ao extremo, foi a noite perfeita. Dormimos juntos, durante uma viagem da banda pela Itália, num hotel lindo! No dia seguinte passeamos por Roma, depois de ser acordada com uma chuva de pétalas de rosas vermelhas... Foi simplesmente a noite de sonho de qualquer garota.
Um belo dia, depois de um ano de namoro, eis que ele chega de surpresa, na minha casa, na Rússia (ele morava na Finlândia quando não estava em turnê) com um buquê de flores e um par de alianças! Eu não acreditei! Nem meus pais. Tivemos que segurar o Al pra não voar nele. Mas meus pais concederam a minha mão, depois do pedido formal de casamento. Eu estava noiva de Samuli Kantee!

Mas eu nem podia imaginar o que isso se tornaria. Alguns meses de noivado, eu resolvi retribuir a surpresa dele e aparecer do nada no hotel onde ele estava hospedado em Moscou, durante outra turnê, depois do show. Como desta vez não queria que ninguém soubesse, meu pai só permitiu que eu saísse de casa aquela hora porque o Al estava na cidade e me acompanharia. E como todos me conheciam e não faziam idéia do que estava acontecendo no quarto de Samuli, me ajudaram a conseguir a chave reserva do quarto dele. Eis que entro e acendo a luz. Aleksei me espera do lado de fora desde que eu não feche a porta. Não acreditei no que eu vi. Samuli com outra garota, na cama. Dei um grito de susto misturado ao ódio que senti, mas não conseguia fazer nada, nem me mover. Enquanto ele se enrolava num lençol e tentava se explicar, a garota ria. Aleksei entrou no quarto e quando viu o que estava acontecendo, não disse nada. Só parou de bater no Samuli quando os seguranças do hotel conseguiram contê-lo. Depois disso Al me levou para casa e não sabia o que fazer pra cuidar de mim, assim como meus pais. Minha tia não pode fazer nada em relação à Samuli e à banda, mas mantém com ele hoje em dia apenas uma relação profissional.
Nesse ano compus minha primeira canção, onde eu afirmava que nunca mais cairia e não perderia a confiança nos sentimentos.

O pessoal todo da banda ficou um bom tempo desapontado com ele, pois todos ali gostavam muito de mim e não queriam me ver passar por aquilo. Claro que tudo voltou ao normal entre eles e comigo.

Apesar de não querer mais contato com ele, ele não representa mais nada para mim. Se tornou indiferente a presença ou existência dele. Mas até hoje ele se arrepende do que fez e volta e meia tenta se aproximar. Em vão...

No ano seguinte fui para Londres, onde conheci o Henry. Mais um motivo para não querer nem ouvir a voz de Samuli...

Alguns fatos da minha infância e adolescência...

Quando criança queria sempre ajudar a tudo e todos. Perdi as contas de quantos bichinhos levei para casa para dar comida e proteger do frio. Minha mãe brigava enquanto meu irmão tentava me ajudar e meu pai tentava convencê-la de que eu era apenas muito sensível, que logo ele levaria o animal para algum abrigo, que esperasse só um pouco para eu me sentir útil, com a “missão cumprida”. Por isso chegamos a ter sete cachorros e quinze gatos em uma determinada época. Depois meu pai realmente os levou para algum abrigo. Só tínhamos mesmo como nosso, um golden retriver marrom chamado Loop e uma gata vira latas que resistiu à implicância de minha mãe e a conquistou no dia que matou uma enorme ratazana da estufa que ela mantinha na nossa casa, a Lilly. Loop morreu pouco depois que me mudei para cá, de velhice mesmo. Lilly sumiu da nossa casa há alguns anos.

O apelido familiar de minha madrinha foi dado por mim, aos três anos de idade. Minha mãe me contava, em suomi, a história da “Branca de Neve e os Sete Anões”. Quando ouvi a descrição da protagonista, disse: “Igual à dinda Mah, mamãe!”. “Lumikki” significa “Branca de Neve” em suomi. Ela é chamada assim até hoje, por todos da família.

Foi Lumikki que me ensinou os primeiros acordes. Eu tinha apenas três anos e ela dezesseis quando percebeu meu interesse e resolveu que eu seguiria os passos dela na música. Nas minhas férias na Finlândia, na casa de uma tia da minha mãe pois minha avó já havia falecido, junto à minha madrinha comecei a estudar teclado, canto e violão. Anos depois Lumikki inicia uma banda e eu praticamente cresci ali, no meio deles. Brincava durante o ensaios e me tornei a mascote da turma. Quando a banda começou a fazer sucesso mundial, eu não acreditei! E foi dali que saiu meu primeiro namorado e noivo (ok, acho que se um dia encontrar outra pessoa, pulo a parte do noivado...), Samuli, o tecladista da banda, treze anos mais velho que eu. Ah, depois penso nisso...

A partida de Aleksei para Londres foi muito dolorosa para mim. Cheguei a ficar doente. Na época em que comecei a praticar sambo foi muito mais para ficar perto dele que por qualquer outro motivo. Só com o tempo aprendi a amar o esporte. Como eu ficava nervosa quando quebrava algum dedo e não podia tocar. E nossa, como eu já me quebrei toda nesse esporte. Ninguém acreditava que eu fosse mesmo capaz de continuar e gostar de sambo. Só o Al. E “perder” meu irmão aos doze anos não foi fácil. Mesmo sabendo que ele voltaria sempre para nos visitar, pra onde eu correria se tivesse algum pesadelo? Quem me buscaria nas festinhas, quem me ajudaria a esconder as coisas erradas que eu fazia dos meus pais (ok, essa parte podia até ficar com o meu padrinho Max, mas ele não morava na nossa casa, era mais difícil). Metade da minha base de vida foi pra Londres com meu irmão. E por mais que eu amasse meus pais, não via a hora de poder correr pra perto do Al.

Meus pais, Isaack e Diana Khodasevich e um pouco sobre minha família


Isaack Rainer Khodasevich, russo, 49 anos, casado há 31 anos (sim, 31 anos!) com Diana Trevor Verkko Khodasevich, também com 49 anos. Se conheceram durante as viagens do meu pai já pelo exército russo, na Finlândia, onde minha mãe morava com minha avó e minha tia Maarikka (que se tornou minha madrinha). Se casaram meses depois de se conhecerem, e o Al nasceu dois anos depois do casamento. Sempre foram exemplo de amor e companheirismo... Me sinto orgulhosa de ser filha deles. Apesar da minha mãe não esconder o favoritismo dela pelo Al, e meu pai deixar claro que sou, como ele mesmo diz, a "princesa" dele, nunca nos sentimos menos amados naquela casa. Eu adorava dormir no colo do meu pai e ver minha mãe trabalhar com as plantas dela.
Nunca foram relapsos na nossa educação, nunca nos mimaram. Fomos ensinados a batalhar pelos nossos desejos e fazermos por merecer nossos presentes. Já deixamos de ganhar presentes de aniversário e natal quando tiramos notas baixas na escola ou quando aprontamos alguma, já levamos bronca na rua, já levamos alguns tapas em casa quando a situação pedia.

Não tenho avós há algum tempo... Minha avó materna faleceu antes de eu nascer, no mesmo ano que meu avô paterno. Minha avó paterna faleceu há doze anos.

Mesmo sem eles, na Rússia, a família Khodasevich (isto é, os irmãos de meu pai: meu tio mais velho com sua filha e seu genro, minha tia mais nova com seu marido e filhos e meu padrinho Maximilian que é o irmão mais novo de meu pai) se reúne pelo menos duas vezes por mês, desde que me entendo por gente, apenas para conversar, celebrar os laços sanguíneos, e claro, beber vodka.

Até sinto saudade destes dias... Mas amo Londres, e não voltaria para a Rússia. Afinal, minha vida está construída aqui. Meus pais que me perdoem, sou imensamente grata a tudo, mas não volto pra casa...

Aleksei Verkko Khodasevich


Meu irmão, amigo, cúmplice, porto seguro. Desde sempre. Ele é seis anos mais velho que eu, e sempre cuidou de mim. Apesar de muito ciumento e superprotetor, sempre fiz questão de que ele fizesse parte da minha vida.

Quando eu era criança e tinha algum pesadelo, não era pra cama dos meus pais que eu corria, não eram eles que eu chamava. Era o Al. Era pra cama dele que eu corria, e dormia agarrada ao meu irmão, que mesmo sendo criança como eu, me dava toda a segurança de que eu precisava.

Brigávamos, claro, mas nunca demoramos mais de cinco minutos para resolver tudo e voltarmos a ver TV juntos.

Extremamente organizado, ficava bravo quando eu bagunçava as gavetas de meias e cuecas dele. E eu fazia isso sempre que ele saía com alguma namorada nova. Não que ele perdoasse algum namorado meu. TODOS apanharam dele. O único que conseguiu não se machucar muito e depois de um tempo conquistar a confiança e até a amizade do Al foi o Henry, já em Londres. E só deu conta porque joga rúgbi, estava acostumado com isso...

E teve até um episódio em que uma das namoradas dele apanhou de mim. Ainda na Rússia. Ele namorava a garota da minha escola, três anos mais velha que eu, quando se mudou para Londres, mantendo o namoro. E um belo dia, numa festa da escola eis que vejo a cretina escondida em um canto, aos beijos com um carinha da sala dela. Foi só eu me aproximar e o cara sumiu, deixando ela sozinha com toda a raiva que eu estava sentido. E ela ainda se sentiu no direito de me MANDAR não contar pro Aleksei. Não vi mais nada. Abri o supercílio e cortei a boca dela aos socos, das aulas de sambo que eu fazia há dez anos. E MANDEI ELA ficar calada, não contar a ninguém o que eu tinha feito, e principalmente o que ela tinha feito ao meu irmão. Acho que ela entendeu o recado. Terminou com ele sem mais explicações e sumiu das nossas vidas. Ele ficou muito mal na época, mas eu sempre o apoiei da forma que pude. Tanja tentava nos ajudar também, e era a única pessoa que sabia do ocorrido . E ele nunca soube dessa história, nem mesmo por mim.

domingo, 27 de setembro de 2009

Quem sou eu


Meu nome é Shantel Verkko Khodasevich. Tenho 23 anos e nasci em Moscou, Rússia. Meus pais são Diana Trevor Verkko Khodasevich e Isaack Rainer Khodasevich. Ela finlandesa, ele russo. Sempre criaram à mim e meu irmão mais velho, Aleksei, da melhor forma que puderam e isso diz respeito a dinheiro também. Sempre tivemos uma boa condição financeira. Minha mãe, com suas pesquisas botânicas em sua própria flora e meu pai militar, fazendo pesquisas para o exército russo, acho que algo relacionado a combustível para foguetes, mas não sei ao certo. Nunca soube, ele nunca fala muito sobre o trabalho. Crescemos em meio a uma família unida e grande. Meus padrinhos, um dos irmãos de meu pai e a única irmã de minha mãe sempre me trataram como filha, apesar de minha madrinha ter uma vida muito distante da nossa por viajar muito a trabalho com sua banda, morar ainda (mesmo que apenas para efeitos "oficiais") na Finlândia e ser apenas treze anos mais velha que eu. A minha melhor amiga era uma das minhas primas, Tanja, dois anos mais velha que eu. Aleksei, ela e eu não nos largávamos. Crescemos juntos.

Sempre fui impulsiva, quase complulsiva, desde criança. Minha avó paterna dizia que eu queria "abraçar o mundo", pois sempre tentava fazer algo para ajudar alguém ou alguma causa, mesmo que me prejudicasse e não encontrava limites para nada, não desistia e não deixava a história morrer no caminho. Por isso, seguindo os passos do sempre disciplinado Aleksei, comecei a fazer aulas de sambo aos três anos. Nesta mesma idade comecei a fazer aulas de música, por influência da minha madrinha, na tentativa de desviar minha atenção para algo que me trouxesse bem estar. Cheguei até a fazer um cursinho de maquiagem mais ou menos aos doze anos, junto com a Tanja, só porque nos interessávamos mesmo pelo assunto.

Me mudei para Londres aos dezoito anos, entre outros motivos, por não suportar a falta que meu irmão fazia em Moscou. Ele havia se mudado para cá seis anos antes para estudar. Aqui comecei a dar aulas de canto e de sambo para ajudar meu irmão no apartamento em que morávamos. Comecei as faculdades de Música e Educação Física no mesmo ano. Foi ali que conheci Henry, meu futuro noivo e sócio. Formada e com algum capital, abri uma escola de música e uma academia com o Henry. Moro sozinha em um loft ao lado das minhas escolas desde que meu irmão se casou com uma das minhas amigas da faculdade.

Com o tempo, minhas histórias serão contadas.
 

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