Eu estava em pânico, mas consegui me curar. O corte fechou de dentro pra fora e mesmo eu me concentrando apenas nele, foi o medo de morrer que me fez realizar o ato com muito mais eficiência. Até meu rosto ficou livre das cicatrizes das queimaduras, minhas sobrancelhas e cabelo ficaram iguais eram antes. Menos mal...
Volto ao quarto onde me instalei e deixo o copo debaixo da cama, encostado na parede, protegido de olhares curiosos. Fico deitada por uns instantes, esperando o mal estar passar, ou ao menos amenizar.
Saio à procura dos rapazes e encontro os três abrindo os contêineres em outra parte do porão do navio. Encontraram dentro deles suprimentos, equipamentos de escavação profunda e de mecânica, muitas peças para montagem e reparo de veículos para neve. E pessoas. Uma em cada um. Eram contêineres aquecidos e as pessoas sedadas e nuas que estavam em cada um deles estavam ligadas aparelhos que monitoravam seus sinais vitais, mantinham a dosagem de sedativo e os respiradores artificiais, além de soro, sondas para alimentação e outras, para dejetos.
Eu cheguei no momento e que encontravam Hector Hagis. Demorou, mas o reconheci. Em outro contêiner estava uma mulher, que reconheceram como uma tal de Dana Collins, a qual eu nunca havia visto, não fazia idéia de quem pudesse ser. Chamamos Miguel. Ele disse que imaginava que houvessem pessoas ali, porque ele mesmo acordou em um contêiner, nas mesmas condições dos outros. Continuamos a abrir com a ajuda dele, em busca de outras pessoas. E encontramos.
Não precisei de nem um segundo para reconhecer. Era meu irmão que estava dormindo ali, na minha frente, cheio de tubos. Não pude acreditar! O ódio, a revolta tomaram conta de mim como na noite em que me tiraram Anikka. Meu impulso foi arrancar tudo, acordá-lo, cuidar dele. Mas todos me convenceram que ele estava melhor que nós, pois tinha alimentação e hidratação na medida que lhe era necessário, além de estar aquecido. Lancaster pode ser chato e arrogante, mas é competente. Não conseguiria se manter na posição que ocupa se não fosse. Resolvo escutá-lo e deixo meu irmão dormindo. Todos me dão licença e eu fico ali, olhando meu irmão, segurando a mão dele e rezando pra eu encontrar logo o responsável por colocá-lo em risco.
Mas não fico ali muito tempo. Tenho que recuperar a jóia para deter quem quer que fosse, ainda mais sabendo que meu irmão estava ali, sem poder se defender. Agora eu tinha que consertar a jóia por ele também. No caminho, Erick me convence a comer. Eu não quero, mas preciso. Como uma pasta branca e sem gosto, mas nutritiva.
Vou até meu quarto e vejo que está funcionando. Noto alguns cristais se formando na rachadura, unindo as duas metades, mas ainda sim me parece muito frágil. Toco o sangue com meus dedos e me concentro em “curar” a pedra, assim como eu faço para me curar, e parece funcionar, mas nada significante. E eu começo a experimentar um pouco do que deve ser a tal sede...
Começo a passar mal, o enjôo de antes está muito forte. Corro para o banheiro e a pasta branca que eu havia comido há alguns minutos volta.
Lancaster e Erick me encontram saindo do banheiro e o doutor pergunta por que eu precisava da pedra. Explico tudo que sei e ele diz que se soubesse desde o inicio, não tentaria escondê-la de mim. Conclui que se pouco sangue está unindo as duas metades da pedra, mais sangue vai fazer ela se unir mais rápido. E me sugere usar a espada para conseguir mais sangue. Ela sangra quando apontamos para Erick, então colocamos o copo dentro de um balde e segurando a espada sem tocar nela diretamente, a aponto para ele mas nada acontece. Lancaster me pede para deixar ele tentar, mas pede para ficar sozinho. Ele consegue, de alguma forma, fazê-la sangrar e muito. Quase enche o balde. Ele disse que só tocou nela diretamente e ela sangrou. Quando tento, sinto ela me dominando mas eu resisto. Lancaster retoma e enche mais o balde, agora cobrindo o copo. Eu tento mais uma vez, mas de repente tudo começa a ficar vermelho.
Quando dou por mim estou parada, de joelhos em um corredor do navio, com a espada jogada no chão, cobertas de sangue. Eu e a espada. Não sei o que aconteceu nem quanto tempo se passou, mas já não sinto mais sede. Assustada, pego a espada com a manga da parka e volto ao meu quarto. No caminho não vejo ninguém. Me preocupa, mas preciso consertar a jóia antes de qualquer coisa. Noto a porta caída e as dobradiças cortadas com uma precisão inacreditável. Enrolo novamente a espada no couro e vou ao banheiro lavar rosto, mãos e cabelo. Logo Erick aparece, assustado, na porta do quarto. Vê que eu já voltei a mim. Então eu tenho uma idéia.
Seguro o balde, me concentro e jogo todas as minhas emoções lá dentro. Tenho flashes, com se fossem memórias de outras vidas. Sou uma mulher que foge de alguma coisa e eu sei que estou na África. De repente paro, me ajoelho na terra e a toco, sentindo a terra, a “mãe África” e o chão começa a tremer. Não só aquele lugar, mas toda a terra treme. Sou também um templário lutando com um sarraceno, quando tomo um golpe certeiro de cimitarra num dos olhos, me fazendo perder a visão e cair de joelhos com a dor. Me concentro e o sangue que saía do ferimento borbulha, como se fervesse e me cura, recuperando a visão daquele olho. Me levanto e volto a lutar, e é quando a visão acaba. Abro meus olhos e Erick olha pro balde, espantado. Ele diz que o balde brilhou em vermelho e me pergunta o que eu fiz. Explico, ele tenta e amassa o balde depois que as mãos dele brilham. Assustada, pergunto o que ele fez e ele calmamente me explica que é movido pela ira, e foi nisso que ele se concentrou enquanto segurava o balde... E parece que isso acelera um pouco mais o processo. Bom, porque chegaremos ao Ártico em menos de três horas.
Lancaster aparece no meu quarto, assustado. Erick diz que aparentemente consegui me conter antes de fazer alguma coisa, que o sangue em mim devia ser da espada mas o doutor discorda. Nos diz pra ir ver o porão do navio, onde a tripulação estava presa.
Chegamos lá e parecia cena de filme de terror B. Corpos retalhados por toda parte, a grade retorcida, aberta. Mas não eram cortes precisos, as partes pareciam ter sido arrancadas dos corpos, e não cortadas. E não havia marcas de sangue que indicassem que o que quer que tenha feito aquilo tenha saído dali. Acho que sei quem ou o que foi...

2 comentários:
Apesar de tudo, ter o diabinho lá e tal, ainda não ficou tudo claro quanto as mortes e etc... rs.
Só não coloquei que morreu todo mundo, mas acho que tá implícito, não?
Aumentar ainda mais esse post vai desanimar os "leitores imaginários", não acha? Rsrsr
Beijinhos!
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