Acordei em um lugar escuro, fétido, nauseante. Aos poucos meus olhos se acostumaram e percebi que estou no esgoto. Ao meu lado, uma pistola calibre 22, pequena, feminina. Sem documentos, sem memória. Não sei de onde vim e por que estou aqui. Não sei nem mesmo meu próprio nome. Não conheço meu rosto.
Passo horas gritando por ajuda, não antes de jogar a arma na água nojenta que corria ao meu lado. Mas o que me deixou confusa foi o fato de que sabia manusear aquele revólver... O que eu seria, o que aquela arma significava? Precisava sair dali, mas não podia ser pega com aquilo.
Finalmente, alguém me escuta e me tira dali. Me leva para um hospital. Não tenho opção melhor e afinal, preciso de um bom banho... No caminho acho um espelho. Ruiva, olhos muito azuis, pele branca, corpo bonito. Mas coberta de esgoto eu perco muito do charme que pareço ter. Estamos em Londres, em março de 2008.
O bem feitor que me tirou dali vai embora, sem mais. Exames feitos, banho tomado, medicação preventiva aplicada. Só me resta agora dormir. Os médicos ainda não sabem a causa da amnésia, já que não há sinal de concussão. Provavelmente, foi o trauma de ser jogada naquele lugar.
Adormeço, ainda sem saber quem sou e bastante incomodada com o cheiro que eu ainda exalava.
O dia seguinte é menos intrigante. Um homem bem bonito vem me ver. Diz se chamar Conrad Chevalier e ser meu irmão. Me chamo Stelle Chevalier, tenho 28 anos e serei levada para casa dele assim que os médicos liberarem. Peço roupas e alguns hidratantes, shampoos e condicionadores meus, para que me sinta mais limpa, ele concorda em levá-los mais tarde. Claro, depois que peço provas de que somos irmãos. Infelizmente alguns dos meus documentos estavam dentro da bolsa que perdi, mas ele tinha algumas provas suficientes para me fazer ir com ele tão logo fosse liberada.
Nesse mesmo dia mais tarde, sou visitada por outro belo homem, dessa vez um policial russo. Estou em Londres, mas sim, era russo. Aleksei Khodasevich. Foi ele quem achou meu irmão e está procurando pistas do que houve comigo.
Liberada do hospital, hora de ir para a casa do meu irmão. Ainda é meio estranho, mas era o que eu tinha de referência...
Ele tinha um carro muito bonito, que eu não reconhecia. Parecia importado. Ele abriu a porta pra mim e com cuidado me ajudou a entrar. Depois de nos afastarmos algumas quadras do hospital, ele diz:
-Nossa... To impressionado... Quase que eu acredito nisso também...
-Heim? Como assim?
-Diana, você é boa, mas não me engana... – ele ri – Os médicos, o policial, não têm sombra de dúvida que você é mesmo uma vítima com amnésia pós traumática! Tenho que admitir, você foi brilhante!
-Diana?? Quem é Diana?
-Diana... – ele olha assustado para mim – Você não se lembra mesmo? Não é possível, você TEM que estar brincando!
-Sinto muito, mas não estou... Não me lembro de absolutamente nada... Meu nome não era Stelle?
-Ai meu deus... Agora eu quero ver... Não se lembra do que fazíamos? Do seu contato? NADA???
-Desculpe... Não, não me lembro...
-Tá, eu vou te contar... – ele responde receoso e confuso.
Começo a ficar com medo de mim mesma...
Antes de chegarmos ao flat dele, ele me conta que meu nome (ao menos o que eu usei para me apresentar a ele na primeira vez que nos vimos) é Diana Trevor, ele é Steve Evans. Me explica que somos uma dupla de bandidos e vamos roubar uma peça, uma jóia de rubi em forma de rosa, de um leilão. Isso sendo explicita. Para ele somos “especialistas, os melhores do ramo”. Me conta alguns de nossos “trabalhos” e eu não acredito que eu consiga fazer as coisas incríveis que ele me disse que eu faço. Inclusive me mover debaixo de um trem em movimento,
Ele diz que precisamos sumir. Me diz pra limpar o lugar. Eu instintivamente sei o que ele quer dizer e o que fazer. Apago qualquer rastro de digitais e de DNA que possa haver naquele lugar, de nós dois. Encontro minha maleta de armas, com o espaço daquela que perdi no esgoto. É muita coisa... O mais curioso é que só de olhar, eu SEI como manusear cada uma delas... As conheço bem, sei qual usar em qualquer ocasião... Eu começo a acreditar em Steve.
Ele abre um fundo falso no porta malas do carro. Entre armas, celulares e disfarces, uma mala cheia de documentos de todos os tipos e nacionalidades. Para nós dois. Em cada um, uma foto caracterizada de acordo com o lugar de origem do documento. Escolhemos cidadãos americanos, em Londres a negócios. Chefe e secretária, que devem ter um caso.
Hora de trabalhar...
Antes de sair do flat nos caracterizamos para ficarmos iguais as fotos dos documentos de Audrey Miller e Edward Brown. A maquiagem é por minha conta e sim, eu tenho o dom.
Roupas de acordo com os personagens. Com um lenço, fechamos a porta e partimos para um hotel.
Como uma secretária eficiente faço nossas reservas num apartamento com duas suítes, escritório e sala conjugada num dos melhores hotéis de Londres. Meu chefe está numa reunião e eu tenho muitos papéis e relatórios a preencher, não quero ser incomodada.
O apartamento é fantástico. Enquanto Steve encontra outro meio de entrar em contato com nosso cliente, relaxo num belo banho na hidromassagem.
Pensando em tudo, me sinto cada vez mais Diana Trevor. Posso não me lembrar de nada, mas sinto isso tudo em meu sangue, correndo dentro de mim. Steve disse que fazemos isso pela adrenalina e sim, eu sinto isso. E parece ser essa chave do nosso sucesso. Acabo adormecendo.
Sonho que estou num quarto muito branco, com cheiro de hospital, usando pijamas. Olho para o lado e vejo um homem me observando, sério. Quando ele vê que acordei, diz:
-Diana?? Está conosco novamente?
-Sim... Eu acho... Onde estou?
-No hospital psiquiátrico Saint George. Sou seu médico, Dr. James Hewiski. Você teve outro surto. Me conte o que viu dessa vez, por favor.
Ele tinha uma voz suave, mas firme. Conto a ele tudo que passei desde que acordei no esgoto e ele ouve tudo atentamente. Quando acabo, ele diz:
-Então você sonhou com o futuro e com uma versão mais velha do seu filho? E claro, mais uma vez a jóia. Tudo girando em torno dela.
-Meu filho?? FUTURO?? Do que você está falando??
O doutor me olha sério. Ajeita os óculos, respira fundo e começa a falar:
-Diana, estou preocupado. Você não tem mostrado nenhum progresso quanto a essa obsessão pelo colar de rubi da sua família. Seu marido e o pequeno Aleksei anseiam por ter você em casa de novo, mas fica difícil com essa falta de avanço... Mais uma vez um devaneio onde você é uma aventureira num mundo futuro, envolvida com um bandido, atrás dessa jóia... Você se sente oprimida pela vida de casada, é isso? Queria viver algo diferente? Ter um filho e uma responsabilidade grande com apenas 22 anos deve mesmo ser difícil. Mas é tão ruim assim? Você é muito amada por eles.
-Pera, me explica? Futuro? Marido? FILHO??? Jóia de família??? Não estou entendendo nada! O que eu estou fazendo num HOSPITAL PSIQUIATRICO??

2 comentários:
Eu ainda não tenho certeza se você vai rir ou chorar com a forma como essa história vai terminar... *.*
O que não quer dizer que vai ser rápido.
Ainda tem muito pano nessa manga.
Eu quero ver!
*-*
Tô LOUCA pra ver!^^
Beijinhos!
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